Capítulo LXVI - A Volta da Felicidade
Capítulo LXVI - A Volta da Felicidade
Carlotinha de volta do cemitério entrou em casa impressionada com o encontro que tivera. Aquilo era um acontecimento para a monotonia daqueles três anos de tristeza.
Não lhe saíam do pensamento as palavras de Diana, pois lhe tiravam parte de suas ilusões infantis, e lhe deixavam ver um pouco da dura e amarga realidade da vida.
Mas elas não tinham o poder de convencê-la do engano de seus próprios sentimentos; estava bem certa de que amava, e amava sem remissões.
Travou-se em sua alma uma luta entre o desengano e a esperança, esta venceu por fim, e Carlotinha concordou consigo mesma que uma mão providencial protegia o seu afeto.
Estava nestas cogitações quando lhe apareceu a tia Úrsula com olhos de quem traz novidade.
— Sabe, menina, quem eu vi agora?
— Quem, tia Úrsula?
— Adivinhe...
— Não sei.
Carlotinha tratava a tia Úrsula com a maior condescendência, havia tomado a seu serviço só pelo gosto de ouvi-la falar no nome do Dr. Edmundo, elogiar-lhe os dotes físicos e morais, as boas maneiras do moço. Isso não só a consolava, como poderia destruir um pouco da prevenção que Henriqueta tivera a habilidade de plantar no ânimo do Sr. Martins contra ele.
— Não adivinha? tornou ela.
— Não posso, tia Úrsula, diga quem foi...
— O Adriano...
— Ora, disse a moça fazendo beiço, pensei...
— Pensou o que? perguntou tia Úrsula com seu bocainho de malícia.
— Que me falava de gente, respondeu Carlotinha sobressaltada.
— E o Adriano não é gente?
— É, mas...
— Mas o que, menina?
— A tia Úrsula está hoje engraçada, quer me enfiar, disse ela, já meio corada, meio risonha.
Então a mulata tirou do seio uma carta e atirou com ela ao colo de Carlotinha dizendo:
— Está o que o Adriano me entregou para a menina.
A moça por um sentimento de dignidade quis rejeitar a carta; mas a tia Úrsula fugiu para o quintal e D. Raquel entrou na sala.
Carlotinha ocultou o papel no bolso do vestido e beijando a mão que a mãe lhe estendia recolheu-se ao quarto de dormir.
Acendeu a luz, e enquanto abria o envelope, as mãos lhe tremiam. Seu coração adivinhava uma aurora de felicidade.
Depois leu com vista turva:
Carlotinha.
Sei que tem guardado n'alma singela e pura, e já há três anos, a verdadeira ideia, o bom conceito daquele que nunca deu motivo para se desconfiar de seu bom senso nem de seu caráter; portanto rogo-lhe que espere confiante o sincero agradecimento que irá em breve, pessoalmente levar-lhe quem se preza de ser homem de bem.
E...
Carlotinha devorou com a vista aquela inicial, desejou-a ligada a outras letras que formassem o nome que tinha em mente.
Encheu-se-lhe o peito de um louco contentamento, e seu coração não se enganava, era dele a missiva.
A dor e o prazer são dois extremos: as grandes alegrias assim como as grandes aflições tiram o sono.
Carlotinha não dormiu naquela noite.
Se o Dr. Edmundo já tivesse podido abandonar o seu papel de Odete, e estivesse em seu quarto de dormir da casa do fim da rua, teria ouvido ranger o armador da vizinha como na noite em que ambos pensavam em alvos diferentes.
Mas os tempos eram outros; agora em quanto ela ao mole balanço da rede recordava uma a uma as cenas do passado, ele embora distante na cabana do caçador de onças, imaginava o seu romance e dava-lhe o título de — A volta da felicidade.
Ele tinha chegado ao porto de salvação depois do naufrágio dos mares funestos, ia velejar em águas mansas, soltar a barquinha de seu coração, no lago azul sereno dos olhos de um anjo.