Capítulo XXV - Um Curioso na Vaga d'um Anjo A Rainha do Ignoto · Capítulo 25 de 70
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Capítulo XXV - Um Curioso na Vaga d'um Anjo

XXV - Um Curioso na Vaga d'um Anjo

Diz um escritor moderno que a admiração parece antagonista do amor.

Não há regra sem exceção; mas o Dr. Edmundo não era uma exceção, por isso seguiu a regra geral, e desde que o caçador de onças lhe pôs a par do gênio de sua visão do monte, transformada em Rainha do Ignoto, não pensou mais nela senão como um maníaco decifrador de enigmas.

Todo o seu empenho era conhecer o segredo daquela maçonaria de mulheres, como chamava Probo.

Não era que desse inteiro crédito ao que ouvira; mas desejava ardentemente examinar os fatos com seus próprios olhos, para poder separar o verossímil do inverossímil.

Conhecendo ele a improbidade de Probo, logo à primeira vista, para se lhe mostrar agradável e obter a confiança não poupou esforços.

O velho era birrento, não gostou que o Dr. Edmundo duvidasse de sua palavra, e tendo-se comprometido a fazer-lhe conhecer a realidade dela, ia introduzi-lo no reino Ignoto por um meio seguro e praticável, que o acaso lhe pôs nas mãos.

Naquela mesma tarde em que Carlotinha em casa de Ana Rosa, zangava-se com as filhas de D. Matilde pelo modo desabrido com que falavam dele, o Dr. Edmundo esquecido de todas elas dialogava com o caçador de onças, ambos sentados em um tronco à margem do Jaguaribe.

- Elas vão partir, dizia Probo com ênfase.

- Partir! para onde? perguntou o doutor assustado, e como agora realizar o que me prometeu?

- Como? pela melhor forma! O senhor é muito feliz, apresenta-se uma ocasião favorabilíssima!

- Então?

- Eu lhe digo, tornou Probo misteriosamente, realizou-se o diagnóstico da Dra. Clara Benício, Odete perdeu a razão.

- O que tem isto comigo?

- Não tem com o senhor, mas tem com o seu desejo de conhecer o segredo da Rainha do Ignoto, deixe-me acabar de expor o meu projeto, e verá que é disto que pretendo tirar bom partido.

- Estou pronto para ouvi-lo.

- Já há alguns meses, disse Probo, que a muda dava indícios muito pronunciados de alteração mental; mas como a Rainha do Ignoto tem grande predileção por ela, não a despediu de seu serviço, embora com prejuízo: hoje pela manhã, quando Diana ou a mesma Rainha do Ignoto veio à cabana para me participar que partiríamos nesses dois dias para uma longa viagem, Odete pela primeira vez obstinou-se em ficar na cabana, não quis tornar para a gruta, por mais que a rainha carinhosamente a convidasse, e até procurasse erguê-la puxando-lhe brandamente pelo braço.

- E que decidiu ela?

- Partiu só, e recomendou à Roberta, que, quando a muda desemperrasse, fosse com ela para o Ignoto.

- E ela foi? perguntou o Dr. Edmundo com interesse.

- Não acabei ainda, o senhor vai ver o que sucedeu: eu estava estranhando vê-la tanto tempo sentada sobre o banco, mais tesa do que costumava, levantei-me, toquei-lhe no braço, estava morta.

- Morta! Pobre Odete! exclamou o Dr. Edmundo compungido, e depois?

- Depois lembrei-me que a rainha ia passar por um grande desgosto que eu podia evitar tirando proveito do caso...

- Como?

- Substituindo a muda pelo senhor.

- Que quer dizer, Sr. Probo? Olhe que trata com uma pessoa séria, respeitável, que não veio aqui para gracejos desta ordem...

- O senhor ofende-se, porque não me compreende e nem sabe o que lhe vou propor: fique descansado que não o levo ao ridículo; pois não há desdouro para um homem vestir um hábito branco e pôr a cruz vermelha dos Templários.

- Certo, e era assim que ela vestia?

- Acrescentando uma máscara; deu-lhe na fantasia ser cavaleiro de S. João de Malta, irmão hospitaleiro de Jerusalém e por fim templário. O senhor que deseja observar os trabalhos dessa maçonaria de mulheres, finge-se de Odete, vê com os seus olhos, está acabado.

- Não há outro meio menos incômodo, e mais difícil de ser descoberto?

- Ora essa! Pensa o senhor que a Rainha do Ignoto é aí qualquer Joana ou qualquer Teresa! Se tem gosto em saber a verdade, não hesite em aceitar o único meio que o caso lhe fornece.

- Estou quase tentado a aceitar; mas, receio ser mal sucedido, disse o Dr. Edmundo irresoluto.

- Nada, ninguém descobrirá o logro e o Sr. verá: tem de ouvir muito à sua vontade, porque as Paladinas do Nevoeiro não têm a menor dúvida da inutilidade da língua de Odete, portanto têm pouco cuidado em ocultar-lhe os seus segredos; e agora, que deu para doida, fazia o que queria, ninguém se incomodava com ela: já vê que neste papel se pode gozar da liberdade dos que perdem o juízo.

O Dr. Edmundo tendo na mão a ponta do fio para desenrolar o novelo misterioso, não teve ânimo de soltá-lo, e perguntou:

- A que horas vai o Sr.?

- Das nove para as dez, tenho de fazer com a Roberta um serviço à morta, dar-lhe sepultura.

- Pois bem, me espere às dez horas.

- Sim, disse o suposto caçador de onças, e dirigiu-se para a cabana onde Roberta velava o cadáver de Odete, ainda mascarado e com seu traje de templário:

Com ele foi a pobrezinha enterrada. Probo conduziu-a para um barreiro que havia à entrada da mata, e enquanto ele enchia a cova de terra, Roberta sustentava um castiçal de bronze, onde ardia uma vela de cera de carnaúba protegida por uma lanterna de papel.

A boa e sensível mulher soluçava: tinha se afeiçoado muito à triste muda por compaixão às suas desgraças.

Não podia conformar-se com aquele jazigo ignorado, e muito menos com a substituição que o velhaco do marido queria fazer introduzindo um curioso na vaga d'um anjo.

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