Capítulo XLVIII - Para o Hipnotismo Há Brecha nos Muros e Entrada nas Fortalezas
Capítulo XLVIII - Para o Hipnotismo Há Brecha nos Muros e Entrada nas Fortalezas
Quando as paladinas voltaram do almoço já encontraram a Rainha do Ignoto no seu posto.
— Prontas! disseram três ou quatro delas, queremos o fim da história: Amélia foi ter com Roberta? Não duvidou do que vós lhe prometestes?
— Ficou presa às minhas palavras como agulha imantada ao Polo, respondeu ela, e eu na mesma tarde fui à rua Sete de Dezembro onde estava morando Edialeda Cruz; pedi-lhe que me arranjasse um preparado de seu laboratório químico que produzisse a morte por vinte e quatro horas. A boa velhinha alegre como sempre, quando tem ocasião de mostrar a utilidade de sua ciência, entrou para o gabinete e voltou com um frasquinho, deu-me as explicações precisas; eu saí.
— Procurei Coleta Fulgina e pedi-lhe a chave do guarda-roupa do Ignoto. No dia seguinte pela manhã mandei aquele bilhete a Clara Benício e fui para bordo, dava meio-dia quando voltei de lá transformada em um frade de grandes barbas, com hábito e capuz; seguia em direção ao quartel quando encontrei Ignez Racey e Octavia Milão que em seus trajes de marujos zombaram de mim. Ignez disse:
— Lá vai um padre, será santo ou velhaco?
— É certo, eu disse isto, e Octavia me respondeu: É velhaco, vai muito envolvido no capuz e tem os olhos no chão.
— Pois bem, não me conheceram e eu entrei no quartel com licença do comandante para confessar o preso.
Já me esperavam, era como se tivessem mandado me chamar. Entrei na solitária ou xadrez, não sei bem o que era, e reconheci em Marcos o pequeno filho da nossa engomadeira. Eu o tinha visto em criança brincar com meus irmãos, sentar-se ao colo de minha mãe e muitas vezes ia ao Jardim e voltava com as mãos cheias de botões de rosas para enfeitar-me as tranças nos jogos infantis! Sem dar a perceber a comoção que resultou daquele despertar de ideias que me traziam os primeiros anos de minha vida, lhe falei dos preceitos da religião católica. Não me escutava, estava alucinado, tinha o ar desvairado e falava inconsideradamente. Procurei por outros meios ganhar-lhe a confiança e dei o frasco do preparado de Edialeda Cruz recomendando-lhe que o tomasse à noite.
Ele cumpriu a palavra, ingeriu a dose e no dia seguinte quando foram buscá-lo para o castigo encontraram um cadáver.
Então fiz uma carta anônima ao alferes Manduca dizendo-lhe que arranjasse com o comandante para o enterro ser feito à meia-noite com todo cuidado, porque havia alguém que estava de espreita ao quartel para ver se saía defunto naquele dia, e comunicar a morte do soldado ao ministro da guerra.
Tudo sucedeu à minha vontade, eis por que nos achamos àquela hora no cemitério de S. José, transformadas em almas.
— E Marcos está vivo? perguntou Ignez Racey.
— Já não o vistes lá pela proa? Admira! disse Edialeda Cruz segura do resultado dos seus ingredientes.
— Subamos à tolda, disse a Rainha do Ignoto, vamos ver nossos protegidos.
Lá estavam todos três sentados em um banco.
Marcos ainda muito pálido e magro dos jejuns que fizera na solitária. Fitava pensativo a ilha de Marapatá da qual o Tufão se afastava, e começando a entrar no rio Amazonas, ia deixar para sempre a foz do Rio Negro, Manaus enfim.
Amélia sem considerar na vida, alegre com a ventura de ver salvo ao pé de si seu noivo, tagarelava com a mãe ostentando em seu formoso rosto as cores sadias da mocidade e do prazer.
As paladinas dirigiram-lhe algumas perguntas e retiram-se satisfeitas.