Capítulo LX - O Diário da Funesta
Capítulo LX - O Diário da Funesta
— Vamos para bordo do Tufão, disse a mascarada do cetro, subindo para o carro.
— Hoje é impossível, disse outra do carro, a noite está escura e só poderemos embarcar tudo isto amanhã.
— Seja assim, respondeu ela, Ignez Racey que se encarregue do resto, eu vou com Odete. Sabe se Camilla Franco conseguiu libertar Jayme Ortiz, se ele não embarcou com os presos para Fernando de Noronha?
— Ali vem ela, disse a interrogada, pode responder-lhe.
Camilla Franco no papel de Gutemberg, aproximou-se, e sendo interrogada respondeu:
— Fiz o que foi possível para libertá-lo, mas antes de realizar o meu plano, uma mão mais poderosa que a minha quebrou-lhe os grilhões desta miserável existência. Vinha agora mesmo participar-vos que hoje pela manhã fiz-lhe o enterro em nome de uma sociedade beneficente dos criminosos.
— Bem, disse a Rainha do Ignoto, pois era ela a mascarada vestida de preto e coroada de espinhos de ouro.
Ela seguiu com Odete ainda no traje da Poesia, túnica de cetim branco, grandes asas, coroa de louros e uma lira com cordas de ouro.
Chegaram à praia e já ali estava King com um escaler.
Fiel veio-lhe ao encontro abanando a cauda, e começou a cheirar-lhe as mãos.
Ela nas trevas da noite, na solidão da praia, alisando o azeviche do pelo do animal dizia tristemente:
— Só tu! Fiel... só tu...
Chegaram a bordo do Tufão; lá não havia quase ninguém.
A âncora na água, a caldeira apagada não precisava de tripulantes, arfava sobre as ondas, cujo rumor imprimia na alma uma tristeza pesada.
A Rainha do Ignoto passando de repente da claridade da festa carnavalesca para as solidões profundas do oceano sentiu-se no mundo interior de sua alma, nas regiões psicológicas onde habitava o seu esquisito eu.
No salão de ré, com um braço firmado na mesa redonda e a fronte descansada na mão, ela pensava. E quem adivinharia em que?
Odete ressonava em uma espreguiçadeira, e ainda que estivesse acordada seria o mesmo; pois a Rainha do Ignoto se tinha acostumado a considerá-la como nulidade, como fora dos enredos da vida; por isso não teve dúvida em entregar-se aos delírios de sua alma em uma intermitência febril.
Recordava talvez alguma cena da infância ao lado de sua mãe, algum sonho da mocidade quando a vida lhe aparecia ainda sob o róseo véu da ilusão.
Ergueu-se, foi ao beliche e voltou com um rolo de papéis; correu a vista rapidamente em algumas das tiras escritas e elas lhe tremiam nas mãos como se estivessem sob o abalo de um terremoto. Deixou cair os papéis sobre uma bandeja que estava sobre a mesa e chegou-lhe um fósforo. A chama ateada tinha uma cor vermelha, e a Rainha do Ignoto não teve ânimo de contemplá-la, trancou-se no beliche.
A fingida Odete, que parecia adormecida, ergueu-se de manso e procurou abafar as chamas emborcando sobre elas uma bacia de rosto que tirou do lavatório no próximo camarote.
Conseguiu assim salvar algumas tiras meio queimadas.
Entrou também para o seu camarote, e ávido de novidades foi o Dr. Edmundo dizendo consigo:
— Achei a chave do enigma.
Enganava-se, ele só achou pensamentos destacados, alguns mesmos incompletos.
Leu na primeira folha:
«O diário da Funesta» — e julgou ter encontrado a história real da vida daquela mulher extraordinária, que se chamava a si mesma Funesta.
Mas como, se a sua história era tão ignota como seu próprio reino?
Alguém poderia ter dela um fragmento, um fato isolado; toda era impossível!
Só ela mesma poderia no íntimo de sua alma elaborar as páginas do sofrer que havia tragado no curso da existência.
O Dr. Edmundo para coordenar os fatos começou a leitura pela data mais antiga, eis o que dizia o diário.
Abril de 18**, quinta-feira 10 horas da noite.
Estou, em uma capital do norte do Brasil encravada no coração da floresta, longe de minha terra e dos meus.
A tarde esteve nublada e apesar do aspecto carregado do céu fui à matriz para ver a cerimônia do lava-pés, hoje Quinta-feira Santa.
Percorri com a vista as paredes caiadas de branco e o teto daquele vasto templo. Sombrio pela deficiência de luz e pela aglomeração de povo vestido de preto: ele me apertava o coração como em uma prensa de ferro!
De pé junto aos bancos, onde se sentavam senhoras de mantilhas, eu procurava ver o altar donde saía a voz do padre cantando em latim os trechos próprios do ato.
Aquilo não me parecia novo; mas havia no meu modo de apreciar alguma coisa nova, era a descrença!
Busquei em meu coração uns restos do sentimento religioso, que fora plantado em minha alma pelo doce ensino de uma mãe piedosa e não achei. Já havia s'evaporado aos raios da luz da ciência... demolida com a desventura!
Olhei para a cerimônia como para uma representação teatral. O som da matraca que um moço de coro fazia soar pelos corredores, chegava aos meus ouvidos como uma coisa burlesca!
Mas eu não tinha nos lábios o riso sardônico de ímpio, não, eu trazia espalhada no semblante a tristeza amarga e dolorosa do infortúnio.
O meu espírito recordava com uma terna saudade a poesia doce e melancólica de outras cerimônias religiosas que havia assistido em outro tempo, quando a fé me prendia ao céu e a ilusão me prendia à terra.
Ah! como minha alma s'embriagava com a emanação do incenso do altar dos católicos, donde me parecia jorrar uma torrente de graças concedidas aos fiéis?
Nessas considerações ajoelhei inconsciente, automaticamente, só para acompanhar o auditório e não chamar vistas curiosas sobre mim.
Mas abri aquele manual... aquele mesmo livro de orações tantas vezes lido em outro tempo, e não achei nele mais que simples caracteres a passarem-me pela vista sem se deter, sem mesmo atravessar os batentes da porta do pensamento!
Voltei para casa mais triste do que havia saído dela.
Uma chusma de recordações: azuis, brancas e cor de rosa acudiram-me ao espírito desanimado.
A fada mimosa da saudade com seus finos dedos foi arrancando o aparelho mórbido que a indiferença colocara na profunda chaga do meu pobre espírito. Senti vontade de chorar na solidão de meu quarto; mas a fonte de meus olhos está estancada, seca como o leito de um ribeiro, cujo solo estala e fende-se aos raios ardentes do sol do verão!
Veio-me o sono, o único abrigo de minha alma, o calmante que me alivia o peso da existência.
O Dr. Edmundo suspendeu a leitura e disse consigo:
— Já sei pelo menos que é descrente e também me parece que amou; mas a quem e onde?
Leu ainda outro papel meio enegrecido pela chama:
Exílio 13 de Junho de 18**
Este revólver... estas balas?
Que ideia, meu Deus!
Eu sou o náufrago perdido nas vagas do oceano! Estou exausta e não avisto ao longe nem uma barca de pescador! e não tarda a submersão!
Quem me salva?
Ninguém! murmura a voz soturna da solidão indefinida!
Meu coração guerreiro, ferido despenhou-se sobre os espinhos de um abismo de dor!
Que noite! que escuridão é esta?! Será a morte que me cerra os olhos?!
Aonde está minha mãe? Meu pai, meus irmãos?
Estarão todos na eternidade? Não.
E porque me deixaram só ao longo do caminho?
Lutei... quis vencer-me; mas saí vencida pela ideia do...
O que me resta? Marchar.
Para onde? De todos os lados da vida uma saraivada de balas, um atoleiro! um monte inacessível! e eu já não tenho forças.
Que noite! que escuridão é esta?!
Será a morte que me cerra os olhos?!
Este gelo! este frio serão seus lábios, serão seus dedos, ou minhas lágrimas que ninguém enxerga?!
Ai! são elas que me vão banhando com o relento desta noite eterna!
Onde a aurora?! Quem mudou o sol?! A lua?!
A lua já não segue a terra!
Tremem as rochas! Também vão cair! Ah! se pudessem sepultar consigo a dor sem nome que meu peito estorce...
Vou soltar a voz no espaço vazio desta treva...
O grito de meu desespero romperá a cerração medonha do egoísmo dessa humanidade desumana.
Nada, voltaram para mim os meus soluços... o meu clamor não foi ouvido!
Vou carregar...
O resto do diário estava queimado.
O Dr. Edmundo exclamou confuso:
— É um verdadeiro delírio! Já não entendo... parece que ia suicidar-se; mas em que circunstâncias? Porque o não fez? Vejo que é impossível coordenar um juízo sobre esta Esfinge!
E também influenciado pela tristeza do mar, lembrou-se da Passagem das Pedras, dos belos dias em que lá, tinha gozado de tanto sossego na convivência do Sr. Martins, de D. Raquel e de Carlotinha.
Pela primeira vez depois de três anos de ausência veio-lhe à mente o semblante angélico da moça, seus olhos azuis, tão serenos como a face tranquila de um lago.
Sentiu desejos de torná-la a ver e prometeu a si mesmo voltar à paz d'aldeia, tornada agora de seus pensamentos.