Capítulo LVI - O Assalto dos Cajueiros
Capítulo LVI - O Assalto dos Cajueiros
Era uma hora da tarde. O movimento da rua do Ouvidor começava a crescer como o do banzeiro nas águas do Amazonas.
Ouvia-se aqui um rodar de carros e de carroças, ali um bater de campainhas, de todos os lados um farfalhar de sedas d'envolto com a escala de toadas dos vendedores de doces e de jornais.
Da loja do Ranier saiu um dandy trajando jaqueta inglesa e calças bojudas; trescalava a opoponax e pisava de leve com as botinas reluzentes e bicudas.
Dirigiu-se ao ponto dos bonds de Botafogo, e ali parou n'uma esquina para falar com um homem de idade avançada, rosto cor de cobre, com manchas vermelhas, barba inteira e olhos raiados de sangue.
— Como vai o negócio? perguntou-lhe o dandy.
— Bem, respondeu o homem de olhos raiados de sangue, sabe o negócio qual é?
— Sei.
— É dos nossos?
— Sou.
— Entretanto não o conheço!
— Tem razão, entrei para a sociedade esta noite passada, depois d'uma parada de lasquenet em que perdi dous contos de réis, que foram ganhos pelo comendador Maçaranduba, o João Sagaz, disse o moço quase ao ouvido do outro.
— Diga-me por favor a senha do dia, disse o homem dos olhos vermelhos com uma certa desconfiança.
— Nove-lune, disse.
— De fato, temos hoje lua nova, portanto à meia-noite, escuridão completa, volveu com um riso significativo.
— Vai para Botafogo arranjar outro negócio? perguntou o dandy.
— Vou matar o tempo observando no bond os comendadores, os viscondes e os barões do mundo elegante. Se fosse, o senhor, um sócio antigo já conheceria o meu desinteresse: um copo de aguardente, um maço de cigarros, tinta, papel e penas são o bastante para minha vida, disse e correu a tomar o bond.
O dandy retrogradou um pouco e entrou na loja de M. Lambert.
Estava ali um viveiro das avezinhas douradas e multicores que os homens chamam de belo sexo.
Elas falavam da abertura do cassino, do baile dos deputados, da companhia lírica e dos últimos figurinos.
O moço de jaqueta inglesa, calças bojudas aproximou-se d'uma senhora vestida de preto, que parecia escolher um chapéu, e disse-lhe em voz baixa:
— Preciso falar-lhe, quero um lugar no tilbury.
— Vamos, disse a senhora de preto.
E partiram ambos no tilbury que a muito custo venceu os embaraços da tumultuosa rua do Ouvidor.
Apearam-se em frente d'um sobrado com janelas de peitoril, na rua do Livramento.
Enfiaram por um corredor, e depois de fechada a porta da sala sentaram-se ao pé d'uma mesa redonda:
— Camila Franco, disse a senhora de preto, trazes-me alguma novidade?
— Um bom serviço para esta noite, respondeu ela, precisamos salvar uma família das unhas dos gatunos.
— Para onde fica a casa ameaçada?
— Lá para o Rio Comprido, é um negociante português que foi ontem festejar nela os anos da mulher; mas foi tal a profusão de joias que as senhoras da família ostentaram na festa que atraiu a vista dos gatunos; pois já planejaram uma sortida para meia-noite.
— Já tem o roteiro? perguntou a Rainha do Ignoto, pois era ela a senhora de preto, que falava com Camila Franco transformada em dandy.
— Estou de posse de todo o segredo deles.
A Rainha do Ignoto tornou a tomar o tilbury e desapareceu na primeira esquina.
Pela noite o céu negro e estrelado parecia espreitar a má aparência de um bando de homens que traziam o rosto coberto com um lenço, tendo dous buracos no lugar dos olhos.
Vinham bem armados, e se esgueiravam pelos troncos das árvores do pátio d'uma chácara isolada, só tendo uma casinha a trinta passos.
A espécie de cautela, com que esses homens se aproximavam da chácara, desapareceu desde que uma janela da cozinha da mesma se abriu e um vulto chegou a ela agitando um lenço branco na ponta d'uma vara.
— É a Joana, disse um dos homens, que está nos fazendo o sinal convencionado, ela desempenhou bem o seu papel de criada.
Ajuntaram-se todos e foram saltando para dentro da cozinha. Depois foram se introduzindo sorrateiramente por toda a casa, cujos habitantes dormiam a bom dormir.
Havia luz em todos os quartos e até na sala de jantar.
Os ladrões com a maior habilidade arrombaram, sem fazer rumor, as gavetas das cômodas, dos tocadores e guarda-vestidos, arrecadaram todas as joias e valores ali existentes e foram reunir-se na sala de jantar.
Tiraram dos aparadores e guarda-louça os restos da festa: presunto, peru assado, peixes, frutas, queijo, doces e algumas garrafas de vinho; depois começaram a se banquetear fazendo saúdes aos roubados.
O sono dos habitantes da chácara era tão pesado que não lhes deixava dúvida de que a boa da Joana tinha posto no chá o narcótico recomendado.
Mas do meio da vozeria se elevou um grito:
— A polícia!
Foi tarde o aviso, a mesa do banquete dos tratantes estava cercada de soldados.
Os bandidos ergueram-se sobressaltados e empunharam os punhais e navalhas.
Os soldados fizeram o mesmo com as carabinas; mas se conservaram nos postos e o cabo disse:
— Rendam-se!
— Deixem-nos passar, gritaram avançando com os punhais.
— Alto lá, bandidos! Estão presos, fiquem quietos... ou fazemos fogo!
No meio da confusão de passos no soalho, entre o retinir das armas ouviu-se gritar:
— Quanto barulho! Meu Deus! o que é?!
E apareceu à porta do corredor um grupo de mulheres em traje de dormir, traziam os olhos espantados e tremiam todas agarradas umas às outras.
— Mamãe! Mamãe!
— Cala-te d'aí Malvina!
— Santo Deus! Vamos-nos embora Henriqueta, pode nos alcançar uma bala!
Ouviu-se a primeira detonação.
— Acudam os meninos de Alice que acordaram chorando! disse a mais velha das mulheres, tremendo de medo.
— O pior, mamãe, é que não posso acordar Gustavo! Está com um sono de ferro!
— E Eduardo também, parece que está morto! respondeu Malvina.
— Aí vem o Domingos, disse Henriqueta.
E tomou a frente um português baixo, gordo e de barba loura, cabelo à escovinha.
— Que diabo é isto? Soldados aqui também?! Por onde entraram?!
— Pela janela da cozinha, sr. Domingos, respondeu Joana, foram os ladrões que arrombaram...
No mesmo instante Joana precipitou-se para o corredor empelindo o grupo de mulheres que corria na frente gritando:
— Jesus! Os ladrões são capoeiros!
Na sala a confusão e o barulho de vozes e de armas eram horríveis!
Um gatuno conseguiu apagar a luz, outro abriu uma porta e fugiram saltando por cima das cabeças dos soldados.
Domingos riscou um fósforo e tornou a acender o gás.
O chefe dos bandidos lutava ainda com os soldados procurando evadir-se estava furioso, não se rendia apesar da desigualdade de forças.
Ouviu-se uma voz do lado de fora da porta:
— Dá licença vizinha?
Apresentou-se na sala a mesma senhora de preto que vimos sair da loja Lambert e encaminhar-se de tilbury para rua do Livramento.
O chefe dos bandidos apenas relanceou a vista no rosto da desconhecida, cambaleou como tomado d'uma súbita vertigem, agarrou-se ao canto da mesa de jantar e curvando a cabeça disse:
— Prendam-me, mas concedam-me uma graça, quero fazer uma declaração.
— Guarde isso para a chefatura de polícia, acudiu o cabo da tropa pegando-lhe no braço e tomando uma corda das mãos d'um soldado.
— Quero ouvir a declaração deste infeliz, disse a senhora de preto, e não quero que vá manietado.
Os soldados fizeram coro n'uma gargalhada geral.
Mas a senhora de preto não se desconcertou, adiantou-se para o soldado que lhe entregou a corda, tomado d'um tremor nervoso. Os outros empalideceram de repente.
Então a Rainha do Ignoto, pois não era outra, disse ao chefe dos bandidos:
— Fale.
O dono da casa, ou o português Domingos genros de D. Mathilde, com todas as pessoas da família se aproximaram para ouvir a confissão do preso.