Capítulo LIII - O Capitão Matury Embaiado
Capítulo LIII - O Capitão Matury Embaiado
O capitão Matury, senhor do engenho "Misericórdia", era um homemzinho, magro, de fala fina e fanhosa.
Levantou-se às seis horas da manhã e foi à casa do engenho; ali encontrou-se intencionalmente o seu olhar matreiro com o olhar zarolho e estúpido do feitor, um gigante de pulsos de ferro, que trazia sempre nos lábios finos e antipáticos um riso cruel.
— Como vai isso, Mourão? perguntou o senhor do engenho.
— Tal qual na semana passada, o pior é que desde ontem não vejo o feiticeiro velho; creio que fugiu!
— O Anastácio? gritou o capitão Matury com voz aflautada, isto não pode ser! Ele está por aí mesmo; aqueles pés bichentos já não podem fazer viagem!
— Estes diabos, seu capitão, são muito manhosos, não se fie neles.
— E o Gabriel? Aonde está o Gabriel? perguntou Matury inquieto.
— Deve estar trabalhando lá para o alambique na destilação da cachaça, respondeu Mourão meio atrapalhado, às cinco horas disse-me que ia botar água em casa a mandado da snr. d. Vicência, porque o João Caxangá que é desse serviço está doente do castigo que recebeu ontem.
— Pois todo o cuidado com o tal letrado, pregador de rebeldia à canalha dos parceiros, disse Matury, já ficou quase justo com um negociante de escravos, e vai hoje à tarde para o Recife. Estou doido por tirar a onça do pasto.
Naquele instante aproximou-se dele uma mulatinha, e disse:
— Inhô, a Inhá Vicência mandou chamar.
— Já vou, disse Matury olhando para o feitor, cuidado e mais cuidado com o Gabriel! Olhe também a Rufina; ele pode carregá-la.
— Vá descansado, capitão, já estou muito velho no ofício, disse o feitor mostrando as presas de lobo.
O capitão Matury entrou em casa na sala de visitas, onde estava reunida a família.
Um desconhecido estava sentado em uma cadeira ao pé do sofá, e tinha deitado a seus pés um enorme Terra-Nova, negro como azeviche.
— Salino, disse Vicência Matury antes que o marido perguntasse quem era a estranha visita, este senhor é diretor de circo de cavalinhos: traz muitos animais: um elefante, um urso, um orangotango, e vem pedir-te licença para armar o circo aqui no engenho, diz ele, que podemos assistir a todas as representações grátis. Traz também uma hipnotisadora célebre, tenho muita vontade de ver hipnotisar.
— Que carretilha, mulher! disse Matury entrezangado e satisfeito; veremos isto.
— Deixe, papai, deixe armar o circo no engenho; nós queremos ver os cavalinhos! gritavam os meninos: um a puxar-lhe pela bengala, outro pelo paletó e o menor trepando-lhe pelos joelhos gritava por todos com voz de choro:
— O elefante, papai, quero ver o elefante!
— Sossegue pequeno, disse Matury, você há de ver o elefante, calem-se todos e deixem-me falar aqui com o senhor.
Os meninos calaram-se, e o capitão Matury dirigiu-se ao desconhecido:
— Como é a sua graça, senhor?
— Chamo-me Duarte Trabuco, um seu criado.
— Criado seja o senhor de sua majestade; mas senhor Trabuco, porque não foi armar o seu circo na vila? Lá teria muito mais concorrência do que aqui n'um engenho, onde só há meia dúzia de casas.
— Vou dizer a V. S. o motivo porque não quis demorar-me na vila. Embirro de veras com ciganos, e lá andavam eles, abaixo e acima, sacudindo sobre os ombros as cabeleiras crespas, e tirando fogo das pedras com as ferraduras de seus cavalos gordos. São uns diabos velhacos, uns ladrões!
— Pois bem senhor Trabuco, arme seu circo ali no pátio, tem espaço suficiente.
— Já calculei o local mais conveniente, disse Duarte Trabuco, sábado poderemos ter espetáculo.
E levantou-se apertou a mão do capitão Matury, fez festa aos meninos, cortejou d. Vicência, e retirou-se.
Apenas saiu o diretor de circo, entrou o capitão dos ciganos fazendo soar os guisozinhos de suas grandes esporas de prata e dizendo:
— Viva o negócio ganjão!
— Que negócio? Quem é o senhor? perguntou Matury, que vem fazer?
— Não venho incomodá-lo, sou o capitão Fortunato, venho tratar d'um negócio.
— Com a breca! diga que negócio é este.
— Soube, ganjão, que queria vender um negro muito safado, se quiser trocar por uma negra, volto a quantia que me pedir.
— O negócio é fino! capitão Fortunato, só vendo o negro para embarcar; não o quero aqui na vizinhança.
— Há de embarcar d'aqui a três dias; nossa vida é correr mundo, disse o capitão dos ciganos.
— E que idade tem a negra do senhor?
— Setenta anos.
— Não serve mais para nada! está caduca!
— Ora, ganjão, ela faz mais do que trabalhar: sabe muitas coisas úteis, tem o segredo de ser feliz e de ganhar dinheiro. Depois voltarei ao ganjão um conto, dous, quanto me pedir.
— Mas, que empenho é este de possuir o negro?
— Porque o capitão Fortunato é homem que não aguenta desaforo de ninguém, hoje muito cedinho encontrei o preto... não é preto, é mulato, e ele me disse uma malcriação. Jurei ensiná-lo a ser humilde, e nada me demove do meu propósito.
— Com certeza o mulato é o Gabriel. Desejo ver a preta velha, depois fecharemos o negócio, disse o capitão Matury.
O cigano retirou-se prometendo voltar logo, e efetivamente não demorou, tornou a entrar seguido pela preta velha, cuja figura fantástica impressionou aos circunstantes: era alta e magra como uma mégéra! tinha uma enorme cabeleira branca como pasta de algodão e carapinhada.
Ela vestia extravagantemente uma saia de ganga encarnada, e trazia traçado um chale amarelo, calçava alpargatas.
O ar místico da preta velha amedrontou as crianças.
— Como se chama? perguntou Matury?
— Suzana, respondeu Fortunato, e puxando a bolsa abriu-a sobre mesa onde se espalharam algumas moedas de ouro.
O capitão Matury mandou chamar Gabriel.
O cigano apertou entre os dedos o lábio superior do mulato, que deixou à mostra uma fila de dentes brancos e fortes, depois fê-lo correr no pátio da casa, e disse:
— Ganjão, dou-lhe por este mulato a preta Suzana e volto-lhe ainda dois contos de réis.
O capitão Matury exultou de contentamento, o negócio era vantajoso, tinha justo Gabriel no Recife por um conto e duzentos, tendo dois, ganhava oitocentos, e ainda lhe ficava a negra velha que poderia servir para criar os moleques e curar os negros doentes. Fechou o negócio, passou a escritura de venda e ficou satisfeito vendo o capitão dos ciganos levar Gabriel com modos severos e rudes.
Mas com que cara ficaria ele se pudesse adivinhar que tinha sido embaiado, que Suzana nem era preta velha e nem era cigana, era uma das mais audaciosas paladinas, a inteligente e arrojada Camila Franco.