Capítulo LI - Os Ciganos e a Companhia de Mágicos e Acrobatas A Rainha do Ignoto · Capítulo 51 de 70
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Capítulo LI - Os Ciganos e a Companhia de Mágicos e Acrobatas

Capítulo LI - Os Ciganos e a Companhia de Mágicos e Acrobatas

O Dr. Edmundo seguiu Probo que esbarrando na calçada d'um armazém para acender o charuto, disse-lhe:

— Ora essa! Ia o senhor me comprometendo... Vamos depressa para bordo, e Deus queira que ainda seja tempo...

— Mas o que há? perguntou o Dr. Edmundo caminhando para o cais.

— O que há? Muita coisa. A imediata Ignez Racey recebeu hoje pelas duas horas da tarde, uma ordem superior para organizar um rancho de ciganos com o seu competente capitão.

— E quem teve a honra de governar o bando?

— Este seu criado, disse Probo, mas veio também encomenda d'uma companhia acrobática e zoológica, lá vão King e Fiel representar, e Odethe também faz parte do pessoal, eis porque vim chamá-lo antes que o procurem.

O Dr. Edmundo tomou à pressa o escaler em que viera Probo, e este pegou nos remos, e começou a movê-los com perícia.

O Tufão estava fundeado a boa distância do cais; mas graças à escuridão da noite e à preocupação das paladinas de bordo ninguém os viu chegar, e quando bateram à porta do camarote de Odethe esta se apresentou com seu traje de templário e a costumada máscara.

Roberta, com seu manto de cigana do Egito, tomou-a pela mão e disse:

— Vamos Odethe, a Rainha do Ignoto nos espera em terra.

Odethe seguiu silenciosa como era de costume.

E as paladinas transformadas em vagamundos para negociarem e lerem buenadicha, com seu capitão à frente, já estavam embarcadas nos escaleres.

Marcos feito diretor do circo dava todo o cuidado à lancha em que iam King, Fiel, um elefante e um urso.

Foram desembarcar longe do porto, em uma praia deserta só conhecida dos tripulantes do Tufão.

D'ali seguiram um caminho ladeado aqui e ali de choupanas, cujos donos já dormiam o sono da madrugada.

Em algumas delas ouvia-se o canto do galo que batia as asas no poleiro.

A lua em quarto minguante aparecia no céu sobre a rama das árvores.

N'uma volta do caminho ou encruzilhada encontraram uma bonita cavalgadura composta d'uns vinte cavalos.

Era ali que as esperava a Rainha do Ignoto, ela foi em pessoa organizar o rancho e a cavalgadura.

Tomava as crianças, e ia acomodá-las nas cangalhas entre os bisacos cheios de roupa; depois endireitava o manto de alguma cigana velha, e lhe dava instruções sobre a sua nova vida; e assim revistando todos aqueles trajes alegres, de cores vivas, aonde se encontrava desde o amarelo da laranja, o encarnado da cereja, o vermelho da cochonilha, o anil, o azul português, o verde francês, o roxo violeta, até as combinações mais esquisitas das sete cores primitivas, e ficou satisfeita.

Foi ainda passar uma revista ao comboio do mantimento. Não faltava nada. Estava provido de forma a chegar para o bando passar à larga pelo menos quinze dias.

E o armamento? perguntou ela de repente.

Ignez Racey foi mostrar-lhe uma grande provisão de revólveres, punhais e outras armas fáceis de ocultar.

— Vejo o susto em alguns semblantes, disse a Rainha do Ignoto, supõem-se em véspera de combate!

Não há tal, minhas boas companheiras, pretendo levar a efeito o que tenho em mente, na mais completa paz; estes preparos bélicos são preventivos para caso extremo, sossegai.

Confiamos muito em vós, disseram as amedrontadas.

— Pai Anastácio guie o rancho de ciganos até as proximidades do engenho do capitão Matury, ordenou a Rainha do Ignoto.

— Ai! Sinhá! que vão vê pai Nastaço... e pai Nastaço é garrado.

— Não tenha medo, ninguém lhe conhecerá, disse a Rainha do Ignoto, você não é o cigano velho Raposo?

— A sinhá, disse que é, e eu sou mesmo, respondeu pai Anastácio com graça.

As ciganas mais divertidas riram-se, e a cavalgada seguiu a passo por uma vereda muito estreita, ladeada de árvores, cuja espessa ramagem, encruzavam, trançavam seus ramúsculos de forma a não deixar coar os raios da lua, e tornar a noite mais escura.

As crianças dormiam ali mesmo o sono da inocência, as velhas ciganas rezavam entre cochilos, a dar cabeçadas na armadilha das cangalhas, onde se sentavam sobre travesseiros.

King ia sossegadamente cavalgando o elefante, e Marcos seguia puxando o urso por uma corrente.

Fiel seguia o cavalo de sua senhora, vestida de chita azul com ramagens encarnadas.

Ignez Racey e Camila Franco vestiam paletós de pelúcia ou lã felpuda cor de macaco, calças amarelas, botas de couro de lustro, esporas de prata, e traziam chapéu de Manilha sobre a cabeleira crespa de cabelos negros que lhes desciam até os ombros, e diziam muito bem com a tez morena dessas duas varonis paladinas.

A lua e as estrelas já desmaiavam no firmamento ofuscadas pelo romper d'aurora, quando pai Anastácio mostrou os canaviais do capitão Matury.

— Lá está, disse ele, a casa do engenho junto à casa do senhô, ali no alto; na baixa é a senzala dos pretos.

— O que, senhor Raposo! exclamou Camila Franco, aquelas choupanas enterradas na lama são a senzala?

— Inhá sim, a moenda é a vapô, e meu senhô mandou encaná água do córrego do Cajueiro p'ra lá; depois quando vai esgotá a caldeira ou água d'ota serventia, deixa corrê p'ra a baixa por uma levada que mandou cavá pelo Grabié e João Caxangá.

— Para alagar a senzala?! tornou Camila Franco.

— Inhá sim, pomode a frieza, sezão não sai do corpo do preto... vai trabaiá tremendo, não faz muito, apanha bolo p'ra spertá preguiça.

— Miseráveis! exclamou a Rainha do Ignoto se aproximando, hão de julgar-se roubados no dia em que a propaganda da Liberdade tomar-lhes a última vítima do sacrifício da escravidão!... Pai Anastácio, as nuvens do levante começam a se tingir de rosa e de ouro anunciando o dia, precisamos escolher um rancho: sabe dizer-nos onde há um sítio o mais perto possível do engenho, e o mais oculto dele, onde a mata seja bem fechada?

— Sabe Sinhá, pai Nastaço vai mostrá: fica ali p'ra o córrego dos Cajueiros, muito perto, e muito escondido.

A cavalgata guiada por Anastácio entrou em uma mata de tamarindos, cujas frondes altas se encontravam para formar um teto de folhagem miudinha movendo-se sem sussurro ao sopro do vento.

O solo em roda dos troncos dos tamarindeiros estava escalvado e limpo. Era ali que os boiadeiros sertanejos faziam seu pouso, em tempos remotos.

Os ciganos se apearam, soltaram os cavalos com as suas competentes peias, ataram bonitas redes de marca com varandas de linha azul e encarnada bordando-lhes as malhas brancas, arranjaram aqui e ali os seus bisacos de roupa, e colocaram aonde acharam mais conveniente os utensílios de cozinha.

E não tardou a se estender na mata o cheiro do café no torrador, e das fritadas de carne de porco nas frigideiras.

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