Capítulo XVII - O Enterro de Virgínia A Rainha do Ignoto · Capítulo 17 de 70
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Capítulo XVII - O Enterro de Virgínia

XVII - O Enterro de Virgínia

Às quatro horas da tarde a matriz da povoação regorgitava de povo empenhado em assistir à oferta das flores, e ainda mais, curioso para ver o enterro da Santa, como já diziam as mulheres de lençol.

Era debalde que o sacristão gesticulava mandando que se afastassem para passar o féretro.

Quanto mais ele abria caminho entre elas mais o tumulto engrossava! Uma dava um empurrão, outra se esgueirava, e assim todas queriam estar na frente, todas queriam ver.

De repente fez-se um silêncio profundo. Todos os olhos se voltaram para a porta principal: era o caixão que entrava: muito singelo, coberto de azul guarnecido de galões prateados atestava a pobreza da dona; mas, quando em sua passagem as mulheres ajoelharam para beijar o chão ou o ladrilho que ele transpôs, revestiu-se duma grandeza sublime!

Foi encomendado como de costume, e depois da esparsa d'água benta, Carlotinha saiu para o adro da igreja, onde já havia colocado o anjo que sustentava a bandeira de cetim azul com o nome de Maria bordado a ouro, e ordenou em seguida duas filas de meninas vestidas para a oferta. Todas de branco, com talabartes de fita azul e grinaldas, erguendo na mão um buquê de flores.

Elas seguiram cantando, e logo após o vigário de livro aberto marchando à frente do caixão conduzido também por moças de branco.

O povo em procissão acompanhou o saimento. Era um espetáculo arrebatador e comovente!

A voz infantil daqueles anjos da terra quebrava o silêncio da rua da povoação e entranhando-se no bosque, ia com seu acento doce e melancólico acordando os ecos da floresta que repetiam tristemente:

No céu! no céu!

Com minha mãe estarei,

Na Santa glória um dia,

No céu triunfarei!

Aquela nuvem branca de crianças e moças singelas prestando uma justa homenagem a outra que fora o tipo da virtude, era uma coisa tocante e divinamente bela!

A enorme procissão de camponeses honrados, todos de chapéu na mão, marchando com passos graves e ar mais respeitoso ainda, era uma cena sublime!

O Dr. Edmundo extasiado, suspenso, sentia que aquele formoso quadro não pudesse ser visto pela família de D. Matilde.

Estavam perto; já se avistava, sobre a verde colina, os muros caiados de branco e o largo portão da morada dos mortos.

Nada mais poético e ao mesmo tempo mais triste que um cemitério de aldeia: veem-se alvejar, entre a erva que cresce à vontade, as singelas campas despidas de ornatos, tendo somente por inscrição o nome do abastado lavrador, ou do estrangeiro que veio em busca de melhores ares e ali encontrou a morte.

Este baixou à terra fora dos seus, sem uma lágrima para regar-lhe o túmulo.

Naquele cemitério havia somente algumas catacumbas pegadas ao muro, e entre as touceiras de capim santo, e de boas-noites brancas apareciam, aqui e ali, os negros braços duma cruz marcando a sepultura duma criança ou dum ancião. Os dois extremos da vida ali confundidos.

Em algumas dessas cruzes enrolavam-se os verdes ramos da mimosa primavera, e ao pé de outras a brisa da tarde embalava brandamente os galhinhos floridos da perpétua.

Mas quando o ser vivo entra na casa dos mortos sente o coração cerrar-se-lhe como uma flor murcha no fim do dia: foi o que sucedeu ao Dr. Edmundo quando viu a cova aberta.

Os coveiros lançaram nela o caixão de Virgínia e quando um ia atirar a primeira pá de terra, uma criança loura adiantou-se e sacudiu para dentro da cova um punhado de maravilhas e de boninas.

Ao mesmo tempo surgiu dentre a multidão uma moça vestida de preto que ajoelhou à borda da sepultura e derramou sobre o caixão um perfume delicado. Um delicioso cheiro de jasmim espalhou-se no ar, e foi então que caiu pesadamente sobre a morta a primeira porção de terra que ia fazê-la desaparecer para sempre dos olhos humanos.

O Dr. Edmundo adiantara-se também, mas com o fim de examinar as feições da moça de preto.

Foi inútil esse empenho, ela trazia o rosto velado por um espesso véu e sentindo que era observada com interesse desapareceu pelo braço dum velho de longas barbas brancas, que se não estivesse decentemente vestido de preto, Carlotinha teria dito baixo ao moço curioso:

- Aquele é o caçador de onças, a moça de preto é sua filha.

Mas estavam muito fidalgos para se comparar com os habitantes da cabana.

O povo todo, cumprido o seu dever de caridade, voltou à povoação apressado para assistir à oferta das flores, com que no geral rematam a festa do mês de maio.

O Dr. Edmundo compungido e preso por tristes impressões seguiu ao longo dum cercado, onde cresciam bonitos algodoeiros: nesses arbustos, as flores amarelas, que pela manhã encantavam a vista dos que vinham de longe para a missa, tinham murchado, e via-se somente nos casulos secos a alvíssima plumagem do algodão, que como flocos de neve era embalada pela viração da tarde.

Adiante ele passou por um pequeno regato onde as rãs com sua cantiga monótona derramavam mais tristeza nas sombras do fim do dia.

Sem saber como, achou-se à porta da cabana do caçador de onças. Não havia ali ninguém; mas a porta estava aberta.

Depois de admirar os extravagantes ornatos da solitária vivenda, deu com a vista na veadinha que de pé sobre o batente da porta estendia a cabeça para fora, na direção do rio.

Ele prendeu-a pelo pescoço, era mansa como um cãozinho.

Então alisando-lhe o pelo pôde examinar uma campainha de prata que ela trazia presa por uma linda fita matizada.

Havia na campainha uma letra aberta a cinzel, era um D., a mesma que estava assinada na carta trazida pelo pombo-correio à casa de D. Matilde.

Ficou considerando no mistério de que se via cercado desde a noite em que tinha visto aquela visão do bote, o seu irmão; mas como conhecer a relação existente entre os habitantes da cabana e a fada da gruta do Areré?

O Dr. Edmundo afastou-se pensativo seguindo o curso do Jaguaribe.

A tarde ia morrendo, e o sol já se ocultava por trás das nuvens purpurinas do ocidente.

As sombras do crepúsculo alargavam os círculos traçados em roda dos troncos das árvores, em cuja folhagem silenciosa pela calma, se aninhavam os passarinhos.

Já os últimos grupos, dos que tinham vindo para a festa na povoação, voltavam para suas moradas levando cada um a melhor recordação daquele dia.

Os felizes camponeses acompanhados por suas famílias, compostas quase sempre duma mulher robusta e rudemente bela, e dum rancho de crianças alegres e fortes como sua mãe, passavam conversando pela estrada.

Os rapazinhos sustentando, pelas pontas, os lenços, onde levavam os biscoitos, as broas, os anzóis, os berimbaus e os soldadinhos de chumbo, questionavam a primazia de sua escolha.

O sino da matriz, cuja torre branca e pontiaguda se avista de longe sobre os telhados vermelhos das casas da povoação, tocou Ave-Maria.

Os homens do campo, os verdadeiros crentes, descobriram-se e foram seguindo de chapéu na mão.

Aquele som melancólico trazido de longe e ressoando na solidão da estrada, penetrou também no coração do moço da cidade, mas dum modo diferente: nos primeiros um dever da religião herdado de seus avós lhes faz lembrar o ensino mais terno dos dias da infância; no segundo a impressão teve sua fonte na psicologia: era um estado acidental d'alma comovida pelos acontecimentos anteriores, e pela estética do quadro, pela tristeza da hora, pois Vênus, a estrela do pastor, a Vésper da tarde, já aparecia no céu, assim como a lua sobre a cordilheira da Serra das Antas.

O Dr. Edmundo pela primeira vez na vida sentiu o isolamento que o cercava, e compreendeu que havia em sua alma um vazio que era preciso preencher.

Aqueles ranchos de famílias burguesas lhe causaram inveja, lhe fizeram pensar na escolha duma esposa; mas, qual deveria ser a eleita de sua alma?

Henriqueta não podia ser: era leviana, presumida e mal educada.

Carlotinha, além da formosura, possuía muita singeleza e bondade de coração; mas esses dons quase vulgares não bastavam à alma fantasiosa e transportada do nosso herói.

Ele sonhava sempre uma fada, uma mulher superior, que no rastro luminoso de seus passos levasse acorrentada sua vontade, sua esperança, e sua vida.

Ilusão dos primeiros anos, pois a mulher superior é a encarnação da indiferença e até do ódio da maior parte dos homens.

Tinha ele o pensamento na poética cantora do bote, na radiante visão do monte do Areré, e julgava poder amá-la: engano! sonho vaporoso de poeta!...

Foi pensando no modo de comunicar com a mais singular das criaturas, que à noite o Dr. Edmundo entrou em casa disposto a escrever uma carta, e depô-la à entrada da gruta na primeira ocasião, que fosse ao monte.

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