Capítulo XLIV - O Incêndio e o Sargento de Bombeiros - Júlio Pequeno A Rainha do Ignoto · Capítulo 44 de 70
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Capítulo XLIV - O Incêndio e o Sargento de Bombeiros - Júlio Pequeno

Capítulo XLIV - O Incêndio e o Sargento de Bombeiros - Júlio Pequeno

O Dr. Edmundo conversava com Armando no Café Cantante quando ouviu o sino da matriz dar o sinal de fogo.

— É rebate! Armando, disse ele.

— Sim, é rebate, confirmou um sujeito gordo que estava de parte, e levantando-se dirigiu-se para a porta.

— Aonde será? acudiu Armando saindo com o Dr. Edmundo para a calçada.

— Corre gente, observou este.

— Mas não sabem que direção devem tomar, disse Armando. Ó menino, falou ele para um rapazinho que ia correndo, onde é o fogo?

— Lá para Batista Campos, em uma loja de molhados, respondeu ele sem parar.

— Aí vem o bonde, disse o Dr. Edmundo, vamos até lá.

— Vamos, respondeu Armando.

E os dois moços tomaram o bonde; mas já lá estava instalado o sujeito gordo que havia sido mais ligeiro do que eles, porque a curiosidade cura de reumatismo, de calos e até tem a virtude de levedar um formidável abdômen.

O bonde parou à distância, porque a rua que teve a honra do acontecimento estava atulhada de povo.

Vinham chegando os carros dos bombeiros. Um clarão avermelhado saía das portas da loja e a chama subia pelas ombreiras com saltitantes estalos!

Das janelas superiores do prédio saíam grossos rolos de fumo.

A confusão era enorme!

— Arreda! arreda! gritavam os soldados fazendo afastar as gentes que se atropelavam avançando para ver de perto.

O Dr. Edmundo e Armando também se aproximaram, e enquanto admiravam os bombeiros cortarem as traves para separar o vigamento da casa vizinha ouviram gritar:

— Minha filha! minha pobre Laura quem a salva! quem a salva!

Voltaram o rosto e viram D. Margarida em desespero! chorando! Era ela quem gritava.

Armando não perguntou coisa alguma, correu para o incêndio, ia salvar Laura, mas um pulso de ferro agarrou-o pela gola e depois pelo braço:

— Está doido homem! vai meter-se naquela fornalha!

Olhou, era o sujeito gordo que o puxava para fora da multidão quase o arrastando.

— D. Margarida, perguntou o Dr. Edmundo, como deixou lá ficar D. Laura?

— Estava dormindo quando rompeu o fogo, desci com as crianças para pedir que a fossem buscar e ninguém me atendeu, o tumulto era grande, não me deixaram mais passar.

E a pobre senhora soluçava fazendo coro com os filhos menores que gritavam:

— Laura! Laura! vem, olha o fogo!

— Tenham paciência, ela será salva, dizia o Dr. Edmundo, já vão os bombeiros subir à janela pela escada longa que trouxeram, e muitos trabalham nas bombas para extinguir o fogo.

Naquele instante gritou um bombeiro do alto da escada:

— Quantas pessoas estão dentro da casa?

— Só uma moça doente, disse outro, dos degraus do meio.

— De pressa! gritou o sargento, de baixo. Entre pela janela antes que o fumo a sufoque...

Era ele um mocinho pequeno e franzino, de voz harmoniosa e suave.

— Não posso, disse o bombeiro de cima, duas tábuas do soalho pegado à janela estão ardendo... não posso pisar.

O sujeito gordo ao braço de Armando, rosnou:

— Que diabo! uns bombeiros faltos de disciplina, discutindo ordens... onde se viu isso!

— O senhor não sabe, disse-lhe um vizinho, que nos combates, nos naufrágios e nos incêndios é impossível a ordem?

O grito das crianças e o choro de D. Margarida chegavam ao desespero!...

Armando sentia uma vertigem, e sem poder desprender-se dos pulsos de ferro do obeso filantropo, guardava silêncio.

O fogo crescia e crepitava!

Por toda a rua era um alarido horrível!

De repente desceram apressados os bombeiros que estavam na escada, e subiu por ela o sargento acompanhado por um cabo que levava uma prancha.

Chegado ao alto da escada o sargento trepou no batente da janela, estendeu a prancha até a parte do soalho que não ardia, deixou o cabo de pé no último degrau segurando-a e passou sobre esta nova ponte, por cima de um rio de fogo!

Fez-se um geral silêncio!

A ansiedade estava nos olhos de todos.

Decorreram assim três minutos, quando todos os olhos que se dirigiam para o clarão da janela, viram desenhada nele como numa tela luminosa a pequenina figura do sargento, com Laura nos braços.

Naquele momento o boné pendeu-lhe para a nuca e caiu no meio das chamas que já lhe iluminavam o rosto! Era quase imberbe, e parecia transfigurado à luz vermelha do incêndio! A banda desatada começava a arder pelas pontas.

Ajudado pelo cabo, que era mais possante, pôs Laura nos braços da mãe que os esperava ao pé da escada, de joelhos.

Uma irmãzinha de Laura atirou um beijo ao seu salvador, e todos os rapazes das escolas e colégios que estavam presentes imitaram-na.

Chegou-se a ele um repórter de jornal e perguntou-lhe:

— Como se chama?

— Júlio Pequeno, disse e internou-se na multidão.

O Dr. Edmundo viu-o de perto e disse mentalmente:

— Zuleika Neves! e acompanhou o sargento Júlio Pequeno.

Este encontrou o cabo e perguntou-lhe:

— Aonde estão os livros?

— No carro de trás, vou mostrá-los.

E seguiu na frente.

— Mas onde está o tratante? tornou a perguntar o sargento Júlio Pequeno.

— Está do outro lado da rua, disse o cabo, conversando com um agente do seguro. Fingiu bem o seu papel: quem o visse vermelho, suado na maior agonia, conjecturando as causas que deram lugar ao incêndio teria deveras pena dele. Eis aqui os livros, embrulhei-os num encerado.

O sargento Júlio Pequeno tomou os livros, e dirigiu-se ao local onde estava Onofre Montano, o dono da loja, chamou-o de parte, e disse-lhe:

— Senhor Montano, vamos ajustar nossas contas.

— Contas de que? respondeu ele assustado.

— Dos crimes novos, e também dos velhos, disse o sargento.

— Deixe de gracejo, camarada, replicou com um riso amarelo.

— Gracejo foi o que o senhor fez com o seguro dando um banho de querosene nos livros e nas mercadorias, veja se conhece isto.

Mostrou-lhe os livros sem largá-los. Onofre Montano empalideceu e gaguejou:

— O que é? Não sei!

— Não sabe?! exclamou o sargento, pois a polícia e o seguro hão de saber.

Montano começou a tremer e com voz suplicante disse:

— Pelo amor de Deus, senhor sargento, não me desgrace! Se quer entender-se comigo, vamos entrar em acordo... diga quanto vale o seu silêncio.

O Dr. Edmundo, por trás de um monte de madeiras que haviam posto ao pé de uma casa em construção, ouvia tudo, e julgou que Júlio Pequeno respondesse negativamente e indignado; mas pelo contrário, ele disse:

— Quero entrar em negócio com o senhor, mas há de aceitar as minhas condições, assinando o contrato que já trago comigo.

E leu à luz do combustor:

Eu Onofre Montano, negociante de fazendas à rua ***, declaro que tendo na loja um depósito de mercadorias no valor de 30:000$000, e cuja loja estava segura por 50:000$000, lancei fogo por minhas próprias mãos às mercadorias previamente preparadas com querosene, sem atender ao prejuízo que dei ao seguro e ao dono do prédio, e até sem considerar as vidas que ia sacrificar! Confesso-me criminoso. As provas ficaram nas mãos do sargento de bombeiros, Júlio Pequeno, que apreendeu os livros.

— Para que isto? perguntou Montano.

— Para o senhor assinar e servir de garantia ao contrato que vamos fazer.

— Diga lá as condições, disse Onofre Montano, medroso.

— São muito favoráveis, para o senhor, respondeu Júlio Pequeno, exijo somente que torne a viver com sua mulher e se regenere; pois no dia em que souber que lhe dá o menor desgosto, entrego o documento à justiça.

— Minha mulher está doida, e nem sei em que asilo pára.

— Tenho um médico que garante a sua cura logo que volte para seu marido, e quanto ao lugar em que pára, não se dê cuidado, que existe alguém encarregado de lha entregar.

Onofre Montano sentia-se dominado pelo olhar de fogo, pela voz suave e enérgica de Júlio Pequeno; havia um poder superior nas ordens daquele sargento de bombeiros que nada era para a sociedade; mas naquele instante parecia um rei, tinha majestade.

— Não tem dúvida, assino, e prometo cumprir o que exige de mim, disse ele humildemente.

— Pois bem, vamos ali. E Júlio Pequeno apontou para a casa de Clara Benício que fica defronte.

A casa estava só sob a guarda de uma criada, esta deu o necessário para escrever e retirou-se.

Onofre Montano assinou o documento e Júlio Pequeno disse-lhe:

— Pode se retirar, procure o seu ex-guarda-livros Camillo Franco, e ele lhe indicará onde deve levar o carro para reconduzir Licina à sua casa. Feito isto, o silêncio do seu crime está em suas mãos, o seu procedimento para com sua mulher e para a sociedade é quem o guarda.

Saíram ambos cada um para seu lado.

No dia seguinte a gazeta dava notícia do incêndio, elogiava o procedimento heroico do sargento de bombeiros, Júlio Pequeno; mas no quartel ninguém conhecia tal personagem! E como às vezes sucede o repórter enganar-se e aparecerem notícias inexatas, o caso ficou por averiguar.

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