Capítulo XVIII - O Túmulo Inesperado
XVIII - O Túmulo Inesperado
Sete dias depois do passamento de Virgínia, D. Matilde, exata cumpridora dos deveres convencionais da sociedade elegante, mandou celebrar a missa usual da visita de cova, e depois dela seguiu com toda solenidade para o cemitério.
Carlotinha não pôde acompanhá-las porque tinha de tratar dos arranjos da partida naquele mesmo dia para a fazenda do Poço do Capim, aonde iam passar o mês de junho, e por isso pediu-lhes mil desculpas.
Henriqueta muito vaidosa da perfeição do seu vestido de luto, seguiu na frente do grupo conversando com o Dr. Edmundo sem procurar conter a vivacidade das palavras que lhe sobravam em tão imprópria oportunidade.
Chegados ao cemitério em vão procuraram a sepultura de Virgínia.
Lá não havia lugar algum, aonde a terra estivesse revolvida de fresco.
O Dr. Edmundo afirmava que a moça tinha sido sepultada ao pé duma viuvinha, arbusto de flores roxas, assim chamado pelo povo.
- Não pode ser, observou o Dr. Gustavo, pois vejo, no lugar para onde você aponta, um túmulo em forma de pirâmide com um anjo de guarda.
- Que diz você? Será possível que eu tivesse me enganado? exclamou Edmundo; mas, com efeito, ali está, vamos ver.
Acercaram-se do túmulo, e ficaram todos surpreendidos à vista da seguinte inscrição:
Aqui no seio da terra descansa esquecido o belo corpo de Virgínia, flor ceifada ao despontar d'aurora pela tempestade.
O orvalho do céu, o pranto da manhã caia em gotas cristalinas sobre a campa da pobre órfã.
As borboletas da campina adejem sobre os olhos amortecidos do anjo da Caridade que guarda este túmulo.
As avezinhas do bosque ao cair da tarde cantem seus amores no silêncio desta morada de paz.
Ó raios da lua venham banhar de saudade a fria pedra do eterno jazigo nas horas mortas da noite.
Olharam todos uns para os outros sem achar explicação para o caso.
Alice rompeu o silêncio, e disse com o semblante consternado:
- São tais as coisas que tenho visto nestes últimos dias que temo enlouquecer!
- Realmente é extraordinário! disse o Dr. Edmundo, quem mandaria fazer este túmulo com tanta prontidão?! Estas peças de mármore tão bem trabalhadas donde vieram?!
- O meu conselho, disse o Dr. Gustavo, é que guardem muito segredo sobre o caso, que a meu ver não tem nada de sobrenatural; mas que, para essa gente que nos rodeia, deve ser um milagre, como o primeiro embuste, e serão capazes de tornar este túmulo um ponto de romarias.
- E quem pode afirmar que o primeiro foi um embuste? volveu o Dr. Edmundo; não temos direito de ofender com suposições malévolas à pessoa que pretendeu obsequiar Virgínia nos últimos instantes de sua vida, e ainda presta-lhe esta homenagem depois de morta.
- Ora essa, senhor Edmundo, acudiu Malvina, porque se oculta? Que necessidade tem deste mistério?
- Singularidades, fantasias d'algum espírito romântico, tornou ele.
- Também foi romantismo a afronta que nos fizeram no dia de nossos anos, disse Alice despeitada.
- Já conheci, mana, que o Dr. Edmundo tem muita predileção pelas singularidades, pelas fantasias d'algum espírito romântico, disse Henriqueta intencionalmente, é por isso que dirige os seus passeios para os pontos que se ressentem desta magia.
- Sei a que V. Ex.ª se refere, disse ele; mas estou curioso, vou fazer algumas perguntas ao zelador do cemitério, ali vem ele.
O Dr. Edmundo chamou o zelador do cemitério e indagou em presença das senhoras, sobre o túmulo.
O bom homem, que não conhecia pessoalmente a família de D. Matilde, disse que durante aqueles sete dias trabalharam no túmulo com muita atividade uns artistas estrangeiros que não sabiam falar a nossa língua; mas que provavelmente foram encarregados do trabalho pela família da morta que era rica.
Alice estava impaciente, tanto puxou pela manga da sobrecasaca do marido, que este deu ordem de marcha, e todos saíram de boa vontade da triste morada dos que já não são com os vivos.
Lá fora o Dr. Edmundo procurou novamente assuntos para fazer esquecer as impressões daquela manhã; mas foi debalde; a própria Henriqueta, sempre tão gárrula, estava preocupada, e perguntou de repente:
- Acredita em milagres, Dr.?
- Quando o sobrenatural me convencer, respondeu ele, até agora os fatos observados são explicáveis.
- E porque não m'os explica?
- Porque não conheço a pessoa que está dirigindo este jogo, e nem posso ajuizar sobre as suas intenções.
- Mas, Dr., disse D. Matilde, aquele pombo não podia ser como um molequinho que se manda deixar um presente em casa conhecida, como é que ele acertou com a minha janela.
- Quem sabe se não foi atirado? Depois se a senhora conhecesse o método que se emprega na Turquia para educar esses pássaros não duvidaria que aquele cumprisse tão bem a mensagem.
- Mas isto é lá, doutor, aqui não temos destes pássaros, observou Malvina.
- Quem nos pode provar que a pessoa que possui aquele pombo-correio não o trouxe da Turquia, e quem sabe se não se dedica ao ensino deles?
- Não admito, volveu Henriqueta, ainda não ouvi falar nisto, que seria motivo bastante para estes imbecis baterem com a língua nos dentes.
O Dr. Edmundo lembrou-se dos singulares habitantes da cabana do caçador de onças, lembrou-se da que chamavam Funesta; mas, calou-se, e como se aproximava de casa despediu-se, e entrou.