Capítulo XLI - Até no Monturo e na Lama das Ruas se Encontra um Coração de Mulher A Rainha do Ignoto · Capítulo 41 de 70
Obra Menu

Capítulo XLI - Até no Monturo e na Lama das Ruas se Encontra um Coração de Mulher

Capítulo XLI - Até no Monturo e na Lama das Ruas se Encontra um Coração de Mulher

Apenas saíram as paladinas, a Rainha do Ignoto retirou a máscara, trocou o vestido de seda por um de chita, soltou o cabelo em duas tranças, pôs uma mantilha sobre a cabeça, pegou em uma bolsa de couro da Rússia que estava sobre uma mesa e chamou Roberta para acompanhá-la.

Aonde iria àquela hora, pois a corneta acabava de tocar as nove.

Seguiram em frente ao porto, e dobraram por uma ruazinha de casas de má aparência.

Em uma delas meia arruinada, já sem metade da caliça, via-se uma fraca claridade que saía pela porta meia cerrada.

A Rainha do Ignoto escutou de pé junto ao portal e disse:

— Roberta, parece que houve aqui alguma desgraça, ouço gemer, chorar, e às vezes gritos abafados, ais dolorosos!...

— Empurre a porta, senhora.

E ela sem mais considerações empurrou, e entrou seguida por sua boa companheira.

Na sala não havia ninguém; mas no corredor estendida no chão uma rapariga de cor escura tinha a cabeça rachada, e estava com os cabelos sujos de sangue que lhe corria pelos vestidos.

— Mas o que foi isto? perguntou a Rainha do Ignoto inclinando-se para ela.

— Cacetada! respondeu Roberta, está se vendo que foi uma enorme cacetada!

— É preciso estancar este sangue Roberta, veja algodão para queimar, trouxe o frasco de arnica?

— Tudo está aqui pronto, senhora, respondeu Roberta, procurando na cesta que trouxera enfiada no braço.

Em poucos minutos estava feito o tratamento, e elas não vendo outras pessoas na casa conduziram a doente para o quarto, cujo ladrilho estragado lhes fazia dar topadas aqui e ali.

Não havia leito, puseram-na numa rede ordinária.

— Nem ao menos uma almofada para calçar-lhe a cabeça, disse a Rainha do Ignoto, correndo a vista pelo quarto.

— Ali estão dois baús, observou Roberta, talvez haja neles algum pano.

— Nada senhoras, sou uma miserável, disse a rapariga falando pela primeira vez.

— Quem lhe pôs neste estado? perguntou a Rainha do Ignoto.

A rapariga caiu em pranto e não respondeu.

— Queremos protegê-la, diga-nos tudo sem receio.

— As senhoras não apitam, não mandam-no prender? interrogou ela com olhos suplicantes.

— Se não sabemos de quem fala como poderemos denunciá-lo, disse a Rainha do Ignoto, conte-nos a sua história e descanse que não faremos nada que não seja para aliviá-la.

— Eu não sou daqui, disse ela, sou do Ceará.

— Como se chama?

— Faustina, fui criada pela D. Rozinha que morava lá na rua do Trilho de Ferro. Ela me mandava fazer compras na taverna; enquanto era pequena ia satisfeita, fui crescendo entrei a recear porque o taverneiro me dizia pilhérias; mas ela me espancava quando eu não queria ir. Já estava com quatorze anos e queria bem a um rapaz carroceiro que foi nosso vizinho e que estava trabalhando para arranjar os meios de fazer o nosso casamento; mas os perversos mesmos que procuravam me desencaminhar entraram a contar-lhe histórias, a falar mal de mim... o pobre do Cypriano acreditou em tudo e desesperado embarcou para o Pará. Sem esperança de me casar com Cypriano, maltratada por D. Rozinha, fugi uma noite de casa, e tornei-me mais desgraçada do que já era. Depois embarquei também para o Pará e encontrei Cypriano trabalhando no trapiche; ele recebeu-me muito bem, viemos morar nesta casinha; mas nunca me perdoou a minha doidice... e tem um ciúme terrível de mim...

— Não era isso o que queríamos saber, vamos, diga quem lhe fez este ferimento?

— Ah! senhora, ele estava cego de raiva! Vinha hoje do serviço quando uma vizinha que me quer mal, não sei porque, lhe contou uma calúnia a meu respeito...

— E ele meteu-lhe o cacete?

— Não, senhora, foi com uma acha de lenha.

— E não o prenderam? perguntou Roberta.

— Nem fale nisto, senhora, disse Faustina aflita, os vizinhos apitaram, vieram soldados; mas eu assim mesmo ferida ainda o escondi; quiseram levar-me à chefatura; mas tanto pedi, que tiveram pena, e me deixaram ficar, fui entrando da sala, e caí no corredor. Cypriano já vinha acudir-me quando as senhoras entraram.

— E onde ele está?

— A senhora promete que não lhe faz mal, não tem algum soldado por aí... tornou Faustina angustiada.

— Não tenha medo, disse a Rainha do Ignoto, eu sou irmã de S. Vicente de Paula, ando visitando os doentes em nome da sociedade, não faço mal a ninguém.

— Pois sim, levante a tampa daquele baú que o pobre Cypriano já deve estar sem fôlego.

Roberta ergueu a tampa do baú e Cypriano apresentou-se no meio do quarto com a cabeça baixa e os braços cruzados sobre o peito.

Era um rapaz de vinte quatro anos, pouco mais ou menos, de fisionomia simpática, apesar de uma certa dureza, do olhar franco e severo.

— Não está arrependido do que fez, senhor Cypriano? perguntou a Rainha do Ignoto.

— Se é mentira o que me disseram estou, se não é...

Não pôde acabar, parecia ter um nó na garganta.

— Pois eu sou capaz de dar um juramento como é mentira.

— Vme. nem sabe de que se trata...

— Não sei, mas calculo, disse a Rainha do Ignoto, o senhor não vê que uma mulher que ama a ponto de defender da justiça aquele que lhe quis roubar a vida, esta mulher não pode ser-lhe inconstante.

— Vme. diz bem, confirmou Cypriano indo postar-se junto ao punho da rede de Faustina.

— Ouça, a sociedade de S. Vicente de Paula vai tratar de seu casamento com ela, que bem merece entrar no número das esposas. Aqui lhe deixo esta quantia para o tratamento da pobre Faustina; breve aparecerei. Até logo.

A Rainha do Ignoto saiu outra vez para rua e ao dobrar o canto, disse:

— Volta, Roberta, para a casinha do pescador Laureno, teu marido, e deixa-me seguir.

— Só? perguntou Roberta admirada, quando Vossa Bondade era seguida por King, Fiel ou mesmo por Odete não me inquietava; mas... agora!

— Não repliques, Roberta, e nem desconfies de mim, disse ela, com voz meiga e triste, vou esgotar até as fezes o cálice de minha vida.

E separou-se de Roberta, que parada na calçada ainda olhou para ela por muito tempo.

Ela seguiu só, preocupada com o que tinha em mente.

Não podia recear coisa alguma, ninguém lhe tolheria o passo, porque ela só pareceria o que quisesse parecer: se encontrasse um soldado ele veria nela um superior, e lhe faria a continência militar devida aos oficiais; se encontrasse um paisano ele julgaria ver um padre debaixo da umbela, que ia levar o Sacramento a algum enfermo.

Foi justamente o que sucedeu quando ela passou defronte do teatro da Paz. Havia espetáculo lírico, e o povo que durante o intervalo do segundo ato se aglomerava nas varandas do passeio e nas portas, viram passar um sacerdote sustentando a âmbula dos santos óleos:

Um pobre velho que passava pela calçada, na singeleza de sua crença, ajoelhou-se e depois seguiu seu caminho.

1/1
Menu

Fazer anotação