Capítulo V - A Curiosidade da Aldeia A Rainha do Ignoto · Capítulo 5 de 70
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Capítulo V - A Curiosidade da Aldeia

V - A Curiosidade da Aldeia

Enquanto o amo satisfazia a sua curiosidade procurando conhecer o mistério da gruta do Areré, o criado dava azo a seu gênio tagarela e faceta na venda do Vital.

Ali, dentre os quatro ou cinco frequentadores da venda, era Adriano o mais letrado, por isso ele passeava em frente do balcão, com as mãos cruzadas nas costas e com ares de importância, a dar opinião sobre tudo.

- Que vem fazer aqui esse doutor? perguntou um que chamavam Bento da Tapera.

- Vem, disse outro, fazer a eleição, arranjar votos para a chapa do governo. Ele engana-se! O povo daqui é durinho; não vira a casaca com duas risadas!

- Eu cá sei, respondeu outro, que o meu voto, e o de toda a minha parentela, é do partido do vigário.

- Qual! exclamou Adriano todo apavonado, o Dr. Edmundo não faz política, ele tem outras vistas...

- Disseram-me, acudiu o taverneiro, pesando um quilograma de café, que ele é engenheiro da comissão de açudes, vem estudar os terrenos.

- Nada disto, senhores, disse Adriano satisfeito por mostrar conhecimentos, o Dr. Edmundo é alquimista.

- Que diabo vem a ser alquimista? perguntou um sujeito que acabava de esgotar um copo de aguardente.

- Alquimista é aquele que exerce a alquimia.

Rebentou uma gargalhada geral, e disse uma voz:

- Fala português, homem! Ninguém aqui é inglês, nem italiano para entender...

- Sim, meus senhores, falou Adriano com voz arrogante, a alquimia é a arte de transformar os metais em ouro.

- Bravo! gritou o Bento da Tapera, o teu amo deve ser muito rico, visto saber feitiçaria!

- Rico como um nababo, afirmou Adriano, contendo o riso e fugindo apressado para a rua, pois tinha visto Edmundo apear-se à porta da casa.

O vendilhão ficou dizendo:

- Este Adriano sabe de coisas!

Os outros continuaram a comentar a chegada do doutor.

Nos lugares pequenos, nas aldeias, as novidades são poucas ou antes nenhuma; quando passa ali um viajante, se traz a sobrecasaca abotoada, só faltam desatacá-la para ver se o colete tem botões! Se ele traz consigo mulher, irmã ou filha, primeira coisa que notam é se ela usa brincos; se os não usa, serve isto de assunto para uma semana de conversação na vizinhança.

Logo à chegada, os garotos tomam posse das portas e janelas, e o pobre viajante não pode mais dar um passo que não seja sob as vistas dessas incômodas sentinelas.

Elas passam revista na bagagem, e correm a casa a levar as novas às mães ou amas que ficaram à janela, de pescoço estirado, procurando também ver alguma coisa.

Conhecemos uma professora, e não era professora de aldeia, ensinava em uma colônia de emigrantes cearenses no subúrbio de uma capital do norte do Brasil; já fazia mais de um ano que ela ali estava, e ainda todos os homens, todas as mulheres e todos os meninos e meninas que lhe passavam pela porta diziam em tom de novidade:

- Aqui é a escola! Lá está a professora!

Muitas vezes estes mesmos rapazes ou raparigas trepavam no peitoril da janela e ali passavam tardes inteiras com os olhos fitos nela, observando-a em todos os movimentos! Se viam um gato deitado no corredor, perguntavam umas às outras:

- Aquele gato é dela?

A princípio, logo na chegada, era uma verdadeira perseguição! Em uma tarde estava a triste desterrada costurando, e assustou-se vendo duas mulheres que, acompanhadas de seus pequenotes, abriam o ferrolho da meia porta, entravam, e vinham postar-se silenciosas e admiradas por trás da cadeira onde ela costurava; ao mesmo tempo os pequenos trepavam nas carteiras, derrubavam as cadeiras e derramavam tinta.

Disse, então, a professora:

- As senhoras têm algum negócio a tratar comigo?

- Não, dona, estamos vendo vosmecê costurar.

E retiraram-se como se fossem uns espectros!

De outra vez em uma manhã entraram outras dizendo:

- Queremos ver o que a senhora está fazendo lá dentro...

- Estava arrumando a despensa, disse ela; mas já acabei, e visto ser a hora da aula, peço licença para mudar de vestido e arranjar-me.

- Pois nós queremos vê-la vestir-se.

Isto parece incrível! mas é um fato. A professora entrou para a alcova com cara de ré, entretanto elas não renunciaram ao propósito, ou antes despropósito; enfiaram de porta adentro, tomaram conta do quarto, do leito, dos cabides e até dos baús, não ficando objeto de toucador ou peça de vestuário a que não passassem uma revista em termos.

São estes os costumes, não digo de toda, mas da maior parte das gentes das aldeias.

Edmundo formado, moço bem-parecido, e apresentando-se no lugar sem uma recomendação, sem dizer a que vinha, era um acontecimento! Um caso estranho!

Durante a primeira semana não falaram de outra coisa. Se ele passava por uma calçada onde havia uma roda de homens a conversar, estes diziam de uns para os outros a meia voz:

- É o tal doutorzinho!

- Que bisca será esta? perguntava um.

- E que virá fazer? perguntava outro.

- Tomar ares, respondia o terceiro.

- Ares! ria-se o primeiro, parece vender saúde!

Mais adiante, das janelas e das portas, as mulheres olhavam-no curiosas, e uma velha beata fazia-lhe cruzes pelas costas, e exclamava indignada:

- Eu te arrenego, maçon! Eu te desconjuro, protestante! Não, filha minha, que casasse contigo... Está ouvindo, vizinha? Ele ainda não foi à igreja! E passa pelo santo Cruzeiro com o chapéu na cabeça como um incrédulo!...

Mas, enquanto os homens murmuravam, as velhas beatas se benziam, as moças ocultas por baixo das rótulas estremeciam de enleio, e cochichavam entre si:

- Como é bonito!

- Nem se parece com os matutos daqui, dizia uma com pretensões a civilizada.

- Credo! Naninha, se o Cazuza soubesse nunca mais olhava para ti.

- Que me importa? Eu não gosto dele.

- Eu vou dizer-lhe...

- Corre, Sinhá, vai dizer ao Cazuza Mello, que eu, Naninha Azevedo, disse: O doutor Edmundo Lemos é o moço mais bonito e mais simpático que já pisou às margens do Jaguaribe!

- Não vá, Sinhá, ponderava uma mais sensata, isto se passa aqui entre nós, é um gracejo.

E as moças acabavam em risadas e confidências alegres.

Assim ia Edmundo fazendo a preocupação daquela temporada campestre.

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