Capítulo LII - O Engenho "Misericórdia", o Escravo Gabriel e o Cigano Rozendo A Rainha do Ignoto · Capítulo 52 de 70
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Capítulo LII - O Engenho "Misericórdia", o Escravo Gabriel e o Cigano Rozendo

Capítulo LII - O Engenho "Misericórdia", o Escravo Gabriel e o Cigano Rozendo

Os ciganos lá ficaram em seu arraial, cuidando em prover as necessidades mais urgentes de seu estabelecimento.

Vamos agora presenciar o romper do dia no engenho "Misericórdia" pertencente ao capitão Matury.

O feitor, de chicote em punho bate à cancela d'uma choupana de pretos que não acudiram logo ao toque da sineta; um pobre escravo doente de sezões vai saindo trêmulo e medroso querendo passar ao largo para furtar as costas à alguma chicotada; mas é debalde, o feitor sempre o apanha e faz estalar o chicote por três vezes.

Ele incorpora-se ao bando faminto e esfarrapado que segue para o trabalho da lavoura, e do engenho.

Uns vão de fisionomia triste e resignada, outros seguem com os olhos carregados de ódio e de má vontade; a maior parte tem o semblante bestial, o andar cambeta, e as costas nuas, cobertas de pústulas e vergões.

Alguns mais animosos na desgraça começaram o serviço cantando.

D'entre eles saiu um mulato bem parecido; mas tão trapilho como os companheiros, que tomou um pote e se dirigiu para o córrego dos Cajueiros; ia buscar água de beber nas cacimbas abertas ali na margem do tal córrego.

Tinha enchido o pote e ia voltando quando viu a seu lado um cigano que lhe disse:

— Ganjão quer trocar o pote por este cântaro? É novo, de barro fino, e bem trabalhado!

— Sei disso, respondeu o mulato; mas o pote não é meu, é de D. Vicência Matury, que seria capaz de comer-me vivo, se tal fizesse.

— E quem é essa Dona Matury, que tem tanto poder, Ganjão?

— Dizem que é minha senhora, não sei d'onde veio esse senhorio, Deus fez todos livres no mundo.

— Bravo, Ganjão! Como se chama você?

— Eu me chamo Gabriel, e o senhor?

— Rozendo, Ganjão, tenho um lugar de confiança junto ao capitão dos ciganos.

— Dos ciganos! repetiu Gabriel receoso.

— Sim; precisa de algum serviço nosso, é só abrir a boca: nosso capitão é muito rico! Mais rico que dona Vicência Matury.

— Ai! quem dera que eu pudesse... disse Gabriel suspirando em concluir.

— Tem medo de falar? disse o cigano Rozendo.

— Medo!? Senhor Rozendo? Gabriel não tem medo, já provou uma vez quando o castigaram por ter lido um folheto que tratava de liberdade, pois apesar de saber que apanharia tantos bolos quantas fossem as páginas de leitura, apenas lhe desincharam as mãos tornou a lê-lo, embora pagando o mesmo tributo.

O cigano Rozendo, ou antes Camila Franco, estava maravilhado.

— Ganjão, se o capitão Matury lhe quisesse vender o capitão Loureiro compra, ou troca por tudo o que quiser. Afianço-lhe que é você quem ganha na troca.

— Ele está para vender-me a um negreiro que embarca escravos para o sul, diz que eu sou muito letrado, que ponho os outros a perder, e que está vendo a cada hora, um levantamento. Basbaque! não vê a sua segurança na nulidade de meus companheiros? Uns palermas! que se tivessem o meu sangue já tinha havido um S. Bartolomeu!

— Aonde aprendeu tudo isto, Ganjão?

— Na companhia de D. Maria Jesuína, minha primeira senhora que era uma santa, ensinava os escravos a ler e a praticar o bem. Depois ela tinha uma filha que sabia muito, falava contra a escravidão, e era republicana como seu pai o defunto coronel...

— Paulo Figueira; acabou Rozendo, lembrando-se dos retratos da sala das audiências do Cônsul Geral do Infortúnio.

— Conheceu dona Maria Jesuína? perguntou Gabriel.

— Não, disse o cigano, vá descansado que seu mal tem remédio, e seguiu ao encontro de outro que saía da mata.

Gabriel voltou para casa e avistando o senhor deu uma volta para não ser visto por ele.

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