Capítulo LV - Libertou Cem Escravos e Cativou Duas Moças
Capítulo LV - Libertou Cem Escravos e Cativou Duas Moças
Às mesmas horas em que os brancos entravam para o circo, os pretos esquecidos até pelo feitor Mourão no borburinho da festa, se reuniam em frente à senzala, para ouvirem a mística Suzana.
Esta, em extática postura, com os olhos no céu, lhes falava como inspirada por Deus.
Ela tinha explorado o fanatismo supersticioso, que o velho Anastácio plantara n'alma boçal dos tristes companheiros, em proveito deles próprios. Desde o momento em que chegou ao engenho, que se impôs pelo misticismo:
Tirou d'um saquinho que trazia, uma chusma de bentos, rosários, medalhas e santinhos, e distribuiu com eles.
Já há três noites, que depois do serão rezava com os seus companheiros de infortúnio um terço à Mãe dos Desamparados. De forma que n'aquele espaço tão curto tinha adquirido mais predomínio sobre os escravos do capitão Matury que ele em muitos anos de castigo.
Eis porque não lhe foi difícil durante as primeiras horas do espetáculo, reuni-los em frente à senzala, e depois fazê-los seguir em procissão para fora do engenho, afim de ouvirem o missionário que pregava à borda do mar.
Suzana seguia na frente levando erguida uma cruz de madeira, toscamente talhada.
Quando chegou ao sítio combinado, apareceram os ciganos que pondo cerco à tropa dos pretos agarraram-nos repentinamente, e foram sacudindo-os nos barcos que se faziam logo ao largo em busca do Grandolim, preparado com antecedência para receber a carregação de pretos.
A Rainha do Ignoto deu suas instruções ao comandante do Grandolim, e dirigiu-se para bordo do Tufão.
Ela tencionava demorar-se no porto do Recife até a realização do casamento de Helena com Zoroastro. Depois disso seguiria a mesma derrota do Grandolim até o Rio de Janeiro d'onde pretendia voltar à ilha do Nevoeiro fazendo escala pelo Ceará.
Os pretos deviam ser distribuídos como trabalhadores livres, nas fábricas e nos estabelecimentos rurais que a Rainha do Ignoto possuía nos estados de Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, S. Paulo e Paraná.
O Grandolim levantou o ferro sem a mínima desconfiança da competente visita do porto.
Naquela mesma tarde Rainha do Ignoto convencia Helena de que devia apresentar-se na sociedade pelo braço d'um esposo.
À noite depois da cerimônia religiosa dos casamentos de Zoroastro com Helena e de Marcos com Amélia, ela voltou para bordo do Tufão.
Ali encontrou Roberta muito triste pela solidão do navio, pois a maior parte das paladinas estavam em terra na festa do noivado.
— Voltou cedo, senhora, disse Roberta com a familiaridade costumada.
— Só estou aonde precisam de mim, Roberta, respondeu, acompanho a lágrima até o momento em que ela se transforma em riso, daí por diante pode seguir só o seu caminho.
— Acha então que Helena pôs hoje o pé no primeiro degrau da felicidade?
— Não sei. Julgo apenas que fora do amor não há para mulher grandeza nem felicidade possível! Julgo também que a mais ambiciosa de ouro ou de glória, não trocaria por uma coroa de louros a grinalda de flores de laranjeira do dia de seu noivado.
— Nem avalia, senhora, o quanto me admira esta linguagem.
— Muito mais admiração te causaria a minha falta de franqueza, pois és boa e sincera, devo te aparecer tal qual sou, e não transfigurada, como faço em outras paladinas.
— E vós vos transfigurais?
— Sim, porque isto não é máscara, eu nunca me mascarei.
— Como senhora? Nunca se mascarou? E que é isto?
— É uma maneira de aparecer às paladinas: aos estranhos apareço no meu estado natural ou na figura, que exigem, as circunstâncias.
— Admirável! exclamou Roberta, mas porque só a elas oculta o rosto?
— Porque de tão perto, podem surpreender algum sinal fisionômico que denuncie a fraqueza de meu coração, os delírios de minh'alma. Ouve: Eu nunca enganei ninguém com falsas aparências. Meu ideal foi o caráter. A coisa que mais me irrita é a falta de sinceridade; mas, tenho a mania de obscurecer o mundo físico do eu que existe em mim, todo desequilibrado, pois o meu gênio varonil, o meu espírito forte não está de acordo com a ternura de meus sentimentos, com a debilidade de meu coração de criança.
— É por isso que vós disfarçais diante dos que vos rodeiam? disse Roberta, já compreendo; o mundo é mau: zomba da grandeza d'alma! ri dos sentimentos elevados, principalmente da mulher.
— É certo Roberta, quando a mulher atira um punhado de flores o homem lhe responde com braçadas de espinhos, e isto quando não lhe pode atirar com uma chuva de lama!
— Bravo! senhora, e acabais de libertar cem escravos e cativar duas moças.
— Seguem as pegadas das outras mulheres, respondeu ela.
— Ah! senhora, disse Roberta com tristeza, já não se lembra da pobre Lucina, e de outras a quem tendes servido de Sirineu para ajudá-las a carregar a cruz do matrimônio?
— Si não me lembrasse d'ela, a carta que, ainda há pouco recebi do Pará me lembraria, disse a Rainha do Ignoto.
— E como vai a pobre Lucina?
— Recobrou o juízo, cuida da casa perfeitamente, veste-se, sai a passeio e lê livros religiosos.
— E o bom do marido, como vai ele?
— Onofre Montano está regenerado.
— Mas o seguro, disse Roberta, foi quem pagou cinquenta contos pela ladroeira!
— Não importa, já tem pago outras que são infrutíferas, e esta vale a felicidade d'uma mulher, e a regeneração d'um homem, volveu a Rainha do Ignoto, depois se ele tivesse perdido a questão com o seguro, eu lhe pagaria os cinquenta contos contanto que mudasse de vida.
— Pior, é se ele tornar para o que foi, disse Roberta, receosa.
— Poderia ser assim, respondeu a Rainha do Ignoto, se ele não recebesse, de dez em dez dias com a chegada do paquete, uma carta lembrando-lhe o contrato feito com o sargento Júlio Pequeno, na noite do incêndio.
— Ah! senhora, sois previdente quase como um Deus?
— Não blasfemeis, Roberta.
— Não é blasfêmia, senhora, é uma maneira hiperbólica de falar. Dizei-me, Zoroastro perdoou à mãe?
— Não há ofensa que não se deva perdoar a um inimigo, quanto mais a uma mãe. A pobre senhora está arrependida, e se o filho não se reconciliasse intimamente com ela, eu o abandonaria, e recusava-lhe a mão de Helena.
— Deus queira que ela seja feliz, senhora.
— Há de ser, porque Zoroastro é um moço de caráter muito distinto, e dedica-lhe amor sincero, respondeu a Rainha do Ignoto.
— Quando deixaremos este porto? perguntou Roberta.
— Amanhã às sete horas.