Capítulo XXXII - O Almoço a Fantasia na Sala das Estações
XXXII - O Almoço a Fantasia na Sala das Estações
A sala das estações era um deslumbrante aposento que só se abria uma vez por ano na mesma época. Reuniam-se no palácio do Ignoto quase todos os habitantes da Ilha do Nevoeiro, para ver a grandeza e o luxo do almoço que a rainha dava às enjeitadas do recolhimento que chamavam Ninho dos Anjos.
Na sala das estações haviam quatro mesas tendo a forma do quadrante terrestre, colocadas de forma a deixar um passeio em cruz e outro circular.
As crianças do Ninho dos Anjos eram quem representavam a Primavera e estavam ornadas de grinaldas de flores, e tinham os vestidos enlaçados de mimosas trepadeiras, de forma que sobressaíam, entre a verdura, seus alegres rostinhos: brancos, morenos, bronzeados e até negros, todos corados e de olhos vivos como vagalumes.
Elas ainda estavam divididas nos três signos: as que representavam o 21 de Março estavam vestidas de pele de carneiro de uma lã alvíssima e se chamavam Áries; era este traje o prêmio que ganhavam aquelas que durante o ano mais se distinguiam por sua docilidade, obediência aos mestres e boa aplicação aos estudos.
Os meninos representavam o signo Tauros, estavam vestidos de pele de touro, e traziam pequenos chifres de ouro, de prata, de marfim e do mesmo chifre, conforme o merecimento de cada um.
As Gêminis andavam aos pares, de vestidos cor de rosa, ornados de folhagem.
Para aquelas crianças era aquele dia um divertimento com que sonhavam todo ano.
Quando elas se viam sentadas, por ordem, em roda daquela mesa de marfim com toalha de brocatel, exultavam de prazer.
Cada uma ficava estática diante de seu prato de cristal finíssimo no fundo do qual transparecia uma grinalda de flores; uma menina virava os talheres de prata com cabos de coral cravejados de ouro, outra não cessava de admirar os guardanapos feitos de pele de arminho. Outras pasmavam ante os variadíssimos manjares nas formas mais alegres e pitorescas de animais e de plantas.
Na segunda mesa, a que representava o Verão, estavam as Paladinas do Nevoeiro ocupando os lados da mesma, com a Rainha do Ignoto no vértice. Era ela somente que representava o signo Leo e estava caracterizada de leão. Vestia uma jaqueta de fazenda à imitação da pele do animal, e trazia uma máscara com juba que lhe dava uma graça selvática e imponente.
As paladinas do signo Câncer tinham os cabelos e os vestidos ornados de caranguejos artificiais, as do signo Virgo trajavam túnicas de seda branca apertadas à cintura por cintos de ouro, e tendo sobre os cabelos soltos uma faixa azul que amarravam a roda da cabeça em forma de diadema.
Na mesa haviam pratos imitando as mais lindas conchas que se conhece, e outros de ouro em forma de estrela, só o da Rainha do Ignoto era de carvão de pedra com um diamante no meio e as bordas espiguilhadas de alfinetes d'ouro.
Nessa mesa dominavam os ornatos à imitação do reino mineral.
Para a mesa do Outono chegaram os industriais representando o signo Libra, vinham coroados de louro, sustentando balanças de prata carregadas de frutas. As suas mulheres traziam vestidos de fazenda escura com lacraus bordados a ouro; representavam o signo Escórpio, e os filhos representavam o signo Sagitário, traziam setas à moda selvagem.
Na quarta mesa, a da estação do Inverno, vamos encontrar alguns velhos do recolhimento Desconsolado representando o signo Capricórnio, trazendo longas barbas brancas, e sobre os ombros um manto de pele de bode. No rosto destes se via um certo ar brejeiro que nem a idade, nem o infortúnio tiveram poder de acabar.
O signo Aquário era representado pelos cegos, os quais traziam os cabelos como flocos de neve, e todos os seus trajes eram nebulosos. O resto das infelizes do recolhimento vinham adornadas de escamas, representavam o signo Pisces.
No passeio em cruz, colocada entre os quatro vértices das mesas triangulares, estava a orquestra regida pela maestra Angelina Dulce, que com suas discípulas vestidas de ló azul claro formavam uma nuvem com arco-íris em transparência.
Ao começar o almoço, rompeu a orquestra em uma sinfonia suavíssima.
As paladinas de ordem inferior serviam as mesas, representando as silvanas dos bosques.
Por alguns momentos só os talheres e os pratos tiveram a honra de moverem-se de parceria com os queixos, depois as crianças nos limites da liberdade que lhes concedia uma sólida educação conversavam, riam, recitavam discursos, versos, e faziam brindes levantando pelo pedúnculo as rosas de cristal que lhes serviam de cálices.
A Rainha do Ignoto não comia e nem bebia; mas, para corresponder às saúdes que lhe faziam as crianças e ao mesmo tempo as suas paladinas, despejou um líquido escuro d'uma garrafinha em seu cálice d'ouro, onde se enrolava uma áspide ou basilisco, e nele molhou os lábios: era fel! pois o Dr. Edmundo com a liberdade que lhe concedia o nome e a máscara da infeliz Odete, provou-o.
Por toda parte, dentro e fora do palácio, pelos jardins, se comia e bebia na mais alegre expansão d'alma.
Havia, contudo, três corações alheios à festa: o do Dr. Edmundo, pela falsa posição que ocupava, o de Probo, pelo ruim projeto que maquinava, e o da Rainha do Ignoto por motivos conhecidos só por ela.