Capítulo IV - A Visita à Gruta A Rainha do Ignoto · Capítulo 4 de 70
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Capítulo IV - A Visita à Gruta

IV - A Visita à Gruta

Era a hora da tristeza, aquela em que o sol, depois de ter brilhado no firmamento azul, mergulha nas róseas nuvens do ocaso, parecendo dizer um eterno e saudoso adeus ao dia que vai desaparecer para sempre no manto escuro do passado.

Saltando, cabeceando sobre as rochas, vinha um bando de cabras acompanhadas por uma rapariguinha de pouco mais de treze anos; ela trajava vestido de chita roxa com ramagens encarnadas, trazia um fichu a tiracolo, e calçava tamancos de marroquim verde.

A cabreira era morena e quase feia; mas sua fisionomia franca e alegre inspirava confiança e simpatia; acompanhando em zigue-zague o giro de suas cabras, ela trepava de rocha em rocha com a mesma alegria, e com a mesma agilidade de seu rebanho!

Quedou-se de repente, e seguiu pausadamente, olhando a furto um elegante cavaleiro que vinha se aproximando; este parou, e disse familiarmente:

- Por que andas ainda aqui a esta hora, Ritinha? Já não tens medo da Funesta?

- Cada vez tenho mais, Sr. Edmundo, respondeu ela, vou por aqui às carreiras; mas o que fazer, não pude voltar mais cedo... as malditas das cabras só me faltaram pôr doida; trepa aqui, trepa ali, era um nunca acabar.

- E onde estava o Valentim que não veio ajudar-te? disse Edmundo.

- Ele foi com meu pai cortar um pouco de rama, e ainda não voltou, respondeu Ritinha, com desembaraço; mas, o Dr. Edmundo também aqui a esta hora... não tem medo da Funesta?

- Tenho, menina; mas ando doido por encontrá-la.

- Deus o defenda, Sr. Dr... Ela seria capaz de o fazer cair do cavalo e quebrar o pescoço!

- É tão má assim? perguntou ele com um risinho de dúvida.

- Ora se é, disse a menina, e afastou-se correndo atrás das cabras.

- Espera, Ritinha, gritou Edmundo, ensina-me primeiro o caminho da gruta.

- Vai por aí mesmo, voltou-se ela, e apontou, chegando ao pé daquele monte sobe-se um bocadinho...

- Obrigado, até logo.

- Deus o leve, e Deus o traga, não vá ficar também encantado.

Edmundo partiu cravando as esporas no cavalo; o animal tropeçava nas pedras da ladeira e as folhas secas estalavam-lhe nos cascos; mas ele, de cabeça quase a tocar na terra, buscava sempre direção oposta da que lhe dava o cavaleiro:

É que os brutos, que nós chamamos irracionais, têm mais exato conhecimento do perigo, e sabem melhor livrarem-se dele que o mais abalizado sábio!

Certamente, um cavalo, uma cabra, ou um gato sabe melhor o caminho que lhe convém à borda do precipício, que o ser mais inteligente do mundo!

Bem depressa o cavalo de nosso Dr. chegou ao lugar indicado pela cabreira; mas ele foi que não deu com a gruta. Enquanto subia o monte, ia lendo em todas as pedras do caminho a palavra: Solitário. Era bem merecido o nome, se ele era dado àquele lugar deserto e triste como a própria mágoa!

Chegado ao cimo da ladeira, Edmundo avistou uma grande pedra a poucos passos; subia-se para ela por degraus naturais que chegavam ao assento daquele rústico trono trabalhado caprichosamente pela mão da natureza.

Edmundo estava amarrando o cavalo ao tronco de uma árvore, quando viu assomar no alto da pedra a cabeça negra e felpuda do Terra-Nova, que ele tinha visto no bote, na noite da serenata.

Subiu um montezinho de terra vermelha estrelado de malacacheta ou mica, e escondido por trás de uns arbustos, esperou.

Pouco depois apareceu outro personagem do bote, era um enorme e feio orangotango vestido a marujo e trazendo, pendente do cinturão de couro de lustro, uma pistola.

- O orangotango é um mono sem cauda, disse Edmundo consigo; mas o que foi aquilo que vi rastejando à borda do bote para a água do rio? Provavelmente alguma corda atirada ao acaso; estou certo que o medo... ou a prevenção faz ver o que não existe.

Era tal o espírito de curiosidade que o dominava que nem ousava mexer-se, tinha os olhos fitos na arma de fogo que o mono afagava de vez em quando, e lhe parecia ver a cada instante brilhar um relâmpago, seu cavalo cair morto!

Mas tal não sucedeu, pois o suposto marinheiro contentou-se em dar um salto acrobático e cair escanchado na sela!

O animal sob o peso do estranho cavaleiro relinchou.

Imediatamente surgiu, no alto da escada de pedra, o vulto majestoso da cantora do bote, da fada do Areré.

- King! exclamou ela com voz melodiosa e doce.

O orangotango foi sentar-se a seus pés no último degrau, obediente como um rafeiro.

Ela continuava de pé com os olhos fitos na extensão dos campos vizinhos. Era uma estátua de mármore:

Trajava veludo cor de púrpura ou flor de amaranto, e trazia, ao peito, preso por uma roseta de brilhantes, um ramo de saudades:

Despregou-o, e começou a desfolhar uma a uma as belas flores, fitando tristemente as pétalazinhas perdidas em redemoinho pelos ares.

King tirou do bolso um cachimbo italiano, e se pôs a fumar sossegadamente.

Edmundo estava suspenso; não podia formular uma só ideia sobre tão extraordinária e misteriosa criatura!

As tristes sombras da noite iam se estendendo cada vez mais. As avezinhas da serra chilreando pelos ramos se aproximavam dos ninhos, e os insetos zumbindo procuravam as cavernas; mas ela continuava a olhar os campos e o azul do céu. Tinha a vista embebida nas colunas de ouro que o sol desenhava nas nuvens, mergulhando por trás de um monte escarpado.

O nosso herói curioso, tendo necessidade de voltar antes que as trevas lhe alcançassem em caminhos que mal conhecia, resolveu sair do esconderijo e aparecer, fosse qual fosse o resultado.

A fada assustou-se, desceu precipitadamente os degraus de pedra, e desapareceu no sopé do monte, seguida por King e o Terra-Nova.

Edmundo acompanhou-lhe os passos, e descobriu a entrada da gruta; mas tudo ali protestava contra a passagem de um ser humano!

Era impossível penetrar naquela caverna escuríssima! onde esvoaçavam em chusma repugnantes morcegos.

Ele partiu a desfilada para a povoação, e chegou às sete horas da noite, cada vez mais atraído para a fada do Areré, chamada pelo povo a Funesta.

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