Capítulo XXX - São Muitas as Ruas d'Amargura Transitadas Por Pessoas, Que Carregam a Cruz A Rainha do Ignoto · Capítulo 30 de 70
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Capítulo XXX - São Muitas as Ruas d'Amargura Transitadas Por Pessoas, Que Carregam a Cruz

XXX - São Muitas as Ruas d'Amargura Transitadas Por Pessoas, Que Carregam a Cruz

Às quatro horas da tarde, Probo vendo só Odete na biblioteca, entrou, e lhe disse:

- Vamos passear, deve sentir desejo de ver o que na ilha merece ser visto.

- Naturalmente, disse o Dr.

- Convidei Roberta para ir conosco, a fim de não causar reparo à nossa amizade... e depois ela servirá para falar comigo, fazer as perguntas que o senhor na qualidade de muda não pode fazer.

- É certo, mas a senhora Roberta guardará o nosso segredo?

- Como um túmulo, Dr. E... melhor para ela, que não sofre com isso.

- E agora? perguntou o Dr. Edmundo, saio d'aqui com o senhor?

- Não, eu fico. Vá ao observatório, aonde está a Rainha do Ignoto, beije-lhe a mão, e venha ter conosco no pátio: era assim que fazia Odete para dizer que saía a passeio.

- E se ela disser que não vá?

- Não diz, mas, se por acaso disser, torne a beijar e saia.

Minutos depois o Dr. Edmundo ia ter com Roberta e Probo no pátio, e saíram juntos do jardim.

Pouco tinham andado quando encontraram algumas mulheres de touca e avental de cozinha trazendo: carneiros, perus, patos, galinhas, capotes, pombos... outras aves e animais...

- Para onde vai isto? perguntou Roberta.

Uma delas respondeu:

- Para o almoço que a rainha vai dar amanhã na sala das Estações às avezinhas do Ninho dos Anjos.

- As enjeitadas?

- Sim. Ela é mãe de todas.

E a mulher seguiu em busca das companheiras. Quando ela se distanciou e já não podia ouvir, o Dr. Edmundo perguntou:

- Que edifício é aquele de frente cinzenta com rótulas e frisos brancos?

- É o Purgatório, asilo de todas as criaturas inutilizadas pelo sofrimento, que a rainha recolhe e protege, procurando curar as que têm cura, e consolar as desenganadas, disse Roberta.

- É bastante espaçoso!

- Tem muitas divisões: torres, para os loucos, os cegos, os paralíticos, os velhos, e ainda para os empregados.

- Vamos ver de perto.

Foram, e o Dr. Edmundo com seu traje de cavalheiro e mascarado como estava, chegou à grade d'uma janela, e olhou para dentro da sala, onde estavam três doidas.

Uma delas apenas o viu, aproximou-se dele com uma varinha na mão:

- Tire a máscara que está conhecido, senhor Simão das dúzias... ah!... ah!... ah!

O Dr. Edmundo estremeceu, parecia-lhe que a doida o descobrira de veras, e ia pronunciar o seu nome.

Ela continuou com raiva:

- Você pensa, seu viado garipu, seu carneiro da música do batalhão! que é naquele tempo em que acreditava nas singaitas, suas parceiras. Hoje eu sei... vou perguntar a minha varinha de condão.

E fazendo trejeitos com a varinha, dizia:

- Minha varinha de condão! pelo condão que Deus te deu, me diz se Simão é homem ou homma? É homma! E soltou uma enorme gargalhada.

O Dr. Edmundo ia retirar-se da grade, desconfiado, quando gritou outra com uma voz esganiçada que lhe chamou a atenção:

- Ambicioso! casaste pra me roubar! Anda, quero já aqui o meu ouro! Vai buscar meu gado, as minhas casas... Ladrão! Com voz ameaçante) joga! Bebe! Pagodeia!... Anda!... anda!... ladrão!!

E atirou com um castiçal de ferro que se chocou contra a grade e voltou quase aos pés dela.

Roberta disse:

- Esta foi uma moça rica, já entrada na idade, que casou com um moço pobre e peralta. Ele gastou toda a fortuna da desventurada e depois abandonou-a para sempre, e ela enlouqueceu.

- Aquela outra da varinha? perguntou Probo.

- Aquela era uma moça bastante feia, e bastante tola: apaixonou-se por um oficial do exército que morava no mesmo quarteirão da rua. Ela entendeu ser correspondida, somente porque ele ao passar pela janela a cumprimentava, sem sequer lançar-lhe a vista. Mas, quem tiveram a culpa foram umas moças que moravam na vizinhança, e que a tomaram para divertimento. Contando-lhe mentiras que lhe davam esperanças ilusórias, excitavam-na cada vez mais a entregar-se àquela desarrazoada paixão, aconselhavam-lhe muitas asneiras, e a pobre Eusébia apresentava-se todas as tardes à janela ridiculamente enfeitada para ver passar o pretendido namorado. À noite ia conferenciar com as malévolas amigas, que com insinuações perversas levavam-na a dar espetáculo às suas visitas. Eusébia passava pelo ser mais desfrutável do mundo. E quando se retirava, as tais amigas faziam dela, diante de quem quer que fosse, zombarias desumanas! A Rainha do Ignoto diz que muitas vezes presenciou essas cenas revoltantes, e previu o resultado. A pobre moça tinha o juízo fraco, e o corpo também, porque a mãe era viúva de poucos recursos; foi se impressionando, e enlouqueceu. Eis a história desta infeliz.

- Mas não dissestes o nome das moças que concorreram para a loucura de Eusébia, disse Probo.

- Apenas sei que são filhas d'uma viúva Matilde de Moura.

- Já sei, são aquelas a quem a Rainha do Ignoto mandou, de presente de anos, uma garrafa de vinho e um manual de civilidade.

O Dr. Edmundo disse consigo:

- Bem supunha eu donde viera o castigo para aquelas levianas; e Deus queira que Eusébia seja a sua última vítima.

A terceira louca impressionava mais ainda: era moça e muito bonita; mas tão magra e tão pálida que metia dó! O olhar triste e profundo tornava-se de repente espantado.

Ela estava de pé embalando uma rede, onde deitara um travesseiro enfaixado como criança recém-nascida, e, depois caiu de joelhos diante dela bradando:

- Perdão! perdão! minha querida filhinha, para tua desgraçada mãe!

E tinha em pranto, soluçando alto com o rosto entre as mãos.

Depois erguia a cabeça, olhava em roda e dizia zangada:

- Vão embora, senhores policiais! Eu não matei minha filha... Eu matei Sabina mesma... Já morri, estou morta!... querem me levar para a cadeia! Vão buscar um caixão!... digam ao padre que traga água benta para afugentar os demônios... eu estou condenada!

Caía outra vez de joelhos pedindo perdão e chorando.

Há crime que os códigos condenam, e Deus absolve, porque vê mais longe donde começa ele.

- Que bela rapariga, e que loucura esquisita!

- Está magra assim de jejuar e rezar, diz que é para resgatar a alma condenada de Sabina, como ela costuma a chamar-se a si mesma.

- E cometeu mesmo algum crime?

- Cometeu, afirmou uma empregada do asilo: era filha d'um vaqueiro d'uma fazenda pertencente a uma velha viúva e rica, nos sertões do Ceará. O pai de Sabina tanto tinha de reto, de honrado, como de brusco e colérico, para quem não andasse direito com ele. Era uma fera! A filha, muito bonita e muito requestada, era quem mais sofria os arrancos do gênio dele. A velha, dona da fazenda, que não tinha filhos nem pessoa que lhe administrasse os bens, pôs como administrador um moço muito ativo e bem apessoado; mas, de origem tão nobre como a filha do vaqueiro. Ambicioso e despido de escrúpulos, calculou com a riqueza da velha, e com o amor da moça. No dia em que ele se casava com a dona da fazenda, a filha do vaqueiro, em casa d'uma tia e madrinha, para onde se tinha retirado, dava à luz a uma criança que matou e sacudiu presa a uma pedra, ao fundo d'um poço.

O pai veio buscá-la nessa mesma noite, e encontrou-a louca; mas, o segredo ficou entre a tia e ele, cujos dizeres eram tomados por todos como disparates da loucura.

- Coitada! disse Roberta, agora a senhora faz-nos o favor de mostrar alguns loucos, basta dois ou três; é somente para termos uma amostra do que vai pelo mundo.

- Vou lhes mostrar os dois mais calmos; os furiosos... só o guarda Sansão tem a chave de seus aposentos.

A mulher conduziu-os a uma salinha, cujas janelas não tinham grade, eram de vidraça; na parede fronteira estava armado um altar extravagantemente enfeitado, e junto um moço muito pálido e muito magro, também ridiculamente paramentado, e fingia a cerimônia da missa. De repente soltou uma risada, sacudiu com a colcha que lhe servia de capa, com a fita que lhe servia de estola, e saiu dançando uma valsa, e dizendo:

- Não sou padre, não sou nada, sou secular como os outros.

Nestas cambalhotas derribou uma prancheta que estava no meio da sala, com uma carta geográfica estendida em cima.

- O senhor foi mandado para roubar-me a glória! senhor padreco, acudiu um velho de nariz adunco, e cabeleira branca e anelada em roda da calva.

- Desculpe, desculpe, disse o suposto padre, com brandura.

- Está desculpado, disse o velho bonacheirão com uma risada, venha de lá um abraço, camarada!

E os dois doidos se abraçavam satisfeitos.

- Todos os dias esta mesma cena se repete muitas vezes, disse a mulher.

- Porque aquele velho tão alegre ficou louco? perguntou Probo.

- Por causa d'uma injustiça, respondeu ela, este pobre homem era piloto, gastou a mocidade em estudar a geografia física do país, e depois empreendeu levantar a carta de sua província natal, e o fez como nenhum outro antes dele; mas como tinha muita pobreza e pouco valimento, a sua carta foi registrada pelo conselho geral de Instrução Pública do Rio de Janeiro, e outro, que tinha pouca pobreza e muito valimento, copiou-lhe a carta, apresentou ao conselho, e ela foi aprovada. O velho Pacífico começou por andar pelas ruas da cidade com sua carta enrolada debaixo do braço, contando a todos a troca que lhe fizeram. A ideia não lhe saiu mais da cabeça; e imaginou, quer por força fazer valer o mérito de sua carta, espera ainda uma reparação do mal que lhe fizeram e leva dias inteiros a teimar com o ex-seminarista sobre a glória que há de cercar o seu nome quando lhe fizerem justiça.

- E o outro, o ex-seminarista, perguntou Roberta, qual foi a causa de sua loucura?

- Pobre moço! exclamou a empregada do asilo com tristeza, era digno de melhor sorte; mas, nasceu condenado, foi vítima do fanatismo, da ganância do não sei de quê outra ambição dos pais. Como sabe, no interior do Ceará o sonho dourado do fazendeiro ou do agricultor é ter um filho padre que nobilite a família. Alguns são levados pela ambição, dizem que o padre ganha muito dinheiro sem trabalhar; outros vão atrás das honras que lhes vêm d'ahi; e as mães são levadas a este tentamen pelo fanatismo religioso: julgam que ter na família um ordenado é possuir uma espécie de santo que as santifica também:

De sorte que ninguém consulta a inclinação do menino; quando se diz: este vai ser padre, não tem para onde apelar, a pobre criança sem ideia alguma da vida, curva a cabeça resignada, e faz coro com as vozes dos pais: Vou ser padre. E entra para o seminário. Foi o que aconteceu com o infeliz Pio, poeta de gênio exaltado, sem nenhuma vocação, amando no silêncio de sua reclusão, e combatendo a vontade de ferro dos pais, sucumbiu na luta, perdeu o juízo, quando estava para tomar as primeiras ordens.

- Para termos uma amostra do que vai pelo mundo, disse Roberta, bastam-nos as histórias destes cinco desventurados; mas, apesar de já lhe termos cansado a paciência com perguntas, desejamos que nos mostre, se não lhe for muito incômodo, um ou dois mártires do recolhimento dos Desconsolados.

- Isto não é comigo; mas vou pedir licença à diretora do Purgatório, para ir acompanhá-los até os Desconsolados.

A mulherzinha voltou logo, chamava-se Madalena, era muito ativa e havia sofrido muito, tinha uma história muito longa e muito dolorosa, como a dos infelizes loucos que ela cuidava com tanta paciência.

Introduziu os visitantes em uma sala, onde se via mulheres de todas as idades, com sinais de todos os sofrimentos morais e físicos que inutilizam o corpo: estava uma com uma paralisia agitante e uma aneurisma na aorta, causada por um aperto de garganta que o marido lhe dera, quando bêbado, cambaleando voltava uma noite da taverna:

Adiante estavam duas cegas muito parecidas tendo ambas olheiras muito visíveis.

- Quem são aquelas duas cegas que se parecem tanto? Se uma não fosse nova e a outra velha poderiam ser gêmeas.

- São mãe e filha, disse Madalena, cegaram de chorar!

- Como? é possível!

- Sim, esta senhora é viúva, tinha um filho muito bom comportado, e que era o seu arrimo, da irmã, e de duas tias velhas e doentes; veio um mandado de aldeia, por intriguinhas pequeninas, recrutou-o, e mandou-o para a capital a fim de que o embarcassem imediatamente para a guerra do Paraguai. Debalde foram os empenhos de uma pessoa bem intencionada, que se compadeceu d'elas, porque esses empenhos chegaram tarde, e o filho da viúva seguindo para a guerra desapareceu para sempre como engulido por um terremoto. Morreu de certo, e elas desde que o viram partir entraram a chorar e choraram tanto que cegaram. A moça estava para casar, perdeu a vista, o irmão e o noivo.

Depois das duas cegas notava-se uma velha alta, desempenada e de feições romanas, que estava de pé junto à grade da janela passando pelos dedos as contas d'um rosário, e cochichando rezas:

Naquele rosto sulcado pela mão da idade e da dor, via-se ainda os primeiros traços d'uma beleza raríssima! Mas de seus olhos, de sua boca, de suas faces cavadas transparecia uma tristeza tão pesada que vinha oprimir a alma de quem se lhe aproximava.

- Tem uma enorme cicatriz na garganta, disse Probo à meia voz.

- Foi um golpe de navalha, acudiu Madalena, ela tentou suicidar-se.

- Ah! meu Deus! porque? perguntou Roberta.

- Porque a cruz dela foi mais pesada que a das outras e faltou-lhe a coragem para chegar até o cimo de seu calvário. Esta infeliz quando foi colhida pela Rainha do Ignoto vivia em companhia d'uma coleção de irmãs solteiras; já bastante velhas e pobres, umas verdadeiras santas, pacientes, e rezadoras. Em idades tão avançadas eram elas tão ingênuas como uma criança! Presume-se que Flávia fosse tão boa como suas irmãs, posto que, tivesse casado com um malvado. O marido de Flávia pouco tempo depois de casado foi fazer uma viagem e não voltou; ela soube que ele vivia com outra mulher lá para os sertões do Piauí e continuou a esperá-lo, vivendo só na casinha em que ela o tinha deixado: Uma tarde, ao pôr do sol, ela o viu entrar empunhando uma faca que cravou-lhe d'um lado. A pobrezinha caiu banhada em sangue, e ele julgando-a morta fugiu para casar com a outra; mas, enganou-se, ela escapou e estando para dar à luz a primeira filha, esta em consequência da grande quantidade de sangue que perdeu a mãe, nasceu, paralítica e idiota. Ali está sentada naquela rede, sem se poder erguer já há trinta e seis anos! É uma vítima da perversidade de seu próprio pai!

E Madalena apontava para uma moça muito alva e pálida, com os cabelos cortados, que se embalava na rede puxando por um cordão preso à grade da janela aonde estava Flávia.

Ela tinha as pernas cruzadas dentro da rede e olhava para os visitantes com um riso todo misturado de palavras sem nexo.

- Basta, senhora Madalena, disse Roberta, já podemos afirmar que as ruas d'amargura são muitas por onde transitam pessoas carregando a cruz.

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