Capítulo XXIII - Um Caso dos que Vão pelo Mundo, Continua a Narração do Caçador de Onças A Rainha do Ignoto · Capítulo 23 de 70
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Capítulo XXIII - Um Caso dos que Vão pelo Mundo, Continua a Narração do Caçador de Onças

XXIII - Um Caso dos que Vão pelo Mundo, Continua a Narração do Caçador de Onças

O Dr. Edmundo pensou toda noite, no que ouvira contar o caçador de onças; não podia acreditar em tudo aquilo, porque lhe pareceu exagerado; mas abstraindo o verossímil do inverossímil, achou que ainda ficavam coisas muito interessantes e dignas de ser estudadas.

Desde a leitura daquela carta que encontrou no monte com assinatura extravagante e ideias incompreensíveis, que houve em seu espírito uma grande transformação: o que foi um sonho, um devaneio de moço, era agora um estudo do coração da mulher, um fato psicológico que pretendia investigar, custasse-lhe embora a vida; mas havia de arrancar o segredo àquela esfinge de mulher.

No dia seguinte às mesmas horas estava no lugar aprazado esperando o caçador de onças, este não tardou muito a aparecer, levou-o para a cabana, e continuou a narração interrompida:

- A princípio, disse Probo, eu zombava da Roberta, chamava-lhe visionária, dizia-lhe que ela estava com o espírito imbuído de magias; mas uma noite ela me disse:

- Observa, Probo, e depois julga. Hoje vai haver sessão, estamos num porto, disse-me a Brasília que vem entrar para o Ignoto mais uma Paladina, se queres assistir à bruxaria, como tu chamas, anda comigo a um lugar donde poderemos ver sem ser vistos.

- Acompanhei a Roberta, nos escondemos, e vimos o que se passa no salão de ré naquela hora defeso para nós. Ali estava a Rainha do Ignoto, muito pequena e muito franzina; mas de porte airoso e gestos soberbos! Trajava vestido de veludo preto, e tinha um diadema cravejado de brilhantes; mas, estava como sempre, mascarada.

Ela passeava em frente duma espécie de trono que havia dum lado, quando entrou outra, e fez-lhe continência, era a generalíssima, uma bela moça de 26 a 28 anos, muito alta, muito elegante e muito loura; trajava sobre o vestido de seda branca casaquinha de veludo azul ferrete com todas as insígnias militares do posto. Aproximou-se e disse:

- O que ordena Vossa Bondade?

- Que hoje não haverá sessão solene, disse, é muito especial o caso que acabo de ter notícia... desejo falar já com minha médica Clara Benícia; ela não voltou ainda de terra?

- Saiba Vossa Bondade que sim, e não tardará vir à vossa presença.

Inclinou-se e saiu sem voltar as costas. A médica entrou logo depois; tinha pouco mais ou menos a idade da primeira; era morena, e posto que não fosse tão bonita, não podia haver mais simpática! Muito alegre, e pelos modos familiares com que entrou pareceu-nos ser a predileta da rainha. Sentou-se diante dela e começou assim:

- É triste! muito triste a minha mensagem! O ano passado quando Vossa Bondade deixou-me nesta cidade encarregada daquelas doentes, eu achei-me despachada delas logo depois dum mês: uma está tísica e morreu-me nos braços pronunciando baixinho como um suspiro o nome do marido ingrato, que no clube sentado à banca do jogo já nem se lembrava do amor e da fidelidade que lhe jurou ao pé do altar; a outra restabeleceu-se depressa, ou esqueceu o seu Sireno, ou se consolou; deu uma mania religiosa e entrou para um convento. Mas quando tratava de partir e pensava gozar da vossa companhia e da de nossas amigas, eis que me aparece um caso novo mais terrível que os precedentes...

- Qual foi ele? perguntou a Rainha do Ignoto.

- Estando eu uma noite, disse a doutora, à varanda do chalé em que Vossa Bondade me deixou, e olhava para a sala da casa fronteira, quando vi de pé no meio dela uma moça de quinze a dezesseis anos, ficava por baixo do lustre aceso, e gesticulava com uma energia desusada! Era digna de nota a expressão de seu rosto e de seus modos: ela fechava o punho e estendia o braço na direção da rua; por fim tirou do bolso do vestido uma fotografia, rasgou-a freneticamente e atirou os pedaços pela janela, e eles se espalharam ao longo da calçada.

Mal voltou ao peitoril da janela caiu pesadamente estendida no soalho!

- Eram dez horas da noite, a rua estava deserta, desci a escada correndo e entrei naquela casa. A moça não dava sinal de vida, parecia morta, tomei-a nos braços e levei para o sofá. A casa pareceu-me de tratamento; mas, não aparecia ninguém, depois, com o barulho que fiz de encontro às cadeiras, apareceu uma criada velha que caiu de joelhos chorando ao lado da moça que continuava desmaiada.

Dei-lhe alguns remédios para alívio do corpo que d'alma nada sabia. Ela abriu os olhos e tornou a fechar, estava menos ofegante e pareceu-me adormecer, então perguntei à velha: - Aonde está a mãe desta menina?

- No teatro, respondeu-me ela, com ar de quem deseja ser interrogada.

- E você o que faz ou o que é nesta casa?

- Eu fui ama de leite da mãe, e também criei a filha nos meus braços, disse ela, é por isso que sinto tanto esta embrulhada... esta miséria! Ah! senhora, quem põe os pés aqui na terra deve todos os dias bater com uma pedra nos peitos pedindo misericórdia para seus pecados.

Conheci logo que ali havia um destes dramas íntimos da vida, que não vão ao palco e que ninguém lamenta. Procurei ganhar a confiança da pobre ama, e ela contou-me tudo: a menina chama-se Odete, é filha duma viúva que conta apenas 32 anos, mais bonita e mais espirituosa que ela. Só faz um ano que ficou órfã, e já por aquele tempo estava apaixonada por um guarda-livros da casa comercial de seu pai; o moço, que não contava com a morte repentina do patrão, parecia ainda mais empenhado que ela na realização da futura aliança; mas a morte do pai de Odete fez as coisas mudarem de figura. A mãe que era mais fina para os negócios e muito jeitosa para o namoro, arranjou as coisas de forma que lhe ficou melhor quinhão de herança e de amor. A filha muito acanhada e excêntrica, nunca deu a perceber aos estranhos o segredo de seu coração. Quando conheceu que o seu sonhado noivo se tornava menos amável para consigo e mais atencioso para com sua mãe, tornou-se impaciente, frenética, quase intratável para com todo mundo, principalmente para com ele, que já a tratava com indiferença.

Naquela noite, disse-me a ama que ela estava pronta para ir ao teatro com a mãe; mas, que esta tendo-lhe declarado o seu próximo casamento com o guarda-livros, ela obstinou-se em ficar, e o resultado já eu sabia, foi o desmaio.

Deixei-a ficar aos cuidados da ama, e, só voltei no dia seguinte. A doente tinha piorado, e piorado muito! ardia em febre! delirava horrivelmente; mas, mesmo no delírio, nunca disse uma inconveniência que comprometesse a mãe.

Não a deixei mais. Ela lutou oito dias com a morte e afinal a mocidade e a robustez triunfaram, curou-se; mas ficou muda! Não houve mais quem lhe ouvisse uma palavra! Estava passando por idiota.

Ontem quando o Tufão se aproximava do porto, tinha lugar a cerimônia religiosa do casamento da mãe de Odete. A pobrezinha, com ar aparvalhado, seguia o acompanhamento toda vestida de galas levando no peito o coração coberto de luto, servindo de esquife a seus sonhos de moça.

Eu coloquei-me por trás duma coluna da igreja, e vi passar o luxuoso cortejo. Odete ia de braço com um velho comendador, era a última, voltou a cabeça, viu-me, e deixou o cavalheiro para vir cair-me nos braços abafando um soluço.

Fi-la cheirar uma flor que levava preparada, e ela adormeceu imediatamente. Protegida pelas sombras dos corredores conduzi-a a uma porta lateral, e ajudada por Feliadela Cruz meti-a no carro, e segui para o chalé; mas, só agora à noite podemos vir apresentá-la a Vossa Bondade.

- Onde está ela? perguntou a Rainha do Ignoto, está a bordo?

- Está, disse a médica Clara Benícia, já soubemos que a mãe teve uma noite de núpcias angustiada, e que a tem mandado procurar por toda parte.

- Dra., disse a Rainha do Ignoto, todo o mundo tem obrigação de respeitar os direitos adquiridos por um coração sincero. Uma rivalidade não se perdoa nem a uma mãe! Onde está Odete? Quero vê-la.

A doutora Clara Benícia saiu e tornou a entrar com Odete.

- O Sr. a viu? disse o Dr. Edmundo.

- Vi, respondeu Probo, estava vestida de branco, em pé, firme e direita como um fantasma, diante da Rainha do Ignoto. Tinha a altura média de um homem, sem ser propriamente feia deixava de atrair pela falta de graça em seus movimentos automáticos e o pouco jeito de seu corpo de rapaz. Em compensação tinha um bonito cabelo preso em duas fartas tranças; mas, silenciosa e triste aproximou-se duma mesa aonde viu uma tesoura e com a maior rapidez cortou-as, e as tranças caíram estendidas no soalho como duas grandes cobras.

- Por que deixaram-na fazer tal coisa! lamentou o Dr. Edmundo.

- A doutora deu um grito, disse Probo; a Rainha do Ignoto perguntou calmamente: - Por que fizestes isto?

- Ela não respondeu, pôs a mão sobre o peito e apontou para o céu. Duas lágrimas correram-lhe lentamente pelas faces.

- A verdadeira estátua da dor, disse o Dr. Edmundo.

- A Rainha do Ignoto estava comovida, volveu Probo, ela perguntou à médica Clara Benícia:

- Não há um remédio que faça esta pobre menina esquecer este cruel episódio de sua vida? É ainda tão nova! quinze anos só! Veja se pode curá-la.

- Há meio de fazer perder a memória totalmente, em parte só a natureza, disse a médica.

- Sinto-me pouco disposta a discutir este assunto; mas ainda lhe provarei o contrário, volveu a rainha, diga-me, esta menina tem as faculdades mentais alteradas ou goza do uso perfeito delas?

- Presentemente sofre no sistema nervoso, os filetes dos nervos sensitivos foram profundamente abalados, e os motores não foram menos, eis porque tem estes movimentos rígidos e ainda perdeu a fala; mas estou certa que com o andar do tempo virá a perder de todo a razão.

- Bem, disse a Rainha do Ignoto, vou tomá-la para o meu serviço, a Brasília fala muito, e eu sempre imaginei uma camareira muda.

A Dra. Clara Benícia retirou-se com Odete e a rainha sentou-se a uma mesa e começou a escrever. Nem sabe, Dr., como voltei desgostoso pela derrota da linguareira Brasília que naquele lugar nos seria muito útil.

- E depois Sr. Probo, perguntou o Dr. Edmundo, que viu mais?

- Viajamos muito, vi tanta coisa que a contar chamariam-lhes contos de mil e uma noites! Depois voltamos para o Ignoto, palácio que ela tem na ilha que já falei.

- O que me disse, Sr. Probo, já é tanto que não sei como poderá existir mais! disse o Dr. Edmundo em ar de dúvida.

- Afianço-lhe, Sr., que isto é ainda uma parte infinitesimal do todo!

- Desculpe-me, Sr. Probo; mas não posso acreditar... Só vendo, tornou o Dr. Edmundo.

O suposto caçador de onças exaltou-se e bradou:

- Comprometo-me a fazê-lo ver tudo quanto lhe disse; mas com a condição de que confesse que não sou um visionário!

- Como é fácil a condição aceito a proposta, disse o Dr. Edmundo saindo, voltarei logo.

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