Capítulo LXIV - O Tratado de Amor sobre os Degraus de um Túmulo
Capítulo LXIV - O Tratado de Amor sobre os Degraus de um Túmulo
Chegaram as Paladinas na Ilha do Nevoeiro.
Passados três dias os habitantes das margens do Jaguaribe viram reaparecer a luz da cabana do caçador de onças.
Carlotinha naquela mesma tarde foi visitar o túmulo de Virgínia.
D. Sophia e D. Paulina que vinham também, entraram no cemitério seguindo diretamente para a capela, aonde iam rezar um terço pelas almas do purgatório.
Carlotinha depois de ajoelhar-se ali, e fazer o sinal da Cruz, ergueu-se e saiu. Vendo um vulto de mulher sentado nos degraus de um túmulo que lhe pareceu o de Virgínia, dirigiu-se para ele, e caindo-lhe nos braços exclamou:
— Diana! És tu? Dize...
— Sou eu mesma, Carlotinha, provavelmente me achas velha... E tu tiveste doente?
— Não... já foi há muito tempo.
— E estes lábios desmaiados? Estes olhos amortecidos? Que tristeza é esta?!
Carlotinha não respondeu; os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, e procurando contê-las com um esforço insuficiente, rompeu em soluços.
— Que tens querida menina? disse Diana fazendo-a sentar-se ao pé de si, alivia o teu sofrimento contando-me o segredo de tua dor... Estamos sós na morada dos mortos, fala-me como se fora a um deles, estou próxima a deixar a terra.
Carlotinha confundida, sem já saber se falava a um ser vivo ou se falava a um fantasma de além-túmulo, perguntou:
— Aonde estavas Diana?
— Logo direi, quero antes saber o que te atormenta...
Ela ergueu a cabeça e com o rosto coberto de uma vermelhidão súbita, disse:
— Tu bem me disseste que não seguisse os impulsos de meu coração, que não ouvisse as falsas ilusões do amor...
— E apesar disto amaste?
— Muito, disse ela cobrindo o rosto com as mãos.
— E não foste correspondida?
— Não; mas... a culpa foi minha... ele nunca soube se...
— Tu o amaste. Não é assim?
— É.
— E que rochedo foi esse que não pôde ler a verdade refletida no lago sereno de teus olhos azuis?
— Fazem três anos que não o vejo, disse Carlotinha sem atrever-se a pronunciar o nome que tinha em mente, Henriqueta quis primeiro fazer-me acreditar que ele enlouqueceu, depois teve a perversidade de espalhar a notícia de que ele fugiu com uma quadrilha de ladrões que se ocultava na gruta do Areré.
— E acreditaste?
— Nunca! Impossível! O Dr. Edmundo podia ser ingrato para mim, e mesmo para ela; mas, um bandido só no pensamento de Henriqueta.
O Dr. Edmundo ainda em seu papel de Odete estava ouvindo tudo de pé por trás do túmulo de Virgínia. A voz doce e harmoniosa daquela moça, tão bela, e tão singelamente sincera em seus sentimentos, tocou em uma varinha mágica. Sentiu-se transportado ao jardim da felicidade, e escutou com prazer; mas contrariou-se ouvindo voz de Diana que expressava-se assim:
— Ah! Já sei a quem te referes, é a esse Dr. Edmundo que ocupou por alguns meses a atenção das moças deste lugar. Talvez esteja casado com alguma boneca de salão.
Carlotinha estremeceu, ficou muito pálida, e Diana continuou:
— Minha menina, muito me pesa teu sofrimento, mas sou obrigada a ser franca: é muito mais fácil salvar náufragos entregues ao furor das ondas em noite de tempestade! Salvar as vítimas de um terrível incêndio! roubar soldados da solitária de um quartel, libertar cem escravos do poder de um feroz senhor que vencer a indiferença de um coração. Nesse sentido não haverá poder que te salve senão outro afeto mais digno de teu sincero coração... esquece o primeiro, e serás feliz.
O Dr. Edmundo estava inquieto, tinha vontade de apresentar-se, arrancar a máscara de Odete, e dizer:
— Aqui estou, não me condenem injustamente, ouçam-me.
Mas conteve-se, e bebeu com as vibrações sonoras do ar as palavras de Carlotinha:
— Não posso Diana, não posso; só se ama uma vez na vida.
— Como estás enganada nesse sentido, Carlotinha, o amor nem sempre é absoluto como erradamente pensa a mocidade; muitas vezes não passa de um sentimento de orgulho, de dignidade de alma, iludida com o seu próprio sentir. Ora, uma menina reservada, esquiva, que faz a sua glória em não entrar no número das coureiras vulgares, em ser séria, muito séria; lá um bom dia encontra em um baile um desses leões de salão que por hábito de galanteio, ou por vaidade de triunfar de seu orgulho, que deveria ser chamado discrição, lhe faz uma dessas banais e mentirosas declarações de amor que toda a mulher deveria escarnecer; ela pela sensibilidade inerente à sua vida, arrastada pela corrente da simpatia ouve prazenteiro aquele embuste, e julgando ter encontrado o seu ideal, quando este lhe foge, chora, sofre, adoece, desespera, e às vezes até morre. Mas torno a repetir Carlotinha, aquilo não foi absolutamente amor, foi um sentimento de orgulho mal entendido que a matou; ela envergonhou-se de se ter mostrado amante, de ter dado a conhecer uma predileção por um homem que a desprezou e escolheu outra esposa. Eis o que sucedeu a Virgínia, a Odete, a ti Carlotinha e a muitas outras.
— Não, Diana, eu sou sincera.
— Bem sei, menina; mas quero dizer-te que não te fies muito nisto que te parece ser amor; porque para que uma moça tenha certos princípios de educação, que tenha uma alma sensível e ao mesmo tempo elevada, possa amar no absoluto, é preciso que o objeto de seu amor tenha senão as qualidades do coração que pertencem mais restritamente à mulher, possua pelo menos algum atributo que ela admire, como seja: o talento, a coragem e até, para algumas a atividade laboriosa, e sobretudo o caráter. Alguns dos mais vaidosos julgam-se loucamente amados por elas; mas se enganam tanto como essas malfadadas, que choraram, adoeceram e morreram; pois se elas tivessem refletido teriam vencido a si mesmas e mais tarde zombariam de sua ridícula escolha, ficariam pasmadas de sua cegueira, e dariam parabéns à sorte por terem sido bem sucedidas sendo desprezadas; porque sua fortuna foi não alcançar o simulacro, o arremedo de seu ideal.
— Presentemente não me aproveitam os teus conselhos, Diana, disse Carlotinha com tristeza, pode ser que com o tempo, eles venham a servir-me.
Ela foi ao encontro de D. Sophia e D. Paulina que a chamavam, já dispostas a retirar-se.
O Dr. Edmundo despeitado com Diana e satisfeito com a declaração de Carlotinha dizia consigo:
— Um tratado de amor sobre os degraus de um túmulo! Mas não é uma profanação... Deus manda aos espíritos que se amem além da vida terrestre.