Capítulo XXVII - É Assim Que S'esvai Uma Ilusão
XXVII - É Assim Que S'esvai Uma Ilusão
Antes de sabermos o que viu o Dr. Edmundo no Ignoto, voltemos à povoação da Passagem das Pedras, e lancemos uma vista sobre os nossos conhecidos; saberemos também o que se disse de seu brusco desaparecimento:
Três dias depois em casa do Sr. Martins, que havia voltado precipitadamente da fazenda do Poço do Capim, reuniu-se algumas famílias, e pela consternação do semblante, palavras a meia voz, conselhos separados, via-se que ali se passava alguma coisa fora do comum.
Como de fato, Carlotinha adoecera, Ana Rosa que tinha vindo também, disse:
- Venha ver, minha madrinha, como ela tresvaria!
- Não tenho ânimo! exclamou a mãe encostando o rosto ao portal do quarto. ai! minha filha! minha Carlotinha que morre! e disparou a chorar.
As mulheres cercaram-na, e fizeram com que se afastasse dali procurando consolar aquele coração de mãe prestes a ser ferido.
- Já veio o médico? perguntava impaciente.
- Já está receitando, disse D. Paulina.
- O que disse ele? Como achou minha filha?
- Ele não disse nada, sentou-se ao pé da cama, tomou-lhe o pulso, viu a língua e perguntou se doía a cabeça, o corpo, e ela respondeu que a cabeça doía porque estava cheia de pedras do Areré. O médico abanou a cabeça, saiu para a sala, esteve falando com o Sr. Martins, e depois receitou.
- Não vieram ainda os remédios? tornou D. Raquel a perguntar.
- Não há tempo, responderam, foram buscar no Aracati, e duas léguas custam a andar.
O Sr. Martins passeava no corredor, a passos largos, com as mãos nos bolsos, resmungando contra tudo.
D. Sofia apareceu na porta do quarto da doente, tendo marcadas entre os dedos as folhas dum livro de orações.
- Como o médico achou a Carlotinha, Sr. Martins?
- Muito mal! D. Sofia, disse que a febre atacou muito ao cérebro; mas se ela suasse com os remédios que mandei vir, e dormisse com a primeira dose de morfina, que melhorava, e seria salva.
Com efeito ela tomou os remédios, suou e adormeceu. Deixemo-la embalada em seu sono pelo si-si das rezas de D. Paulina e D. Sofia e vamos tomar conhecimento com a causa da enfermidade:
No dia seguinte àquele em que ela esteve com as filhas de D. Matilde em casa de Ana Rosa, a triste menina estava encostada a um tronco defronte do umbral, entretida em ver os pombos, uns brancos, outros cinzentos entrarem para sua casinha de madeira com diversos andares.
A tarde estava calma. Ela apanhou um malmequer e começou a desfolhá-lo com superstição, queria ler o seu destino nas folhinhas ou pétalas amarelas da flor silvestre, e dizia em uma bem-mequer, na outra malmequer até a última que deu em mal, segundo a experiência não era nula.
Olhou para elas espalhadas no chão e ficou pensando.
Naquele momento aproximou-se Teresa, entregou-lhe uma carta e disse:
- Veio outra para o sítio.
- Quem trouxe? perguntou Carlotinha.
- Foi seu Eduardo Gama, disse a moça, ele está ali com seu Boião do Poço, eu vi conversarem umas coisas que fiquei me benzendo... quem o havia de pensar... um moço tão bonito!
- Mas o que foi que disseram?
- Sei lá, senhorinha, estavam dizendo que seu Dr. Edmundo ficou doido: fugiu de noite para amanhecer hoje e ainda não se achou. O velho diz que é mentira; porque na carta que recebeu vem uma despedida; seu Boião do Poço diz que é verdade, porque houve quem encontrasse à meia noite um sujeito com um selim na cabeça, e como ele sempre gostava de andar a cavalo, etc. etc.
- O Boião sempre há de dizer asneiras... que disparate! Vai Teresa, ouvir mais o que se diz na sala, põe-te atrás da porta do corredor.
- E a senhorinha não vai falar com os moços?
- Não, se minha mãe me procurar diz que estou com dor de cabeça, que não posso ir.
- E a senhorinha está mesmo? perguntou Teresa assustada, quer eu vou fazer um chá.
- Não quero nada, vai.
Teresa saiu e Carlotinha tirou do bolso do vestido a carta que tinha recebido:
- Será dele? pensava ela, sem reparar para a letra do sobrescrito, pois tinha naquela hora a vista turva; rasgou o envelope, e olhou apressadamente para a assinatura, empalideceu, era de Henriqueta.
Atirou com ela para longe e depois foi buscá-la e leu:
«Minha querida Carlotinha.
O portador desta é Eduardo Gama, que vai da parte de mamãe convidar teu pai com a família para assistir no sábado vindouro o meu casamento e o de Malvina; te fiz esta cartinha para que não faltes, e também para dizer-te quem era o tal doutorzinho que estava aqui a enganar a todos com cara de santo:
Dizem por toda a parte que ele enlouqueceu e fugiu, que já estava maluco há muitos meses, desde que aqui chegou; mas a verdade é outra: houve quem o visse às dez horas da noite sair da mata com o caçador de onças e uma mulher, e se dirigirem todos três para o lado do Areré. Sabes quem é o caçador de onças? Um salteador disfarçado, ele provavelmente foi fazer parte da quadrilha.
Olha, não faltes à festa que há de ser pomposa. Aceita muitos beijos e abraços de tua amiga do
coração
Henriqueta.»
Carlotinha viu anoitecer de repente! fraquejaram-se-lhe as pernas e faltou-lhe o chão, amparou-se ao tronco da cajazeira e deixou passar a vertigem que lhe punha o mundo à roda.
Depois sentiu vontade de chorar, mas um entalo na garganta parecia impedir que as lágrimas passassem para os olhos.
Não raciocinou sobre o que se dizia do Dr. Edmundo, sua alma concentrou-se na ideia de ver o mundo de seus sonhos desmoronado, num instante a doce ilusão d'aurora de sua vida feita um montão de cinzas!
Atirou-se a passear entre as árvores com passos desiguais e apressados, parando de repente, seguindo agitada, umas vezes lentamente, sem consciência do que fazia, só com a alma dominada por uma ideia que lhe repetia incessante: acabou.
Então viu o rebanho das ovelhas brancas que vinham chegando à porta do redil, abraçou pelo pescoço seu cordeiro predileto e chorou num soluço amargo como o desengano que é o fel da vida.
Aproximou-se o pastor e ela recolheu-se à casa, estava com febre.
É assim que s'esvai uma ilusão: