Capítulo III - Dois Tipos de Criados
III - Dois Tipos de Criados
Pelas dez horas do dia entrou Adriano satisfeito, tinha arranjado tudo, inclusive a cozinheira, uma mulata de quarenta e tantos anos, asseada, bisbilhoteira e alegre.
Entrou desembaraçada, e começou brigando a arrumar a cozinha, e a especular ao criado pela vida do Dr. Edmundo.
Adriano respondia-lhe com chascos e burlas que a Úrsula, assim se chamava ela, tolerou ao princípio; mas foram tais as gaiatices, que ela perdeu a paciência e, deixando os bifes que estava temperando, empertigou-se toda, e pondo as mãos às ilhargas disse:
- Eu te arrenego, pé de pato; pensas, endemoniado, que todos aqui são matutos? Eu também já andei lá pelas outras terras, já cozinhei para muitos senhores e senhoras de bem!
Adriano respondia-lhe com outras graças e piruetas.
- Vai-te para lá, maroto! dizia a tia Úrsula, meio séria; afinal não teve outro remédio senão rir-se, pois ninguém podia zangar-se com aquele tipo de criado raro.
Ele também, como o amo, tinha seus predicados muito apreciáveis para os de sua laia; além disso, era fiel, habilidoso com jeito para tudo, gaiato e um pouco entremetido dentro dos limites do respeito, falta esta que Edmundo tolerava em atenção às suas outras qualidades necessárias. Eram quase da mesma idade, servia-o desde a infância, viajou com ele, portanto o estimava quanto era possível estimar um servo de muitos anos.
Com poucas horas de convivência com o criado do doutor, a gorducha cozinheira reconheceu que o seu gênio folgazão lhe quadrava perfeitamente, e, virando-se às boas, com ares de santa que não critica de nada, enquanto preparava o almoço contava-lhe a vida da maior parte dos habitantes do lugar, acabando por dizer:
- Ainda agora há pouco, a Carlotinha me perguntou se o Sr. Dr. é casado ou solteiro, e eu disse: sei lá...
- É casado sim, afirmou Adriano.
- Deixa-te de prosa, que eu já sei que não é...
- E por que não disse à moça o que sabia?
- Porque ela é um anjo, e não quero que vá se engraçar dos enfunados da cidade, para depois ficar chorando de saudade enquanto eles se põem ao largo.
- Quem é esta Carlotinha? tia Úrsula, perguntou Adriano.
- Caluda! disse a tia Úrsula, pondo o indicador sobre os lábios para fazer silêncio; é a filha de D. Raquel, a professora aqui da casa vizinha, já hoje a vi à janela duas vezes.
- Ah! Já sei, é uma moça loura, bonita... disse Adriano.
- Sim senhor! bonita e boa! A primeira cá da terra. O pai é arranjado, tem uma boa fazenda na mata, e, depois, a mãe também tem seu ordenado, e traz menina que é um gosto vê-la! Quando aparece uma moda é a primeira a botá-la. E aqui para nós, é a mais jeitosa; as outras são umas empanturradas que lhes não acho sal.
E a cozinheira fazia trejeitos arremedando as moças do lugar.
Adriano aplaudia a comédia e instigava a tia Úrsula a continuar nela; mas de repente perguntou:
- Mas que diabo é esta Funesta de quem ouço falar por toda parte? Ainda pela manhã, quando fui às compras na taverna do Vital, ouvi dizer que é uma moça encantada que vive na gruta do Areré. Isto é verdade?
- Ai! quem me dera que fosse mentira!.. disse a tia Úrsula, comicamente triste; ainda esta noite, pela madrugada, andou ela por cá a fazer diabruras! Onde aparece deixa o sinal. Olhe, para o amanhecer de hoje, furtaram os porcos do Zé Pereira! Num samba que houve ali para baixo, o pau roncou! E quem ficou com as cacetadas foi o pobre do Chico Timbalba...
O Adriano deu uma gargalhada:
- Forte admiração, tia Úrsula, em toda parte não se furta, não se briga? Ora essa!
- Já vem o desavergonhado com as estúrdias dele, disse a cozinheira desconfiada, bem sei que, em toda parte, se furta e se briga; mas isto aqui nunca se dava; depois que a tal de Funesta começou a sair da gruta e a passear de noite pela povoação... olha lá furto! Olha barulho! disse ela ainda arregalando os olhos e movendo a cabeça em sinal afirmativo.
- Olé! que povo tolo! exclamou Adriano.
- Tolos são vocês lá da cidade, que são uns incrédulos!
O Dr. Edmundo, que andava passeando da sala até a varanda, ouviu a conversa da cozinheira com Adriano, e durante o resto do dia, não pensou em outra coisa senão na aparição da noite. O seu maior desejo era visitar a gruta.