Capítulo XXIV - Por Que Não Fazes Assim... As Moças Garridas Não Ficam Titias A Rainha do Ignoto · Capítulo 24 de 70
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Capítulo XXIV - Por Que Não Fazes Assim... As Moças Garridas Não Ficam Titias

XXIV - Por Que Não Fazes Assim... As Moças Garridas Não Ficam Titias

A família Martins continuava na fazenda do Poço do Capim e ali pretendia demorar até agosto.

Carlotinha já não era a criança descuidosa e alegre de outros tempos, tinha se transformado; estava naquela fase da vida em que toda a moça tem de infalivelmente pagar o pesado tributo do rei dos corações, esse absoluto, esse tirano que se chama amor.

A imagem daquele que lhe fez pulsar o coração, lhe tinha ficado gravada na mente. As horas do dia passavam lentamente para ela, que de quando em quando chegava à janela e alongava a vista pela estrada, e a cada momento lhe parecia ver um cavalheiro assomar por entre a ramagem das árvores; mas era debalde, o Dr. Edmundo desde a noite de S. João nunca mais foi à fazenda do Poço do Capim, estava muito entretido com as histórias, que lhe contava Probo, da Rainha do Ignoto.

Carlotinha esperava sem esperança, é do destino humano esperar sempre. À noite ela sonhava com ele, e pela manhã a recordação do sonho dava-lhe alguns instantes de contentamento; mas o tempo passava, e sua alma recomeçava na mesma ânsia do dia anterior; e só a noite vinha pôr termo à árdua tarefa, com o ponto final do desconsolo...

D. Raquel, mãe extremosíssima e perspicaz, observava a filha sentindo o pressentimento duma grande dor para seu coração materno.

Uma tarde disse ao marido:

- Não estou tranquila, não sei o que faça para distrair Carlotinha; emagrece, está ficando pálida, e vive mergulhada numa tristeza que me assusta e me desgosta.

- Voltemos para a povoação, respondeu o Sr. Martins, lá tem com quem desenferruje a língua.

- Quem sabe se não será pior, sei cá porque digo isto.

- Não sou bom para adivinhar charadas, volveu ele, diga as coisas como elas são e saberei responder.

- Não sei nada, disse a professora disfarçando, vamos falar de nosso gado, já fiz quatro arrobas de queijo este ano.

- É pouco.

- Para mim é muito, o resto compete ao vaqueiro.

E a boa senhora não teve ânimo de dizer o que julgava, sentia pejo até de pensar que seu anjo querido, a flor mimosa de seu coração amava pela primeira vez com toda força de sua alma, e não era correspondida.

Era tal a sua dedicação materna que sofrendo tanto quanto a filha, por um sentimento de delicadeza fazia todo possível para se mostrar alegre, só a fim de não dar-lhe a conhecer que havia descoberto o segredo que ela procurava ocultar-lhe.

Mas enquanto a boa mãe pensava em descobrir um meio de salvar a filha do próximo desengano de seu sonho de amor, ela seguia pensativa também o caminho da casa de Ana Rosa; e era tal a sua preocupação que nem via os garranchos que se lhe pegavam ao vestido advertindo-a de que era preciso tirar da vista a imagem do Dr. Edmundo e olhar para eles que estavam crivados de espinhos.

- Olhe o barreiro, sinhazinha, disse a mulata Teresa que a acompanhava, e puxando-a pelo braço a fez recuar.

- Quase cai dentro... se não sou eu... tornou Teresa.

- Caía de certo, disse Carlotinha simulando uma risada que Teresa correspondeu deveras.

- Lá está a casa da sinhá Ana Rosa, sinhazinha, ela já nos viu, vem correndo.

Efetivamente a roceira veio encontrá-las, e abraçou Carlotinha com toda efusão e sinceridade campesina, depois conduziu-a para o interior da casa.

Foi mostrar-lhe a almofada onde trabalhava em uma linda renda de bilros, levou-a até às gaiolas onde tinha presos: o canário, a graúna cantadeira e o cabeça vermelha. No pátio fez-lhe ver as cravinas e maravilhas dos canteiros suspensos no ar sobre estacas.

A não ser na camarinha a embalarem-se na rede, é ali ao pé de suas flores que as moças sertanejas costumam fazer às amigas as confidências amorosas.

Ana Rosa depois de contar a Carlotinha todas as peripécias duma inclinação nascente, passou a tratar das pessoas que tinham vindo à fazenda na noite de S. João.

De todos os que maior impressão lhe deixaram, foram: Henriqueta e o Dr. Edmundo.

- Bonito moço, dizia ela, e aquela filha de D. Matilde também não é feia, que achas Carlotinha?

- Assim...

- Olha, pois eu acho um par muito igual! E eles parecem que se gostam, não reparaste?

- Não, respondeu a moça distraída examinando um cravo, que belo vermelho tem esta flor!

- Mais vermelhas estão as tuas faces, disse Ana Rosa, rindo: que é isto Carlotinha? Como estão frias as tuas mãos!

- Não sei... a mamãe diz que é nervoso, dei agora para isto... todas as tardes e manhãs fico com as mãos geladas.

- É bom te receitares.

Ana Rosa não adivinhava quanto tinha feito sofrer a pobrezinha, e para alegrá-la cantou as modinhas novas que tinha aprendido na semana passada, depois foi ainda mostrar-lhe um corte de lã e um alfinete de peito que seu pai lhe tinha trazido da cidade.

Carlotinha se esforçava para corresponder alegremente àqueles agrados de estilo sertanejo e não podia senão formar um triste sorriso.

O sol baixava no horizonte, e as sombras, que rodeavam as mutambeiras e juazeiros da mata, cresciam.

Um pipilar de vozes alegres de gente feliz se aproximou da porta da casa de Ana Rosa: eram as filhas de D. Matilde que não tendo encontrado Carlotinha na fazenda vieram procurá-la ali.

Depois dos cumprimentos do costume: abraços e beijos falsificados como as conservas que nos vêm do estrangeiro, Henriqueta começou levianamente:

- Então Carlotinha, o Dr. Edmundo tem aparecido por cá?

- Apareceu quando tu apareceste na noite de S. João, disse a moça impaciente, querendo mudar de assunto, como está bonito o céu para o lado do poente!

- Sabes o que se diz na povoação? tornou a teimosa.

- Não sei, nem quero saber.

- Pois eu digo aqui para Ana Rosa: é voz geral que o Dr. Edmundo está enfeitiçado... começou a passear para os lados do Areré e agora não sai da cabana do caçador de onças, o feiticeiro velho.

- Mas o que muita gente diz, acudiu Malvina, é que está ficando maluco, e vem a dar em doido!

- O que admiro, disse Carlotinha, é que vocês que tinham tanta amizade com ele falem agora assim!

- Ora essa! porque tinha amizade com ele não posso dizer o que se diz? Tem graça! disse Henriqueta.

- Ela fala assim, Carlotinha, disse Malvina, porque está de amores novos, vai ser pedida em casamento por um negociante português que almoçou no domingo em nossa casa.

- E ela que já foi pedida pelo Eduardo Gama, declarou Henriqueta.

- Mas, mamãe disse que só marca o tempo quando contratar também o teu, que é para fazer ambos no mesmo dia.

As filhas de D. Matilde depois de muitas levezas e desfeites se despediram.

Então Ana Rosa disse a Carlotinha:

- Por que não fazes o mesmo... as moças garridas não ficam titias.

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