Capítulo XXVIII - Uma Sessão da Maçonaria das Mulheres no Salão do Nevoeiro A Rainha do Ignoto · Capítulo 28 de 70
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Capítulo XXVIII - Uma Sessão da Maçonaria das Mulheres no Salão do Nevoeiro

XXVIII - Uma Sessão da Maçonaria das Mulheres no Salão do Nevoeiro

Dava meia-noite no relógio da torre pontiaguda do palácio da Rainha do Ignoto, quando o Dr. Edmundo fingindo Odete sentou-se em seu lugar, e patenteou-se à sua vista um verdadeiro milagre d'arte!

As paredes do salão imitavam perfeitamente as tramas ou nevoeiros que cercam um navio no alto mar:

O mosaico do ladrilho representava o oceano doce e calmo, e no teto estava a imitação do céu levemente azulado e nebuloso, deixando ver a lua que derramava uma luz branda misturada de poesia e de saudade.

A nova Odete por baixo da máscara abria muito os olhos para ver os rostos d'uma centena de mulheres, que, a avaliar pelas aparências, as mais novas teriam vinte e quatro anos e as mais velhas quarenta. E entre elas haviam algumas admiravelmente belas!

O trono da Rainha do Ignoto era uma espécie de morro, cujas brancas areias pareciam prateadas pelo luar:

Sobre aquele cômoro artificial havia uma enorme concha marinha onde se sentava a soberana misteriosa coroada de louros, e sustentando uma lira de marfim com cordas d'ouro!

Via-se espalhados pelo nevoeiro pequenos barcos, em forma de cisnes, cheios de paladinas empunhando os remos.

Entre os diversos grupos que enchiam o recinto do salão, e que não se podia abranger dum golpe de vista, distinguiam-se as da orquestra: estavam vestidas de cetim verde, e tinham os cabelos semeados de pirilampos.

Uma delas sentada ao piano esperava que a maestra desse o sinal, enquanto outras sustentando suas harpas, flautas e violinos olhavam para ela na expectativa.

Rompeu enfim a música acompanhando um hino de uma beleza extasiadora!

Parecia subir e descer na escala cromática de todos os tons maiores e menores: ora era doce e melancólico como a voz do sentimento em uma balada amorosa! às vezes alegre e vivo como o prazer resalente d'uma louca felicidade! e terminou com entusiasmo guerreiro!

O silêncio tornou-se tão profundo que se poderia ouvir o bater das asas dum inseto!

A secretária falou assim:

- Irmãs na fé, irmãs no desterro, a soberana do Ignoto, a musa do Nevoeiro vos faz saber que a sessão de hoje não é a sessão ordinária, adstrita às cerimônias da lei; é uma sessão livre, extraordinária, na qual ela deseja dizer algumas palavras a muitas de suas paladinas. Dentro em três dias partiremos para os assaltos do bem, vamos guerrear a injustiça, proteger o fraco contra o forte, entrar nos cárceres para curar os enfermos, lançar-se às ondas para salvar os náufragos e atirar-se aos incêndios para lhe arrebatar as vítimas!

Quem não estiver pronta a perder a vida pela fé jurada, pode assinar seu nome no livro da cobardia.

E apontou para um grande livro, em forma de morcego, de folhas negras, que estava aberto em cima d'uma mesa no meio do salão.

Nenhuma se adiantou para o livro, então a secretária da sociedade disse:

- Venha a primeira ordem, as paladinas que têm por divisa: Submissão e Constância.

Adiantaram-se diversos grupos de treze cada um; mas, só uma delas possuía o grão treze: era uma moça loura de olhos azuis e lânguidos, tomou a frente e inclinou-se diante da rainha.

- Tenho por voz ou por vossas companheiras, disse esta, alguma queixa a fazer-me ou alguma graça a pedir-me?

- A graça que tenho a pedir por mim e por minhas companheiras, disse ela, é a de continuar a vos servir por toda nossa vida.

- Voltai, disse a rainha com bondade, e trabalhai por ganhar o primeiro grão da segunda ordem: Trabalho e Coragem.

Adiantou-se a segunda dividida em grupos de dez, cada um ajustado desde o primeiro grão até ao décimo, que cabia à mestra do ofício ou da indústria que exerciam, conforme o merecimento.

O Dr. Edmundo reconheceu logo a barqueira, e a norte-americana maquinista do caminho de ferro subterrâneo.

O maior grão desta ordem era o da engenheira diretora da estrada de ferro, e das fábricas, que era também norte-americana, baixa e gorda, muito vermelha e já idosa, falou em inglês:

- God save the Queen of the meadows. I am grateful for your kindness. You are adored by your people, and I am the representer of the fidelity of the servants Queen's.

A rainha respondeu no mesmo idioma:

- I thank you, Constance Herviel, you are a favorite of mine's.

Veio a terceira ordem composta do exército de terra e de mar, e trazia na bandeira: Intrepidez e Sutileza.

À frente d'uma divisão estava a generalíssima Marta Vieira, aquela bela moça de quem falou Probo em sua narração; à frente das marinheiras estava Ignez Racey com o título de almiranta.

As paladinas desta fração vestiam à turca, da outra à indiana: ali haviam todos os postos do exército e de marinha dos países civilizados, com a diferença de que não eram ganhos nem por vilanias nem por inúteis derramamentos de sangue: se obtinha as promoções enxugando lágrimas, salvando vidas, frustrando planos nocivos, e evitando crimes; era isto o que chamavam assaltos do bem.

- A equipagem está pronta, Ignez Racey? perguntou a Rainha do Ignoto.

- Para seguir amanhã, agora mesmo, se ordenar Vossa Bondade, respondeu Ignez Racey.

Apresentou-se a quarta ordem, com a divisa Luz e Prudência: eram as amadoras das Letras e das Belas Artes, que traziam à frente a maestra Angelina Dulce, esta inclinou-se diante da rainha, que lhe disse comovida e terna:

- Vinde, quero interrogar-vos sobre o vosso conservatório, dizei-me quais são as escolas mais seguidas por vossas alunas?

- Para o canto a Italiana, que é a senhora da melodia, para a execução na parte instrumental, estudam harmonia nos maestros alemães, e também franceses.

- Chamai uma de vossas alunas, quero interrogá-la.

Angelina Dulce fez um aceno e aproximou-se uma moça muito franzina, morena e de fisionomia vulgar; os seus modos acanhados, e vista baixa, lhe davam um ar de colegial de mosteiro ou casa de caridade.

- É a mais adiantada? perguntou a rainha.

- Foi uma vaidade minha, desculpai, quis que Vossa Bondade arguisse a mais atrasada, pois já as conhece todas no canto e na execução.

- Boa ideia, vamos Otília, quais são os maestros mais notáveis da antiga Escola Italiana?

- Cimarosa, Cherubini, Rossini, Donizetti, Bellini e Verdi, respondeu Otília sem erguer a vista.

- E da Escola Alemã, quais são os vultos de que ela se orgulha?

- Mozart, Haydn, Hasse, Haendel, Weber e muitos outros que ainda não estudei.

- Basta, menina, estou satisfeita, disse a Rainha do Ignoto, a Música é uma coisa divina! Remonta à criação do mundo, e dizem que nela sucede como na Poesia e na Pintura, não há paixão nem sentimento a que não alcance a sua expressão. Ah! com que rapidez faz passar dum sentimento a outro?! Para acalmar os movimentos impetuosos d'um peito incendiado bastam os sons harmônicos dum instrumento. Cultivada entre os selvagens, atrai até aos próprios animais! Quantas vezes suspende as dores físicas, e a sua eficácia ainda chega até às afeições morais!

Ela refletiu um instante com a mão pousada nas cordas da lira, e dedilhou, depois a música da canção que atraiu o Dr. Edmundo, alta noite pelo rio Jaguaribe.

De todos os lados choveram rosas que s'espalhavam no chão desfolhadas a meio.

Quando a rainha terminou, apresentou-se um grupo de quinze: eram as pintoras, vinham de gorro e de avental, com os pincéis na mão, sem excetuar a mestra Olga de Lemos, que aproximou-se, e disse:

- Viemos apresentar a lista de nossos trabalhos.

- Que são os vossos quadros a óleo? perguntou a Rainha do Ignoto.

- São os retratos dos traidores do amor puro e sincero das que vão hoje entrar para o grêmio das Paladinas do Nevoeiro.

- Mande vir estes quadros, e colocar nas brumas.

Ouviu-se um apito e apareceu repentinamente um grupo de mulheres também de gorro e avental, sobraçando os quadros que colocaram na parede, a um metro de altura.

Houve um sussurro geral!

Tocou corneta, rufou tambor e ao sinal de fogo, uma oficial puxou a espada e disse:

- Arranquem os punhais e firam os peitos inimigos... e apontou para os retratos.

Reluziram lâminas de ouro, e uma fileira de paladinas, com a divisa do primeiro grão da primeira ordem, avançaram com os punhais erguidos; mas, antes de cravá-los, muitas caíram de joelhos soluçando, e algumas desmaiavam, sendo logo retiradas.

Terminado este combate singular soou uma cavatina surda e triste como um dobre de finados!

Figurou-se um verdadeiro eclipse na lua que iluminava o salão do Nevoeiro.

As trevas de pouco a pouco invadiram o vasto recinto e fez-se um silêncio de morte.

O Dr. Edmundo, no lugar de Odete, não se mexia, ficou assombrado! e tinha medo de enlouquecer!

Não procurou sair dali: porque ignorava todas as saídas. Depois desconfiava de Probo, e temia uma cilada; não sabia o que fizesse para fugir ou se esconder; mas, ouviu logo a voz do caçador de onças que lhe disse ao ouvido:

- Vamos, vou conduzi-lo ao aposento que foi de Odete.

Eram quatro horas da madrugada.

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