Capítulo LXII - Mais um Caso das Amarguras da Vida A Rainha do Ignoto · Capítulo 62 de 70
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Capítulo LXII - Mais um Caso das Amarguras da Vida

Capítulo LXII - Mais um Caso das Amarguras da Vida

A Rainha do Ignoto fez a volta da cidade com a alma opressa de tristeza.

A narração sincera, que lhe tinha feito a pobre senhora tão cruelmente desherdada pelo capricho dos ricos, fez-lhe mal aos nervos.

O sol já quase sem raios, redondo e avermelhado baixava por trás das casuarinas do cemitério, e elas seguiram ao longo do muro já meio enegrecido pelo tempo.

O silêncio era completo na morada dos mortos; mas, além, na costa, o mar bramia soluçante unindo os seus queixumes à tristeza da hora e do lugar.

Uma poesia doce e compreensível só pelos filhos do infeliz e glorioso Ceará penetrava na alma sensível da Rainha do Ignoto como uma brisa impregnada do perfume das flores.

Chegou até o morro mais afastado, e de lá fitou uma jangada que fazia-se ao largo; havia sobre ela um caixão coberto por folhas de independência e enfeitado com muitos destes ramos verdes mesclados de amarelo.

Quase ao alcance das ondas estava ajoelhada na praia uma velhinha vestida de preto, ela cobria o rosto com as mãos e soluçava. Sua cabeça veneranda, coroada de cabelos brancos e curvada sob a imensidade do firmamento, só por si era uma prece sublime!

A Rainha do Ignoto adiantou-se para ela e lançando-lhe o braço à roda do pescoço, disse-lhe muito comovida:

— Porque derramais estas lágrimas? Derramai em meu peito as vossas dores...

— Perdi a última consolação de minha velhice! disse ela num grito soluçante arrancado do íntimo da alma!

E, erguendo a vista apontou para a jangada que fugia coberta de folhas de independência.

— Vai ali a minha Esther, está... morta! Em breve se abrirá o oceano e se fechará sobre seu corpo como a pedra de um túmulo imenso! de um túmulo soberbo!

A velhinha no desespero de sua dor falava como tomada de uma súbita alucinação.

— Pressinto na treva de vossas palavras um poema negro, disse a Rainha do Ignoto com interesse, já sou vossa amiga, contai-me a vossa história.

— Minha história é muito longa e cheia de peripécias angustiosas!

— Basta que nos conte os vossos últimos pesares, a causa da morte de vossa filha, o que significa o seu enterro tão extravagante!

— É tal a vossa bondade que me inspira confiança, eis o que me tem sucedido no fim da vida:

Sou viúva e pobre, tinha um filho e uma filha, eduquei-os nos bons princípios da moral e da religião, e mandei dar-lhes a instrução que estava de acordo com os meus poucos recursos.

Henrique tinha vinte e quatro anos, era de um gênio muito bondoso, muito delicado e demais, serviçal até ao extremo! O seu préstimo estava sempre à disposição de todos que o ocupavam, quer fossem ricos ou pobres. Na repartição em que era empregado gozava de tanta estima e simpatia que lhe puseram o nome de anjo da paz.

Ele era o meu arrimo e da irmã, que via nele quase um pai; pois ficou órfã em pequena e foi entregue aos seus cuidados fraternais.

Mas, ah! minha cara senhora, perdi o meu filho de uma febre má, e eram tão escassos os nossos recursos, que não tive com que comprar-lhe uma sepultura, arrendei o terreno por dous anos.

Passaram-se os dous anos, era dia de finados, fui com Esther ao cemitério e debalde procuramos a singela cruz aonde estava gravado o seu nome tão honrado, tão querido de nossos corações.

Eu desconfiava o motivo porque não encontrávamos a sepultura de Henrique; mas, tinha receio de comunicá-lo a Esther.

Ela tinha vinte anos; de espírito muito elevado, coração nobre e generoso; mas, de gênio altivo e violento! Toda ação bela e digna enchia-lhe os olhos de lágrimas, toda vilania a conduzia à mais alta indignação!

Adivinhou logo que os ossos de Henrique tinham ido para a vala comum... pelo motivo de não havermos renovado o aluguel dos oito palmos de terra aonde descansavam as cinzas dele.

Esther com as faces afogueadas! os olhos incendidos numa suprema dor misturada de cólera, exclamou: Já sei... os proprietários destes cômodos fúnebres mandaram sacudir para fora da sepultura os ossos de meu irmão, assim como os avarentos mandam atirar para a rua os móveis desmantelados de um miserável inquilino! Não me sucederá o mesmo... Juro pela memória de meu irmão que nunca me enterrarei em um cemitério tão acanhado... e tão rendoso! O mar será o meu túmulo! Que vão disputar meus restos às suas profundezas!...

Ela falava baixo; mas, na maior exaltação! De repente como se tivesse recebido no peito uma punhalada! cambaleou e eu apesar da fraqueza de minha idade amparei-a nos meus braços trêmulos e confundi os meus soluços com os seus.

Já mais acalmadas fomos até o pátio da capela, e ali encostadas à coluna de um mausoléu contemplávamos em silêncio o povo vestido de preto que entrava pelo largo portão do cemitério e se espalhava pelos túmulos. Alguns homens, e algumas senhoras vinham muito cheios de si por que traziam a seus mortos ricas coroas, luzes e tudo mais que pode satisfazer a vaidade humana; mas que não passa além do túmulo.

Na mesma ocasião em que um sacerdote oficiava na capela das almas, um moço de côro andava de papel e lápis na mão tomando nota das pessoas que queriam mandar rezar responsos por seus defuntos, a preço de cento e vinte réis.

— Tão caro... disse Esther abrangendo a cena com seu olhar cintilante.

Depois agarrou-me pelo braço e fugiu comigo por entre a multidão que voltava às suas casas.

O dia ia findando como hoje... triste assim... minha pobre filha semelhava a imagem do desespero! Tinha uma chaga no peito. Entrou em casa sem dar mais uma só palavra. Caiu sobre o leito atacada por uma febre horrível! Delirou toda a noite, e me cortava o coração ouvi-la dizer: Henrique! meu querido Henrique! meu bom irmão, já não sei mais aonde pairam as tuas cinzas! ai! meu Deus! me consolava tanto ler o seu nome nos braços daquela tosca cruz de madeira! ai! dizia soluçando, já não bastavam os ossos de minha adorada ama que não puderam ser regados com meu pranto porque não tive algumas moedas para lhe comprar um jazigo. Miséria! miséria! há tanta terra por esse mundo afora! Estou revoltada! Minha mãe venha jurar-me que mandará o meu cadáver para o fundo do oceano! Já tenho um túmulo soberbo! e sem pagar aluguel! ouvi, minha mãe! cubra o meu corpo com ramos de independência e mandai-me para o mar... é vasta! é muito vasta a praia de minha terra, ajoelhai sobre a areia e acompanhada pela orquestra tristonha das ondas orai por alma de seu Henrique e também de sua Esther.

Minha filha foi melhorando, passou a febre; mas, ficou imersa em uma tristeza profunda, uma espécie de indiferença pela vida. Quase nunca falava, conservava-se o dia inteiro muda; mas quando o relógio batia aquela hora em que ela tinha ido no cemitério procurar em vão a cruz com o nome de Henrique desparava a chorar e dizia: minha mãe jure que mandará o meu corpo para o mar... Quero tanto ao mar! Ele soluça tanto! É tão forte! tão altivo, sua grandeza me engrandecerá!... Prometa...

Eu prometia. Assim levou mais alguns anos, e hoje pela madrugada expirou em meus braços; lá vai ali coberta de ramos de independência, levada para o fundo do mar, o seu sonhado túmulo.

— E como conseguistes iludir a injustiça humana e fazer a vontade de vossa filha?

— Por um meio prodigioso! Apresentou-se-me um jovem pescador que eu não conhecia; mas que se mostrou senhor do meu segredo e se ofereceu para fazer tudo com a maior cautela e extrema prudência, respondeu ela.

Camilla Franco disse ao ouvido da Rainha do Ignoto:

— Tenho boa vista, conheci, no pescador da jangada verde, a nossa Ignez Racey.

— Bem senhora, disse a Rainha do Ignoto, não deve haver receio sobre o resultado da vossa empresa fúnebre. Quereis vir comigo?

— Estou só no mundo...

— Então vem?

— Sim, irei para onde queiras que eu vá.

— O vosso nome?

— Chamo-me Severa.

— Vamos, senhora Severa.

E a Rainha do Ignoto dando o braço à triste velhinha conduziu-a para o escaler que chegava à terra, tripulado por King e Fiel.

Vinham chegando algumas jangadas da pescaria, uma mesma passou perto do escaler de King; mas, nada viu fora do natural, eram marujos no serviço comum de algum dos navios surtos no porto.

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