Capítulo VIII - As Filhas de D. Matilde ou os Defeitos de Educação
VIII - As Filhas de D. Matilde ou os Defeitos de Educação
Era domingo, a manhã ia adiantada. Já os habitantes da povoação e os dos arrabaldes se reuniam para a missa paroquial, ordinariamente às dez horas.
As mulheres entravam para a igreja e esperavam sentadas no ladrilho a vinda do Sr. vigário. Os homens ficavam no adro a conversar em política, em questões de terras e em gado sumido. Tratando deste assunto algum se inclinava para riscar com o dedo na areia do patamar a forma do ferrete do animal.
Em casa do Dr. Edmundo a tia Úrsula entrava e saía da cozinha para o postigo resmungando pela demora do Adriano, que conversando na venda do Vital não voltava com o tempero.
- O sino está tocando, dizia ela, e já é a última chamada! Eu hoje não perco missa nem por S. Brás. Parece que o Sr. Dr. vai sair, quem sabe se já não quer almoçar, e o disfarçado foi buscar a morte.
Edmundo fingiu não ouvir o resmungar da cozinheira, e saiu para a rua.
As casas estavam com as portas meio cerradas. A rua era quase deserta. Todos tinham corrido ao chamado do último toque de missa, e o bulício que se via antes no adro da igreja tinha sido substituído por um respeitoso silêncio.
O Dr. Edmundo, passando pelo patamar da igreja, demorou fitando com interesse aqueles homens robustos, de rostos tostados, que ajoelhados sobre seus lenços vermelhos ou bancos, firmavam as mãos calosas em seus grossos bastões. E considerando aquelas cabeças expostas aos raios ardentes do sol, com os pensamentos recolhidos, atentas às orações em uma língua estranha, admirou o poder da religião de todos os povos!
Por não ter onde melhor passar as horas, ou levado pelo desejo de ver Virgínia, Edmundo dirigiu-se para casa de D. Matilde, que ficava próxima à igreja.
Bateu por duas vezes e não aparecia pessoa alguma, da terceira falou uma voz muito fraca:
- Quem é, tenha a bondade de entrar para a sala.
Ele entrou e não pôde deixar de recuar um passo e soltar um leve grito de admiração:
- D. Virgínia!
- Sr. Edmundo! exclamou ela com os olhos velados pelas lágrimas.
- Está com febre? disse Edmundo ao apartar a lânguida e descarnada mão que ela lhe apresentava.
- Contudo sinto frio, respondeu ela tomando-lhe o chapéu e a bengala e tentando erguer-se da cadeira, onde se reclinava.
- Não se incomode, D. Virgínia, vou mesmo colocá-los. D. Matilde não está em casa?
- Não, Sr., foi à missa; mas já deve ter acabado, ela não tardará, sente-se.
Sentando-se o Dr. Edmundo guardava silêncio, absorto na contemplação daquele rosto transformado pela moléstia; mas ainda assim interessante e belo.
Virgínia envolvia-se em um fichu de lã cor de creme, e tinha os longos e formosos cabelos separados em duas tranças que caíam-lhe sobre as espáduas. Dentre as feições profundamente delineadas na tez branca de cera, sobressaíam os olhos com um brilho impressionável!
O Dr. Edmundo conhecia toda a história dos amores de Gustavo e de Virgínia, por isso não pôde deixar de recordar os anos passados, pensar em seu tempo de acadêmico, e querendo acusar ao amigo, lembrava-se que talvez com seus protestos levianos e inconsiderados tivesse também roubado a alegria de alguma pobre moça de coração bem formado.
- Era tão amiga da música, D. Virgínia, perguntou, ainda toca?
- Ah! Sr. Edmundo, disse ela olhando tristemente para um piano alemão, que lhe ficava fronteiro coberto com uma colcha de damasco verde, já não me resta nem esta consolação; vão me faltando de todo as forças.
Um ataque de tosse tomou-lhe a voz.
Edmundo levantou-se, abriu as janelas que davam para a rua, para que houvesse mais ar, e veio sentar-se ao lado da moça, muito comovido.
- O que dizem os médicos desse mal?
- Os médicos? Nunca tiveram notícia dele...
- Como? Nunca se receitou?
- Nunca. A princípio queixava-me; mas, a tia Matilde dizia que era nervoso, que eu fosse passear, e não cuidava mais de mim. Vendo o pouco caso que faziam de minha vida, atirei-me aos espetáculos e aos bailes com um verdadeiro delírio! Foi o ano passado pelo inverno, no aniversário de Luíza Gama, que deitei a primeira golfada de sangue. Cercaram-me de atenções e de cuidados... rejeitei-os: era tarde, estava morta.
Mal Virgínia acabou de falar, um sussurro de vozes alegres aproximou-se da porta. Era D. Matilde que chegava com as filhas. A missa havia terminado, e o povo se espalhava em todas as direções.
As irmãs do vigário e a professora acompanhavam D. Matilde. Esta apenas foi entrando atirou com o chapéu de sol a um canto, sacudiu com o leque e o manual para cima de uma mesa e sentou-se ofegante:
- Que calor! que sol!
Depois reparando em Edmundo exclamou:
- Oh! Dr. foi pontual. Entre, Sr. Vigário.
- Já estou dentro, D. Matilde, respondeu o vigário procurando uma cadeira de balanço.
- D. Paulina, D. Sofia, D. Raquel, estão em suas casas, tirem os chapéus. Ó Malvina! Ó Henriqueta, que fazem vocês meninas? Vieram sentar-se e deixaram a Carlotinha de pé junto à janela!
- Ela quis ficar ali mesmo, mamãe, respondeu Henriqueta com ar zombeteiro, isto é para ver os moços que vêm da missa... uns papangus de paletó de brim metido na goma, e chapéu atolado até as orelhas! Henriqueta acompanhava as palavras com trejeitos e risos.
- Cala a boca, Quetinha, não repare, Sr. Vigário, esta menina zomba de tudo, disse D. Matilde, com ar de quem manda continuar.
- Parece muito com D. Alice, observou Edmundo.
- Em tudo sem tirar nem pôr, aprovou a condescendente mamãe.
- Carlotinha, tornou a zombeteira, que vestido é este?! Esta renda creme não diz bem nesta fazenda cor de azeitona. O teu chapéu também já não está na moda: os que se usam são como este meu, como o de Malvina.
- Sei muito bem o que se usa, Henriqueta, disse Carlotinha, mas aqui não se pode andar no rigor da moda: manda-se buscar qualquer coisa à capital, vem sempre fora do gosto.
- É certo, acudiu Malvina, quando nós estávamos no Recife, que entrávamos em alguma loja de modas, e que víamos um chapéu, ou uma fazenda do tempo dos Afonsinhos, dizíamos logo: Isto guarde para vender aos matutos.
Carlotinha estava enfiada, o rubor lhe havia subido dos lábios às faces.
- Não se aflija, Carlotinha, interveio Virgínia, tudo lhe fica bem. Quem tem esta cabeleira de ouro, estes lábios de coral e olhos de turquesa não pede favor às modas.
A moça abriu um sorriso de anjo, e deixou ver no esplendor de sua ideal beleza a candura de sua alma.
Edmundo reparou então nela pela primeira vez, e reconheceu a verdade do que dissera Virgínia. Carlotinha era bonita e naturalmente elegante, só lhe faltava o desembaraço das moças da cidade; mas o seu acanhamento era preferível aos modos desabridos e zombeteiros das filhas de D. Matilde.
Henriqueta, contrariada com o elogio que Virgínia teceu a Carlotinha, fez-lhe um momo e, voltando-se para o Dr. Edmundo, começou a falar da insipidez do lugar, e contando muitas anedotas da gente da terra, não deixava de fazer referências ao pai de Carlotinha, que apesar de roceiro sem instrução, era inteligente e muito sensato.
Virgínia, que estava atenta aos disparates da prima, e via a filha de D. Raquel com olhos súplices para ela, veio outra vez em seu auxílio:
- Então, Henriqueta, julga você que a boa educação consiste somente em saber botar um espartilho, atacar um cinto, fazer um bonito penteado, cobrir as faces de pó de arroz, os lábios de carmim, calçar umas luvas, conhecer os artigos da moda, tocar um pouco de piano e dançar quadrilhas e valsas? Há outros conhecimentos muito mais necessários.
- Já vem você meter-se onde não foi chamada, disse Henriqueta com enfado, bem sei a que telhado se dirigem suas pedras; mas não espere que vá me reger pelo delírio da sua febre...
Virgínia sorriu tristemente e replicou disfarçando a amargura que lhe invadia o coração:
- Eu falo no geral, minha prima, não me refiro a ninguém, quero dizer que a boa educação nem sempre tem a felicidade de sentar-se nas cadeiras estufadas dos ricos salões, muitas vezes vamos encontrá-la na salinha caiada de branco, costurando ou lendo à luz do candeeiro de querosene.
- Ficaste sabida depois desta moléstia, disse Malvina com petulância, és uma doutora!
D. Matilde, que conversava com as outras senhoras, e não perdia uma só palavra das filhas, riu-se e perguntou:
- Que tolices são estas, menina? Com quem dizes estas coisas?
- Com ninguém, mamãe, volveu ela, converse pra lá com as velhas; nós não precisamos de sua intervenção, basta da conselheira-mor.
O Dr. Edmundo, aborrecido com os defeitos de educação das filhas de D. Matilde e preocupado com outra ideia, levantou-se, despediu-se e saiu.
- Dr.! Ó Dr.! chamou Henriqueta da janela, eu lhe espero à tarde para distrairmos um pouco ao piano... Temos aqui uma flauta muito boa, também há uma rabeca... Malvina já vai tocando sofrivelmente.
- Não posso, D. Henriqueta, tornou ele, V. Exa. me desculpe, estou com um passeio campestre projetado.
- E prefere esse passeio ao meu convite?
- Não; mas estou comprometido.
- Com quem? Com esses matutos?
- Sim.
- Ora essa! Se aqui há gente que mereça atenção...
- Há, minha senhora, para exemplo dou-lhe o meu vizinho Martins, que é um perfeito cavalheiro.
- De certo já lhe deve algum favor. Também soube que passeia para o Areré... Não tem medo de ficar encantado?
- Neste caso virei para a senhora me desencantar.
A garrida moça ficou em dúvida sobre o verdadeiro sentido da última palavra do Dr.; por isso entrou para continuar a fazer chacotas das duas beatíssimas e ingênuas irmãs do vigário.
Já neste tempo Edmundo estava em casa, e de seu gabinete ouvia a cozinheira ralhar com o Adriano.
- Nunca mais me acontece outra! Foi por tua causa, brejeiro, que hoje não achei canto na igreja. Quando cheguei já o Sr. vigário tinha mudado o missal. E eu, por desconto de meus pecados, fui logo me ajoelhar atrás das cadeiras das duas deslambidas de D. Matilde, não pude rezar nem uma Ave-Maria! Umas risadinhas... um cochicho... que enjoava a Deus e ao mundo.
- Mangaram de você, tia Úrsula? Perguntou o Adriano.
- Quem! Aquelas mesmas? Duvido! Você não me conhece, Sr. Adriano! Se elas vierem com mangação para minha banda ouvem... As papas não me queimaram a língua.
- Então de quem zombavam elas?
- Do Boião do Poço, que lá estava todo embasbacado para a Carlotinha.
- Quem é esse Boião do Poço, Sra. Úrsula?
- É o moço mais rico aqui do lugar. O filho do capitão Miguel do Poço. Hoje já passou duas vezes pela porta da professora. Vinha esquipando num cavalo baio, vestido num paletó branco muito engomado, o chapéu derreado para trás, botas de couro de lustro, nem sei que mais... Deus nos acuda! Era rua abaixo, rua acima, e quando riscou aqui no canto tinha ares de quem quer se mostrar. Tolo! A Carlotinha nem está aí, parece que ficou lá pela casa de D. Matilde.
- É tarde, tia Úrsula, observou Adriano, vá tirar o almoço: a mesa está posta. Creio que o Sr. Dr. vai sair à tarde, então fica-nos tempo para palestrar.