Capítulo VI - Um Conhecimento Antigo A Rainha do Ignoto · Capítulo 6 de 70
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Capítulo VI - Um Conhecimento Antigo

VI - Um Conhecimento Antigo

Maio, o belo mês das flores, já ia em meio, e nas suas tardes serenas e tépidas, as andorinhas, estas mensageiras do fim do inverno, cortavam os ares e chilreando procuravam os ninhos nos velhos muros, nas janelas e cimalhas das casas.

Edmundo, acompanhando com a vista os recortados voos dessas aves de passagem ou arribação, sentou-se junto à janela aberta, e repassava pela mente o que tinha visto na tarde anterior sobre o monte Solitário da serra do Areré.

De repente ouviu uma voz de pessoa muito sua conhecida que falava na calçada da casa vizinha, e surpreendido, escutou:

- D. Raquel, não me dirá o que tem a Carlotinha, que não vai mais à nossa casa?

- Oh! D. Matilde, só faz uma semana que deixei de lá ir, dissera de dentro uma voz infantil.

- É ela mesma, disse Edmundo consigo, já um pouco alvoroçado por encontrar na aldeia um conhecimento antigo, da cidade.

D. Matilde continuou com as queixas:

- Uma semana para quem ia todos os dias, é muito tempo, vale uma zanga!

- É verdade, D. Matilde, disse a professora vizinha de Edmundo, esta menina deu em um nervoso... não quer sair, vai até emagrecendo.

- Isto é do crochê, D. Raquel, os médicos dizem que faz muito mal este trabalho.

- Eu sei disto, D. Matilde; mas as moças de hoje não querem fazer outra coisa, porque não lhes dá lugar a estarem à janela... Em nosso tempo os trabalhos eram outros.

- Eu já vou desconfiando, disse D. Matilde, que anda mouro na costa... já há mais de uma semana que veio morar, para estes lados, um doutorzinho de quem se fala muito na terra.

- Baixo! mamãe, baixo! Lá está ele na janela, disse uma moça morena que estava ao lado de D. Matilde.

- Gentes! que vejo?.. É o Dr. Edmundo... exclamou ela voltando-se para o lado da janela.

- Um seu criado, D. Matilde, já vi que não esquece os antigos conhecimentos, respondeu ele depois de uma cortesia afável.

- Muito bem, mas o senhor esquece; pois chegou já há uma semana, e ainda não foi à nossa casa.

- Não sabia que estava aqui, disse ele saindo para a calçada, e, enquanto apertava a mão de D. Matilde, olhava estranho para as duas moças que estavam a seu lado.

- Não conhece, doutor? Esta é Henriqueta, e essa é Malvina. O senhor as viu ainda pequenas; já estão crescidas, umas moças.

- Bonitas! disse ele familiarmente.

- Não seja lisonjeiro, Dr., veja que estamos na roça, aqui não se usam os galanteios de salão.

- Aqui o que não se usam são os fingimentos de lá, disse a professora oferecendo cadeiras aos circunstantes.

- Muito bem, minha senhora, confirmou Edmundo sentando-se disposto a palestrar.

Todos fizeram o mesmo, sem exceção do dono da casa, que mandou vir uma espreguiçadeira e acomodou-se nela o melhor que pôde. O Senhor Martins, assim se chamava ele, era um obeso bonachão, sempre pronto para rir.

Chamou a filha que tinha ficado na sala:

- Que fazes aí, Carlotinha? Queres que te chamem matuta?

- É porque estou indefluxada, disse a menina, o sereno me faz mal.

- Deixa de tolice, disse Henriqueta, vem sentar-te ao pé de mim.

A moça sentou-se entre as outras, e começou a falar em voz baixa com elas.

D. Matilde continuou:

- Então, doutor, veio visitar a minha terra?

- Sua, D. Matilde! Sempre julguei que a senhora fosse pernambucana.

- Não; morei lá vinte anos, minhas filhas são pernambucanas assim como o pai; mas eu sou filha mesmo deste lugarejo, e tenho gosto nisto; não troco minha terra por nenhuma outra.

- Apoiado! D. Matilde! exclamou o Sr. Martins, aperte esta mão... e procurava erguer-se a despeito do grande abdômen.

- É minha patrícia, disse Edmundo, também sou cearense, nasci na Fortaleza.

- A mamãe também é de lá, lembrou Carlotinha timidamente.

- E Vossa Exa.? perguntou Edmundo.

- Eu sou daqui, respondeu a menina baixando os olhos.

- Que tem, disse maliciosamente Henriqueta, a Carlotinha sente um desgosto de ser matuta!

- Se ela é, acudiu a mãe, tem para onde fugir.

- Mamãe também, disse a menina tristemente.

Edmundo veio em seu socorro:

- Não importa, D. Carlotinha, vale a pena ser uma flor silvestre quando se pode rivalizar com as rosas dos jardins.

- Oh! Doutor, exclamou D. Matilde, pelo amor de Deus perca este costume... O senhor pensa estar ainda nos salões de Paris.

- Se D. Matilde fosse moça, doutor, observou o Sr. Martins, havia de querer lisonjeiros até na roça.

Edmundo aplaudiu o dito do pai de Carlotinha, e D. Matilde riu-se contrafeita.

De repente ele perguntou:

- Sabe o que é feito de Gustavo?

- Qual? perguntou D. Matilde, é o Gustavo Mendes?

- Não, falo naquele que foi meu companheiro de república, o Gustavo Braga.

- Ah! Meu Deus! Este é meu genro, casou com a minha Alice e está muito perto, é juiz de direito do Aracati.

- Eu reparei a ausência de D. Alice, disse ele, mas não perguntei por ela, porque supus que tinha ficado em casa.

- Hoje, se o senhor a vir, não a conhece, disse D. Matilde: está gorda como uma abadessa! Tem dois filhos: um menino que vale um trovão! E uma menina que é um relâmpago! Mas ela fica cada vez mais moça! O marido é um pateta com ela, faz-lhe todas as vontades!

- Sempre pensei, observou Edmundo timidamente, que Gustavo casasse com D. Virgínia, falava-me dela com um tal entusiasmo que eu o julgava verdadeiramente apaixonado.

- Coitada! Dr. A pobre de minha sobrinha está tísica... faz pena, só tem a pele pegada aos ossos! Mas posso asseverar que ela deve aquela moléstia ao gênio. Quero-lhe muito bem, porque a criei desde pequena como filha... entretanto só eu sei quem está ali!...

- Talvez me tenha enganado, volveu Edmundo; mas me pareceu sempre muito sensata e dócil.

- Era sim, confirmou D. Matilde; mas de uns anos para cá, mudou tanto, que não parece a mesma! O Dr. sabe quanto ela era inimiga de festas e passeios; o seu principal entretenimento eram: o piano, a costura e os livros; não levávamos isto a mal, porque apesar de tudo, era alegre e afável para com todos... Depois passava uma semana e mais que ninguém em casa lhe ouvia a voz!

- Mas, era falar-se em um baile, em um espetáculo, ela era a mais empenhada em ir, disse Henriqueta, às vezes a maninha ou a mamãe não estavam dispostas a ir a alguma festa para que haviam tido convite, e ela tanto me instigava a pedir-lhes que fossem, que afinal elas iam.

- Também era só quando se via a Gina alegre, observou Malvina.

- Uma coisa era ver e outra dizer, tornou D. Matilde, a minha sobrinha dançava até ficar exausta, sem fôlegos! Nunca valsou em outro tempo, foi aparecer-lhe a moléstia... valsa... valsava até não poder mais!

- Mas, em uma ocasião, foi-lhe fatal a loucura! disse Henriqueta, depois de dançar assim, arquejante de cansaço, caiu sobre uma cadeira quase desmaiada. Levou o lenço à boca, e tirou-o manchado de sangue!

- Que agonia para todos nós! exclamou D. Matilde; o Dr. Clementino Penha estava presente, acudiu de pronto; mas ela rejeitou os seus serviços, dizendo que não era nada, que passara logo. Fui com meu genro pedir-lhe que se retirasse do baile. Sabem o que me respondeu: deixe-me, tia Matilde, estou aqui muito bem. Já se viu?!...

- Ora, disse Henriqueta, cinco minutos depois o Eduardo Gama levou-a para o piano e ela cantou uma ária!

- Serviu de admiração, lembrou Malvina; houveram senhoras que choraram.

- E outras se indignaram, menina, tornou D. Matilde. Vejam só se isto não é força de gênio.

- Não vejo pelo mesmo prisma, D. Matilde, replicou Edmundo, abstendo-se de patentear o seu juízo sobre o caso.

- Ninguém me convence, Dr., aquilo era birra; pois Virgínia já muito doente, tossindo, ia a um espetáculo lírico, bem contra minha vontade; quando voltávamos à uma ou duas horas da madrugada, ela sentava-se ao piano e tocava quase até de manhã! Era preciso que eu me levantasse e fosse obrigá-la a deitar-se banhada em suor... desfalecida! No outro dia não se levantava da cama!

- Pobre moça! exclamou Edmundo com tristeza.

- Não pense o senhor que minha sobrinha é maltratada, não é, tenho feito por ela o que faria por minhas filhas.

- Desculpe-me, D. Matilde, não me refiro a isso, disse Edmundo levantando-se para retirar-se.

- Vamos, minhas filhas, disse D. Matilde, também levantando-se; a noite está escura e nossa casa fica um pouco longe.

- Aonde fica? perguntou o Dr.

- Junto à igreja, sabe? Uma casa de frente amarela com rótulas verdes.

- Sei, disse ele, se permite que as acompanhe, estou às ordens.

- Sim, agradeço-lhe muito a fineza... A rua já está quase toda fechada... Meu Deus, que povo para dormir cedo!

- Por causa da Funesta, disse Edmundo gracejando.

- Até o senhor que chegou, bem dizer ontem, já ouviu falar nesta patranha, observou o Sr. Martins.

- Talvez mais do que o senhor, respondeu Edmundo já em caminho.

Ele deixou as tagarelas à porta de sua residência e prometeu-lhes em breve voltar ali.

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