Capítulo XLV - Navegando no Amazonas
Capítulo XLV - Navegando no Amazonas
Dias depois o Tufão demandava o norte, e o Grandolim seguia para o sul com ordem de esperá-lo em Pernambuco.
— O que vamos fazer no Amazonas? perguntou o Dr. Edmundo, outra vez em seu traje de templário, conversando com Probo.
— Vamos flechar tartarugas, catequizar índios, disse o velho, entre dentes.
E fumando seu charuto delgado na amurada, fitava a vastidão das águas do rio-mar margeado de matas formidáveis!
De quando em quando um bando de garças brancas vinham pousar na basta e emaranhada ramagem das árvores da margem.
As ilhas da foz do Amazonas passavam, pela embarcação, umas após outras, como pedaços de florestas flutuantes.
Durante horas, e até dias o quadro não mudava, a paisagem era a mesma.
Às vezes na solidão das águas e no escuro da noite divisavam uma luz: era o farol de um vapor da companhia de navegação do Amazonas que passava pelo Tufão.
Outras vezes nas horas cálidas do dia, avistava-se numa cabana no meio do cacaual de onde uma cabocla com uma rosa no cabelo, ficava de pé a olhar para o vapor até que ele se sumisse na extensão das águas.
A Rainha do Ignoto ao lado de suas companheiras levava horas, esquecida, a contemplar o espetáculo magnífico! imponente da natureza em todo o seu vigor!
Chegadas à confluência do Rio Negro com o Amazonas, ela disse às paladinas que a cercavam:
— Sente-se aqui uma tristeza pesada. Nas águas deste rio, por onde vamos navegar agora, parece ter-se derramado as tintas das amarguras de alma! Tem um aspecto carregado! aterrador! Faz pensar nas profundezas do abismo! O coração comprime-se, idealiza o perigo e sonha com a morte.
Mas aquela impressão desagradável que a Rainha do Ignoto sentiu na embocadura do Rio Negro se desvaneceu na entrada do porto, à vista de Manaus, cidade pitoresca sobre cômoros de verdura.
— Não acha, disse Angelina Dulce, este panorama muito parecido com os das povoações da Serra de Baturité?
— Sim, disse a Rainha do Ignoto; mas aquilo é o paraíso terreal do Ceará!
Vive-se naquela Serra como no enlevo de um sonho poético! Com a alma entre perfumes e névoas, embalada pelo gorjeio dos pássaros e pelas harmonias da própria inspiração.
— Quem pode comparar a Fortaleza a Manaus? tornou Angelina Dulce.
— Pode-se, volveu a Rainha do Ignoto, e não fica devendo nada uma a outra, porque cada qual tem o seu valor próprio: Manaus é a camponesa nutrida e bonita, de faces coradas, olhos buliçosos, riso franco e semblante alegre; veste-se de cores vivas como as penas das araras, enfeita as fartas tranças com rosas, calça na ponta do pé as sandálias bordadas, e sustentando a pesada bolsa caminha segura pelas desigualdades do solo ubérrimo com ares de rainha das selvas.
A Fortaleza é a moça pálida e romântica de olhar cismador e lânguido, riso ideal, fronte divina e cândida; veste-se de azul celeste, põe um diadema de estrelas, um manto de luar prateado e ergue na destra um fanal e um ramo de oliveira.
Ela contempla do alto os nevoeiros do céu e com os lábios secos deixa rolar pela face a pérola de uma lágrima, gota de orvalho no cálice de um lírio.
Manaus, como o agiota, pensa nas transações da Bolsa, nas empresas lucrativas, nas grandes navegações e adormece calculando, para sonhar em perdas e ganhos.
A Fortaleza, como o pintor, o músico, o poeta, ocupa-se em colorir distrações com as tintas do íris, a medir e rimar as aspirações, os voos da ideia, e afinal, a fazer com a escala do sentimento uma partitura em tom menor.
Concluindo: Manaus é a riqueza, a força, a seiva da vida, a Fortaleza é a formosura, a graça, a poesia, a ciência, o amor.
— Muito bem! muito bem, disse Angelina Dulce. Eis-nos chegadas ao porto, o vapor vai fundear...
A Rainha do Ignoto desapareceu e todos foram cuidar do desembarque.
O céu estava carregado de nuvens, caía uma leve neblina e o trovão troava ao longe para o lado das matas da Cachoeira Grande.
As Paladinas do Nevoeiro desembarcaram, e cada grupo, formando uma família, tomou o rumo que mais lhe convinha.
A Rainha do Ignoto com Roberta e Probo foram habitar uma choupana para os lados do quartel do batalhão de linha do exército.
O Dr. Edmundo retomou a sua liberdade; mas sempre vigiado, porque Probo se tornava a sua sombra, porque temia perder o cúmplice que imaginou ter alcançado para denunciar a Rainha do Ignoto.