Capítulo LXV - O Coração Vence a Cabeça
Capítulo LXV - O Coração Vence a Cabeça
Diana seguiu pela margem do Jaguaribe e parou ao pé de uma moita de mofumbo, tirou um cacho daquelas frutinhas brancas e semelhantes a confeitos, e olhava para elas com infinita tristeza.
O inverno tinha estendido no campo o seu tapete de flores. Eram as salsas vermelhas, as chananas brancas, as jitiranas azuis, os malmequeres amarelos e até as flores de zabumba e carros do santo, todos a bordarem o solo verde, onde de espaço em espaço se elevam para o céu, as palhas das elegantes carnaubeiras, a sussurrar com o vento que corre na várzea.
Mais adiante embriagavam os sentidos os aguapés da lagoa, abertos ao cair da noite.
Diana parecia sôfrega em respirar perfumes.
Não se cansava de admirar a natureza.
A lua vinha aparecendo, e os vagalumes cintilavam nos ramos dos joazeiros, nos troncos do pão d'arco e na relva florida da campina.
Ela colheu um desses insetos fosforescentes, trouxe-o a Odete, e disse-lhe:
— Tu que tens uma história terrível como... diz-me o que vês através desta luz? Nada, pois eu vejo o poema de minha infância feliz e animada.
Odete, ou Edmundo, em silêncio forçado não respondeu.
Ela continuou:
— A natureza tem uma alma. É a alma universal do infinito dos pensamentos dos seres. Em breve meu corpo também entrará para a corrente da vida universal: mas aonde irá este princípio que em mim pensa, sente e quer?
Nessas considerações aproximou-se da gruta, seguiu com Odete pelo caminho de ferro subterrâneo e apareceu sobre os morros da costa.
Na praia estava King, o seu barqueiro predileto: mas, ela demorou-se contemplando a lua e contemplando o mar em seu contínuo rumor, em seu contínuo lutar. Depois de um instante de silêncio, disse apontando para ele:
— Meu coração foi como tu, oceano! lidou sem cessar; mas, tu continuavas... e ele se despedaçou como esses navios que voam com o arfar de teu seio. Tu ficas e eu vou... adeus querido oceano, imagem de minhas dores, adeus. Tu guardas em teu seio tesouros que nunca foram vistos, e eu guardo em meu peito segredos que não foram adivinhados. As cãs de minha fronte são como a de tuas vagas! espuma vaporosa, onde se reflete a luz da lua, o cintilar das estrelas e o clarão do sol. Adeus irmão de minh'alma, retrato de minha vida, adeus.
E acenando com o lenço para o mar que bramia a seus pés, parecia a estátua da saudade.
Tomou o bote e cobriu o rosto com as mãos.
Estava em um desses momentos terríveis da vida, cheio de alternativas nervosas! e assim chegou ao Ignoto.
A noite já ia quase em meio. No céu não se via uma só nuvem! E o luar muito belo entrava pela janela do mirante, onde a investigadora da ciência química, a boa Edealeda Cruz fazia as suas experiências.
Ela terminou uma elaboração, leu alguns rótulos dos frascos que enchiam as prateleiras, arrumou umas drogas em um almofariz e começou a misturá-las.
Bateram três pancadinhas na porta.
— Quem é? perguntou ela se levantando para abrir.
— Alguém que precisa de vós, disse a Rainha do Ignoto entrando.
Ela foi sentar-se junto à janela, e olhando para o jardim banhado pelo luar, via-se que estava preocupada por uma ideia constrangedora.
— Venho pedir-vos o produto de mais um esforço na ciência que cultivais, disse ela.
— Será ele possível? perguntou a boa velhinha, já receosa dos extraordinários imaginados pela Rainha do Ignoto.
— Não sei, parece que sim, mas... quero.
— Ai! ai! ai! Já vou eu meter-me em dificuldades, resmungou Edealeda, diga o que é?
— Conversemos primeiro, o assunto é muito fino.
— Pois seja, disse Edealeda, sei bem que me levará por bom caminho, não temo transviar-me, sei que não há de querer o mal da humanidade.
— É para fazer bem à metade dela, que venho interromper-vos. Diga-me uma coisa, sabe aonde é o inferno?
A velhinha assustou-se, deixou o almofariz, onde moía as drogas, e foi firmar os cotovelos em uma mesa defronte da Rainha do Ignoto e sem desviar a vista do rosto dela, respondeu:
— Não sei, e quem saberá?
— Sei eu.
— Aonde é?
— No coração da mulher que ama a despeito de tudo que lhe deveria levar ao ódio.
— E onde está esta mulher que tem o inferno no coração?
— Está por aí além envolta no manto de seu pundonor ou arrastando o baraço do ridículo no pelourinho da opinião pública.
— Que quereis que eu faça?
— Quero um preparado que adormeça a sensibilidade, que produza a indiferença; mas, uma indiferença parcial.
— Não posso...
— Por quê?
— Deveis saber por quê; mas, dizei-me para quem é isto?
— Não vos importa saber.
— Sois vós então... Amais, Senhora?
— Não Edealeda, respondeu ela com exaltação, eu não amo, porque os homens são traidores, são infiéis! E se a Rainha do Ignoto tivesse uma rival seria uma assassina! Seria mais! arranjaria um dinamite que atirasse pelo espaço os fragmentos deste mau planeta!
A pergunta de Edealeda exasperou-a, tirou do bolso do vestido um pequeno revólver e pô-lo sobre a mesa junto da qual jazia de pé.
— Minha filha o que é isto? perguntou Edealeda com a vista espantada.
— Tem medo? Não vos faço mal.
— Dai-me este revólver Di...
— Não pronuncieis esse nome que me deram em criança, porque as suas sílabas terminarão com a detonação de um tiro.
A Rainha do Ignoto tinha o revólver encostado à fronte.
Edealeda exclamou prendendo-lhe o braço:
— Que ides fazer?!
— Dai-me o preparado para a indiferença!
— Produz a imbecilidade...
— É melhor ser imbecil...
E dirigiu-se para as prateleiras.
Edealeda quis defender os seus produtos químicos da agressão violenta da Rainha do Ignoto, mas foi tarde. Ouviu-se uma tempestade dentro do laboratório! Os frascos caíram em fracassos no chão do gabinete.
A velhinha desparou em pranto, via desaparecer uma série de resultados difíceis que eram a felicidade de sua vida.
— Sou louca! Edealeda, sou louca! Minha vida é uma loucura! disse a Rainha do Ignoto abraçando-a, perdoa-me, perdoa-me.
E soluçou com a pobre Edealeda que repetia:
— Eu vos desculpo filha, não há mulher forte. O coração vence a cabeça.