Capítulo XLVI - As Almas dos Soldados
Capítulo XLVI - As Almas dos Soldados
Uma manhã, três dias depois da chegada das Paladinas do Nevoeiro a Manaus, Clara Benício recebeu da Rainha do Ignoto o seguinte bilhete:
«Diga à Ignez Racey que reúna doze paladinas de mais confiança e de mais coragem, e venha com elas ter comigo na praça da Saudade ao pé do porto do cemitério, à meia-noite.»
Probo, portador do bilhete e encarregado de trazer de bordo King o Fiel, lá pelas dez horas da noite, avisou o Dr. Edmundo, e convidou-o a espreitar a excursão noturna.
Armaram-se e foram esconder-se no cemitério por trás duma catacumba junto ao portão.
Deu meia-noite, e eles ouviram a chave girar na fechadura e o portão rangendo nos gonzos abrir-se de repente.
Então viram passar as Paladinas do Nevoeiro tendo à sua frente a Rainha do Ignoto.
Vinha também Fiel e King, com uma mala às costas.
Elas sumiram-se por trás da capelinha das almas.
A lua pairava no céu azulado derramando uma luz pálida e saudosa sobre o mármore dos túmulos.
O silêncio da hora, a tristeza do lugar, o mistério dos vivos, casado ao mistério dos mortos traziam ao coração do Dr. Edmundo o frio do pavor!
Probo não se alterava, estava acostumado a tais empresas.
Minutos depois eles ouviram rumor de vozes fora do muro, diziam:
— Que capricho do Sr. comandante! Quem já viu enterrar a esta hora!
— Nem um assassinato, responde outro.
— Entra na frente, cabo, nós estamos com medo.
— É preciso escalar o muro...
— Bravo! o portão está aberto, exclamou uma voz.
E Edmundo e Probo viram entrar pelo cemitério quatro soldados conduzindo uma padiola, e tendo ao lado um cabo.
O Dr. Edmundo tremia como o vento da meia-noite com receio do desconhecido.
Os soldados entre galhofas de medo, depuseram a padiola à porta da capela, e começaram a cavar uma cova.
De repente estacaram, se entreolharam, e o cabo disse:
— Ouviram?!...
— Ouvimos! responderam os quatro soldados.
Era um concerto de vozes cavernosas que saía de dentro da capela, cantando:
Nós somos as almas
Dos soldados mortos
Já deu meia-noite,
Vamos aos postos.
Já estavam eles com os cabelos eriçados e um pé meio erguido em posição de começar uma formidável carreira, quando ouviram uma voz que parecia sair debaixo do chão:
— Ombro arma! — Direita volver! — Ordinário! — Marcha!
Os soldados dispararam a correr, e volvendo o rosto viram treze soldados de cara de caveira e olhos de fogo, na frente deles ladrava desesperadamente um cão negro, enorme! que arrastava uma corrente de ferro e chocalhava guizos, ao lado dele um diabo negro de grande cauda e longos braços tocava tambor!
Era uma charanga infernal!
O Dr. Edmundo ficou preso ao solo, sem ânimo de sair do esconderijo; os dentes lhe batiam com força uns contra os outros e apesar de toda a instrução que recebera, de tudo que havia aprendido nas viagens, propendeu para a superstição; e chegou a pensar que a Rainha do Ignoto e as Paladinas do Nevoeiro não eram seres vivos, eram almas errantes, fantasmas dos outros mundos a divagar na terra! Lembrou-se do que diziam os habitantes das margens do Jaguaribe, quando lhe chamavam a Funesta.
Foi Probo quem o despertou deste cogitar incômodo:
— Já vi que mulheres?! metem medo aos homens! Eis em que dá o tal hipnotismo!
O Dr. Edmundo não respondeu, porque sentiu que voltavam os treze soldados de cara de caveira e olhos de fogo; mas já não cantavam com voz cavernosa:
Nós somos as almas
Dos soldados mortos
Já deu meia-noite
Vamos aos postos.
Conversavam animadamente e algumas riam-se.
Começaram a tirar as máscaras; pois eram máscaras de caveiras que elas puseram, e o que se supunha olhos de fogo, eram diamantes engastados nas órbitas, de forma a poderem ver por baixo deles.
Só a Rainha do Ignoto trocou uma máscara por outra, por aquela que usava entre as suas companheiras. Depois disse:
— Ignez Racey, preveni as marujas para terem prontos os botes?
— Preveni que nos fossem esperar afastados do porto, ali para o igarapé da Cachoeira Grande, para os lados de S. Raymundo.
Clara Benício aproximou-se do homem que os soldados haviam deixado à porta da capela e disse:
— Este homem está morto! que vai fazer dele?
— Vou ressuscitá-lo, respondeu a Rainha do Ignoto.
— Para que fim? perguntou Camilla Franco, sem duvidar das palavras daquela a quem reconhecia como soberana.
— Saberão daqui a poucas horas, disse ela, vamos para bordo do Tufão, onde nos esperam ansiosas a noiva e a futura sogra do pobre Marcos.
— De tudo o que se passou, disse o Dr. Edmundo ao ouvido de Probo, sabemos apenas que este soldado chamava-se Marcos e que tinha uma noiva.
— Thereza Gigante, Maria Forte, Luiza Semmedo, Anna Ligeira, gritou Ignez Racey, peguem na padiola e sigam-me.
— Não há padiola, falou Clara Benício da porta da capela, os tratantes foram sabidos, mesmo na confusão do medo carregaram com ela; sabem quanto custa uma responsabilidade.
— Cortem ramos de árvores e façam uma, ordenou a Rainha do Ignoto, às quatro paladinas subalternas.
Graças à solidão da noite e aos caminhos retirados, elas chegaram a bordo do Tufão sem o menor incidente.
No dia seguinte falou-se no quartel, do caso do cemitério, ele ainda saiu de lá para a rua dos Tocos onde moravam mulheres de soldados, lavadeiras e engomadeiras; mas se por elas, ele entrou sorrateiramente em casa de algum oficial, passou por história de almas, ninguém deu-lhe crédito, nem atenção. Só o cabo e os quatro companheiros afirmavam entre os seus colegas de tarimba a verdade do fato.