Capítulo XLVII - O Amor é o Princípio de Todas as Desgraças
Capítulo XLVII - O Amor é o Princípio de Todas as Desgraças
A bordo do Tufão, que se preparava para levantar o ferro, estavam reunidas as doze paladinas da excursão ao cemitério, no castelo de popa esperando a Rainha do Ignoto para lhes explicar o caso da noite anterior.
O sol vinha aparecendo a estibordo sobre uma nuvem rósea que se elevava dos nevoeiros do rio.
A lua do lado oposto se mostrava esmaecida, apagando-se aos primeiros clarões do dia.
Odete encostada à amurada parecia indiferente e era a mais curiosa, ou curioso, se se pudesse descobrir.
A Rainha do Ignoto apareceu e sentando-se entre elas, disse:
— Lembram-se do horror que eu sentia quando habitando alguma casa nas vizinhanças d'um quartel, ouvia tocar música e as fachinas ou varas estalarem nas costas d'um soldado, d'um defensor da pátria?...
— Lembro-me muito bem, disse a generalíssima Martha Vieira, vós vos tomáveis d'uma tal angústia! d'uma tal indignação capaz de fazer a loucura de correr para rua e mesmo no lugar do suplício levantar a voz e fazer discursos sediciosos!
— Sim, mas nunca fiz isto e contentava-me com tragar as lágrimas e fazer refluir o sangue que me tumultuava no coração e nas faces, de vergonha das leis de todos os países que neste atrasado planeta se chamam civilizados!
— Mas, Senhora, tornou Martha Vieira, se os que entendem de disciplina dizem que não a podem manter por outra forma, que se há de fazer?
— Não tem o civil um cárcere para punir os maiores crimes? Já aí não se fala em açoites, senão como abuso. O tronco não existe mais. Por que hão de existir as chibatas no exército e na marinha?!
— Em nome de minhas companheiras, senhoras, disse Camilla Franco, vos peço que deixeis a discussão para outra vez e nos façais Vós, Rainha do Ignoto, a exposição do caso desta noite.
— Tem razão, disse ela, vão ouvi-lo: na manhã em que desembarquei nesta cidade, disfarcei-me em lavadeira e fui com Roberta, que sobraçava uma trouxa, para o igarapé da Bica. Este igarapé fica entre a praça do quartel e a rua dos Tocos. Eu queria logo entrar pelos caminhos competentes para espreitar a miséria e as desgraças humanas.
Primeiro vimos muitas lavadeiras alegres e brincalhonas, e seguimos nosso caminho desejando-lhes que Deus lhes conservasse a saúde e a alegria. Depois vimos uma velha que lavava, retirada, esta quando nos viu começou a nos oferecer os seus favores; notei a tristeza de seu semblante e um profundo suspiro que ela deixava escapar de quando em quando.
Estava para inquirir a causa de seu desgosto, quando ouvi sair do mato próximo uns soluços, um choro desesperado!
Deixei Roberta lavando com a velha, e fui ter ao lugar d'onde saía o choro.
Ali encontrei abraçada ao tronco d'uma árvore uma moça, com os cabelos em desalinho, chorando em desespero!
— Que tem? perguntei-lhe juntando-lhe as madeixas espalhadas sobre a fronte.
Ergueu para mim os olhos cheios de lágrimas, e disse:
— De que serve dizer... a Senhora não dá remédio...
— Quem sabe? respondi-lhe, o acaso vem algumas vezes em nosso auxílio.
— Isto é, confirmou ela, e a gente sente-se mais aliviada quando conta seus males a uma pessoa compadecida.
— Que papel é este? perguntei-lhe reparando n'um papel que ela tinha na mão, deixe ver.
Ela entregou-mo sem dizer nada e tornou a cair em pranto desfeito. Então li:
«Amélia.
Estou ainda na solitária e já soube que marcaram a segunda-feira depois d'amanhã para o açoite. Querem derramar o sangue que eu devo à Pátria. Juro que os botões de minha farda que nunca foram marcados por uma ação indigna, não serão desfeiteados por uma injustiça! Já tenho com que termine a vida. Segunda-feira hão de encontrar o meu cadáver.
Adeus minha prima e minha noiva... até dia de juízo. Reza com minha tia por minh'alma que vai cheia de ódio. Toma cuidado com aquele alferes borracho... Foge desta terra ou faz como eu, te suicida. Ainda uma vez para sempre Adeus.
Marcos.»
Pelas poucas palavras contidas naquele pedaço de papel adivinhei uma terrível tragédia! dessas que passam desconhecidas no oceano do tempo, como gritos de náufragos no oceano das águas!
— Amélia, disse comovida, e o que fez seu noivo para ser submetido a tão cruel castigo.
— Creio que não fez nada, mas dizem que feriu um alferes, e que devia ser condenado à morte.
— Alguma coisa muito grave levou-o a este ato de desespero, disse eu.
— É uma história muito comprida e muito triste, disse Amélia, presa pelo interesse que me causavam seus infortúnios, se quer ouvi-la, senhora, sente-se à sombra desta árvore e ouça-me:
«Quando meu pai morreu em sua casinha do Outeiro na cidade da Fortaleza, já Marcos era soldado do 1.º batalhão e eu estava na escola da professora Úrsula, com pouco mais de dez anos. Ele também não tinha mais nem pai nem mãe, foi criado pela minha que o considerava mais como filho que como sobrinho. Em criança esteve ele em casa d'uma família que o tratou muito bem e dava toda proteção a meu pai e a minha mãe; mas deu-lhe na cabeça assentar praça e assentou, foi todo o mal...
A moça interrompeu-se outra vez a chorar e eu disse-lhe, continue Amélia, quero saber o fim de sua história, e ela continuou:
— «Como ia dizendo, Marcos foi para minha mãe um bom filho e para mim um irmão velho. Durou pouco o tempo de nossa paz. O 1.º tinha voltado da guerra do Paraguai, e os soldados acostumados a matar nos combates, meteram o ferro a matar ainda não só pelos arrabaldes e até por alguma rua da cidade, como aconteceu na rua do Conde d'Eu. Então veio ordem para o batalhão embarcar e Marcos ainda novo na praça embarcou. Nunca mais tivemos notícia dele. Minha mãe ganhava a vida com muito custo lavando roupa, e eu logo que fui crescendo comecei a engomar para algumas famílias que se compadeciam de nós. Passaram-se assim sete anos. Um dia em que as necessidades nos apertavam mais, minha mãe soube que o presidente estava dando passagem aos emigrantes cearenses para o Amazonas; tiramos como eles nossas passagens e desembarcamos em Manaus, e quando pensávamos na direção que devíamos tomar, nos encontramos cara a cara com Marcos que já era sargento deste batalhão. Ele ficou doido de alegria e nos disse que tinha cansado de escrever e pedir notícias nossas e que nunca obteve a menor resposta. A nós tinha sucedido o mesmo. Ele nos arranjou uma casinha na rua dos Tocos, e em breve nos arranjamos muito bem, minha mãe lavando e eu engomando, ganhávamos o suficiente para viver. Marcos nos queria muito e nós éramos felizes. O nosso casamento estava justo, ele ia tirar licença do comandante para realizá-lo quando a desgraça nos alcançou.
Por arte do demônio vinha minha mãe comigo da missa em um domingo, pelas dez horas e vi Marcos encostado ao canto do quartel, e esteve falando com ele. Eu que tinha ficado um bocadinho afastada do lugar via um oficial que me fazia acenos e requebros namorados da janela fronteira. Pus os olhos no chão e puxei minha mãe pela manga para que ela seguisse comigo. Mas apenas nos retiramos ele perguntou a Marcos onde morava a linda rapariga que esteve falando com ele. Marcos respondeu-lhe: Senhor alferes aquela moça é minha prima e minha noiva, ela com minha tia ganham honradamente a vida lavando uma e engomando a outra, se precisa de seus serviços me encarregarei de levar as ordens de V. S.ª e serão cumpridas.
«Ele deu uma gargalhada e exclamou:
— Dignidade de sargento! tem que ver! honra de engomadeira!
E continuou a mofar.
«Marcos disse-lhe algumas razões pesadas que estavam fora da disciplina e daí começou a intriga.
«O alferes procurou ver-me, descobriu a nossa morada e teve até a audácia de escrever-me.
«Marcos que tão estimado era de seus camaradas como dos superiores, que tão bom conceito gozava, foi sendo rebaixado até lhe tirarem a última fita de anspeçada; a sua insubordinação para com o alferes Manduca era notória no batalhão.
«Uma noite em que Marcos estava de guarda o alferes chegou-se a ele, vinha embriagado, e disse:
— Acabo de ter uma entrevista com Amélia, toma este beijo que ela te mandou.
Não pôde se aproximar, Marcos esperava-o com o sabre e o teria varado se não fosse agarrado pelas costas por dois soldados, que, à ordem do oficial de estado meteram-o no xadrez. Disseram-me que ele podia ser condenado à morte, mas que era à açoites por empenho d'alguns oficiais.
A moça caiu outra vez em pranto.
Eu estava comovida até às lágrimas.
Disse-lhe com voz firme:
— Não chore Amélia, confie em mim e deixe que Marcos será salvo.
Ela olhou para mim admirada como quem não compreendeu, e depois disse:
— Nós já fomos falar com a mulher do comandante, já nos valemos da filha dele e nada adquirimos...
— Pois bem, disse-lhe, eu lhe mostrarei: Hoje à tarde aquela mulher que lá está embaixo no igarapé a lavar roupa com sua mãe, irá procurá-las, sigam sem receio; pois ela há de levá-las para bordo d'um vapor onde irão esperar Marcos.
Ela foi logo ter com a mãe, e eu segui com Roberta para dar andamento a meu projeto.
Tocou a sineta de bordo chamando para o almoço, e as paladinas não queriam deixar seus lugares, ansiosas pelo fim da história de Marcos e Amélia; mas a Rainha do Ignoto fê-las seguir para a mesa prometendo continuar depois.