Capítulo LXIX - A Morte da Rainha do Ignoto A Rainha do Ignoto · Capítulo 69 de 70
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Capítulo LXIX - A Morte da Rainha do Ignoto

LXIX - A Morte da Rainha do Ignoto

A Rainha do Ignoto, de volta de sua romaria à casa paterna e ao túmulo de seu pai, permaneceu cada vez mais abatida. Os grandes esforços gastaram-lhe a vida, assim como as vagas à dura pedra do rochedo.

Ela, completamente isolada em seu gabinete de leitura, passava parte do dia sem falar com pessoa alguma. Estava redigindo o seu testamento e escrevendo um lembrete de tudo quanto desejava que as suas paladinas cumprissem depois de sua morte, com relação aos pobres e aos infelizes que protegia e quase amava, se o amor pudesse abstrair-se do centro de seu coração por esses raios divergentes.

Era ao meio-dia, quando terminou ela as suas disposições. Valendo-se do invisível que sempre a protegeu das vistas dos curiosos, dirigiu-se ao rochedo mais alto e mais escarpado da Ilha do Nevoeiro.

Ali, protegida dos raios do sol, oculta pelo rendilhado de uma parasita que se estendia do alto para o plano inferior, tirou do bolso um cartão em tela de ouro e, com um alfinete do mesmo metal, que ela introduzia numa das veias do antebraço, ia escrevendo, inclinada para a pedra do rochedo.

Se este pudesse ler, teria lido o seguinte:

Amaria!... Amaria mais do que Virgínia, a pobre órfã que descansa sob a laje de uma sepultura. Amaria!... Amaria mais que Odete, a infeliz condenada a um silêncio forçado. Amaria mais que a mãe ao filho que se afoga, mais que o louco ao seu tesouro imaginário, mais do que a condenada ama a vida, mas não uns olhos lindos, uns cabelos, uns lábios, um todo elegante. Amaria a transparência divina de uma alma delicada e terna, amaria o caráter, a consciência pura de um espírito esclarecido, embora pela luz natural da inteligência.

Depois ficou absorta; seus olhos, que deixavam ainda ver o poder dos seus primeiros encantos, tinham uma expressão meiga e triste. Em seus lábios pairava um sorriso amargo e em seu semblante espalhava-se a resignação do mártir.

Com menos agitação que da primeira vez, tirou de um pequeno estojo de veludo carmesim uma navalha de cabo de ouro com cravação de diamantes e abriu o corpete do vestido, cortou a pele sobre o coração. E entre esta e a víscera palpitante de seu peito, colocou o pedaço de cartão, o atestado de sua fraqueza, da fraqueza nativa de todas as mulheres do mundo, embora assinaladas pelo gênio ou pela religião dos claustros.

Depois ela tirou de um frasquinho de ouro um líquido com que estancou o sangue que corria sobre a pele de carneiro que ela tinha estendida ao colo.

Não haveria estoico com mais coragem. Tão sensível às dores morais, parecia não sentir a violência daquela dor física.

E foram as pedras do rochedo as únicas confidentes da sua vida. Nunca tivera outras, além das flores da campina, do espelho dos lagos, do vai-vem das ondas e do cintilar das estrelas. Ainda assim fugiu dali receosa, ao canto de um rouxinol.

O sol ia declinando, e já metade dele desaparecia por trás de um monte. Veio o crepúsculo. A brisa da tarde espalhava no ar o perfume das rosas e dos bogaris. Mas não foi no jardim que a Rainha do Ignoto desejou dizer o seu adeus à Terra; foi no centro de seu predileto laranjal.

Ali, em uma rede de mimosas trepadeiras, tinha por dossel flores nevadas e frutos dourados. Rodearam-na de tudo quanto ela tinha gostado durante a vida: flores, livros, instrumentos de música, pinturas e bordados.

Em frente da enferma estavam as suas companheiras de trabalho pelo bem, todas vestidas de cor-de-rosa, com as frontes coroadas de jasmins sob um véu nevado. Os últimos raios do sol poente, dando em cheio no rosto de cada uma daquelas moças, na fantasia do seu trajo, davam-lhes uns tons róseos e dourados que faziam a ilusão de o observador julgar-se no país das fadas, num reino encantado.

Elas não choravam. Estavam silenciosas, esperando a voz de sua diretora. E ela falou, muito comovida:

— Companheiras, ouvi-me e condenai-me se eu merecer. Vós que vistes em mim a coragem, a resignação, o modelo de outras virtudes que só vós possuís, ides ficar pasmadas quando souberdes que a Rainha do Ignoto era a mais fraca e mais infeliz de vós todas! Ah! quantas vezes vos animava a viver alegres e dedicadas ao Bem, trabalhando para uma indústria, uma arte, ou uma ciência, e tinha o espírito atormentado pelo tédio da vida, o coração despedaçado por uma desolação sem nome!

— E chamais a isso fraqueza, senhora? É o que fazem os heróis, respondeu Clara Benício.

— Sim, tornou ela, eu passei impávida por entre as multidões que me chamavam a estátua; mas por trás da máscara de gelo que cobria o meu semblante, nunca deixei de combater no campo escuro do sentimento e nunca venci a mim mesma. Nunca fui verdadeira asceta. O meu coração ferido por um golpe mortal, apenas salvo e não cicatrizado, tornava a entrar para o campo do sentimentalismo, e eu desejava esmagá-lo para o não ver tão louco. Quanto fel bebeu! Quanta cicuta! Nos dias da infância dilatava-se pelo espaço da Terra e do Céu para abranger as cenas da natureza, e lhe parecia ver uma alma doce e sensível em cada onda, em cada flor, em cada estrela e até em cada pedra que a tempestade faz rolar do cimo de um rochedo para o fundo de um abismo.

A Rainha do Ignoto calou-se um pouco e continuou mais triste e mais comovedora:

— Pobre coração! Foste leal, sincero e puro; enxugaste tantas lágrimas, e ninguém viu o pranto amargo em teu deserto. Semeaste tantos benefícios e foram eles como uma sementeira maldita, onde caíram e germinaram cardos. Amaste e teu amor, cada vez que se erguia de teu íntimo, era para te levantar uma forca e te estrangular de dor! Teus sonhos remontaram às nuvens, tomaram as transparências luminosas do sol. Mas evaporaram-se e, como rolos negros de fumo, subiam para o ar deixando após si a caveira descarnada do esquecimento de tuas ilusões.

Um soluço amargo lhe irrompeu do peito, mas passados alguns minutos ergueu a fronte e apontou a lua, que vinha aparecendo sobre a ramada do laranjal. E disse:

— Também me foi ingrata. Noites e noites fitei embevecida a sua face, pendi a fronte cismadora, contei-lhe as minhas mágoas, carpi saudades, e ela, que me ouvia compassiva outrora, diz-me hoje: "Este luar não é para tua tristeza; ele ilumina a felicidade de outros seres que zombam de tuas dores, que não te compreendem nem te conhecem."

Calou-se, depois de ter pedido a harpa, aquela mesma que o Dr. Edmundo tinha ouvido tocar em um batel nas águas do Jaguaribe. Desde aquela bela noite em que encantara ao viajante, nunca mais havia tocado nela.

Tirou da harpa uns sons fracos e começou a cantar com voz ainda mais fraca a balada da ópera de Verdi, La forza del destino. As notas da música e do canto iam morrendo com o esmaecer da tarde.

Fechou-se a noite, fez-se o silêncio: era a vida da Rainha do Ignoto que se apagava como a de uma vela consumida pelo vento.

O seu rosto apareceu como era na realidade, e um grito soou de cada lado:

— Diana!

— Blandina Malta!

— Zuleica Neves!

— Zélia!

Mas nenhuma das Paladinas do Nevoeiro pronunciou o verdadeiro nome da Rainha do Ignoto; elas só conheciam os benefícios que com ela haviam praticado. A história de sua vida era semelhante às hipóteses feitas sobre os habitantes de outro planeta. O que se disse dela foram meras conjecturas fundadas em observações longínquas, em falsas aparências.

E ali estava, morta diante da esplêndida natureza que lhe tinha ocupado o deserto do coração, que lhe tinha fornecido o grandioso do espírito.

Morreu pranteada pelo desaparecer do sol, pelo despontar da lua, pelo orvalho da noite e pelo perfume das flores de laranjeira, que caíam sobre o seu corpo como uma chuva de bênçãos.

Naquele trono de verdura foi conduzida para a pira onde ardiam as plantas mais odoríferas do jardim. Seguiu-a a procissão das Paladinas do Nevoeiro vestidas de cor-de-rosa, coroadas de jasmins, sob longos véus.

O corpo foi posto na chama vivíssima da fogueira que o consumiu em poucas horas. As cinzas foram recolhidas em um vaso de ouro e, enquanto os instrumentos da orquestra de Angelina Dulce choravam, tocando à surdina a música mais triste que já se ouviu na Terra, as Paladinas do Nevoeiro tomavam punhados das cinzas da Rainha do Ignoto e os espalhavam no ar.

Correu o vento frio da madrugada e o pó da que foi funesta somente a si mesma entrou na corrente da vida universal.

Depois, o galo cantou e o relógio do palácio do Ignoto bateu lentamente doze badaladas: meia-noite.

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