Capítulo LXVIII - O Amor da Família Era Seu Culto
LXVIII - O Amor da Família Era Seu Culto
Eram cinco horas da madrugada. Em caminho da Vila de União via-se um velho alto, de barbas longas e brancas, acompanhado por duas camponesas que traziam à cabeça suas toalhas de renda.
— Estamos perto, disse ele, já se avistam as torres da Igreja de Senhora Santa Ana.
— Não vejo bem por causa do nevoeiro da manhã, disse a mais idosa das camponesas.
— Já vai amanhecendo, disse a outra. Os passarinhos estão cantando e naquela granja já soltaram as ovelhas.
Com efeito, um grande rebanho passava ao lado da estrada, seguido por um cão de caça.
— Que casa é aquela? perguntou o camponês apontando: já contei quinze portas.
— Onde, Sr. Probo? perguntou a Rainha do Ignoto, pois era ela a camponesa mais nova.
— Ali ao lado da igreja, mostrou ele.
— Afinal vejo... lá está a nossa casa, aquela que o povo chamava convento. Meu Deus! exclamou ela num transporte de amor, quem viverá entre aquelas paredes que serviram de templo aos sonhos poéticos de minha adolescência? Quem pisará aquele solo que eu beijaria transportada porque ele foi pisado pelos meus? Mas como está arruinada a nossa casa! Na décima janela fica o quarto que foi de meu avô. Ele morreu ali, em maio, no dia do Corpo de Deus, me lembro ainda... Na quarta janela era o Gabinete Verde ou a biblioteca de meu pai. Estás vendo, Roberta? Aquela sala, há vinte e três anos, era azul-celeste; hoje deve não ser mais. Olha: naquele terraço de arcadas, junto àquela coluna, rimei os meus primeiros versos; tinha doze anos, era noite, a lua aparecia por cima dos leques das carnaubeiras, do lado da Serra das Antas.
A Rainha do Ignoto falava com a volubilidade de uma criança, tinha a voz trêmula de emoção. O oriente tingiu-se de rosa, as nuvens do alvorecer estavam como em uma transparência luminosa. Ela seguia pela relva do campo, dizendo:
— Era por aqui que o gado de meu pai pastava pelo inverno, quando o vaqueiro nos mandava algumas vacas para tomarmos leite. O curral era ali... Já não o vejo... está tudo mudado.
Assim chegou na beira da lagoa, mergulhou com delícia as mãos naquela água que tantas recordações lhe trazia, e suspirou:
— Eu me lembro: ao romper da alva vínhamos nós, um rancho de crianças, acompanhadas por nossa ama, tomar banho aqui na lagoa da igreja. Os pequeninos juntavam os uruás, que levavam no regaço, e eu colhia flores que chegavam murchas a nossa casa, tão ardente era o sol. Perdoa-me, Roberta, estas puerilidades. Desculpe-me, Sr. Probo: eu vou morrer e quero ainda uma vez, a última, embriagar-me com as recordações de minha feliz infância.
Na mesma ocasião levantou a vista e fitou demoradamente o cercado de uma casa que tinha a frente voltada para a rua da vila, e exclamou:
— Meu Deus! que vejo? Foi ali que passei a minha primeira infância. Já não vejo as romeiras floridas e carregadas de romãs, deixando ver pela abertura da casca os seus bagos cor de rubi! Não vejo as figueiras com seus figos maduros, roxos. Ah! mas já lá vão tantos anos! As mãos que as regavam já fazem parte de uma ossada.
As lágrimas lhe corriam pela face e ela repetia:
— Minha mãe, minha santa mãe! Como foram belos os dias de minha infância, os dias de tua mocidade ali.
Querendo vencer aquela invasão de ternura, tomou Roberta pelo braço e mostrou com o indicador estendido em direção da vila:
— Não vês aquela janela oval que fica ali, muito alta, como em uma torre?
— Vejo.
— Dali alcança-se, bem ao longe, abrange-se metade do horizonte do perímetro da vila. Eu tinha talvez oito anos; em uma tarde subi àquela janela que parece de uma torre e que nós chamávamos o óculo. Uma menina filha do lugar tinha subido também e, vendo-me com a vista presa a uma mancha acinzentada que aparecia no horizonte, com forma cônica, disse-me:
— Aquela é a serra do Areré.
— Vamos lá? volvi sem refletir.
— É longe, disse-me ela com ar misterioso: e lá existe uma gruta, onde vive uma moça encantada em cobra.
— Pois hei de pedir a meu pai para levar-me ali; quero ver a moça encantada.
— Ela te deixa ficar encantada também, disse a menina que fora educada no seio da superstição dos pais.
Contou-me histórias muito extravagantes de almas penadas e bruxarias. Desde aquela tarde, todas as vezes que podia, iludia a vigilância de minha mãe, que nos tinha proibido expressamente subir ao óculo, por causa da perigosa escada. Ia ali contemplar a serra do Areré. Pensava muito tempo na moça encantada da gruta. A minha ideia elaborava um sonho brilhante de fantasias nunca cuidadas. Depois vinha um vivo desejo de penetrar na gruta, de ver a fada, de ser ela mesma, e realmente fui.
Ela terminou as suas recordações já quase à entrada do portão do cemitério. O sol resplandecia no firmamento azul com nuvens alvíssimas, e as borboletas amarelas adejavam alegres sobre a tristeza dos túmulos.
A Rainha do Ignoto entrou e foi ajoelhar ao lado de um carneiro junto ao muro da frente. Colou os lábios à pedra carcomida pelo tempo e beijou uma a uma as letras da inscrição: "Aqui jaz..."
Era aquele o nome adorado de seu pai, o nome querido que lhe entrava na alma como o perfume das flores nas partículas do ar. Ele lhe trazia ao pensamento essa cadeia de fatos reais e psíquicos de que se compõe a existência humana.
Um soluço amargo lhe tomou a voz e o pensamento por alguns momentos; depois, ergueu-se e foi ajoelhar em outro túmulo por trás da capela. Esteve ali muito tempo, contemplando com afeto aquelas paredes já tão antigas, cuja caliça enegrecida pelas chuvas começava a despegar-se em algum canto e, erguendo-se, disse:
— Vamos.
— De quem é este túmulo? perguntou Roberta.
— É de meu avô, respondeu ela com os olhos cheios de lágrimas.
— E o de vossa mãe, onde fica?
— Aqui, disse ela, apontando o coração, pondo a mão sobre o peito. Ela foi enterrada aqui. Sinto-a todos os dias, e choro a sua memória.