Capítulo XXXV - O Que se Diz a Bordo, da Rainha do Ignoto e de Odete
XXXV - O Que se Diz a Bordo, da Rainha do Ignoto e de Odete
O Dr. Edmundo no dia seguinte só despertou em seu beliche, quando a sineta de bordo já tocava o segundo aviso para o almoço.
Tomou às pressas o seu traje de templário ou cavaleiro de S. João de Malta; pôs a máscara, e desceu para a mesa a continuar o seu papel de Odete.
Ali só o seu lugar achava-se desocupado, sendo ele preenchido começaram a servir os pratos da cabeceira, onde Ignez Racey como imediata tomava o lugar da comandante.
A Rainha do Ignoto afora nas ocasiões solenes mui raras vezes aparecia no meio das paladinas; haviam muitas entre elas que só a conheciam no caráter oficial. Não obstante conheciam muito os benefícios que lhes vinham dela, sempre compassiva e liberal para com todas:
Tratava de negócios ou empresas com muitas, discutia ciências ou letras com algumas; mas, à exceção de Clara Benício, sua médica, nenhuma entrava em conversação íntima com ela, e apesar de tudo a doutora nunca pôde passar do reposteiro do coração.
Elas então vingavam-se em sua ausência, formando juízos, discutindo opiniões a seu respeito, com a maior sem-cerimônia.
No fim do almoço, quando a conversação animava-se, Ignez Racey, gaiata de primeira ordem, ergueu o copo e disse:
- Bebamos os óbitos de nossos amores passados!
As mais travessas satisfizeram gritando:
- Viva a independência! Viva a alegria!
- Viva a música! exclamou Angelina Dulce, eu bebo a memória dos grandes maestros mortos, e a saúde dos vivos!
Clara Benício fez uma saúde ao Gênio unido ao Caráter.
- Onde está o Gênio? Onde está o Caráter? perguntou a orgulhosa Generalíssima.
- Está em seu camarote, respondeu a médica, é a nossa rainha, que reina pelo Gênio, pelo Caráter e pelo coração! Únicas fontes d'onde devia dimanar a lei para todos os povos.
- Bravo! disse Ignez Racey, mas o que me atormenta é não saber a sua história.
- Todas nós sabemos uma parte dela, a começar do dia em que entramos para seu serviço, disse a doutora.
- Muito bem! disse a paladina Octavia Milão, já nos sobra tempo para conhecer a vastidão de seu gênio, a nobreza de sua alma e a grandeza de seu coração.
- Não podemos contestar, volveu Martha Vieira; contudo dizem que foi pobre, lutou braço a braço com o infortúnio.
- Não se sabe ao certo, disse Angelina Dulce, o que parece é que sofreu muitos dissabores, injustiças que lhe doeram demasiado; do contrário não compreenderia tão bem as dores alheias.
- Afirmam, tornou Octavia Milão, que ela foi professora em um presídio e que dali vem a origem de sua imensa fortuna.
- Ora essa! Em que vai a senhora basear-se, disse Clara Benício, nos dizeres d'uma louca que existe no Purgatório da Ilha do Nevoeiro.
- Sim, uma louca, replicou Octavia Milão; mas muito original, capaz de impressionar qualquer médica...
- Que não seja Clara Benício, respondeu esta, pois tenho encontrado em minha clínica outras muito mais originais, como por exemplo aquela.
E apontou para Odete.
O Dr. Edmundo estremeceu com medo de ser observado; mas elas ergueram-se da mesa ainda discutindo a questão, e foram continuá-la no castelo de popa, onde já encontraram a Rainha do Ignoto contemplando o mar.
Ela tomou parte na discussão.
- Protesto! doutora: contra a sua Ciência; e, afirmo-lhe que Odete não é doida.
- Mas porque se obstina em não falar? Ela tem a língua, que é o órgão da palavra, tão perfeita como a nossa, não existe naquela garganta e na abóbada palatina nenhuma lesão que prive os sons vocais, disse a doutora, e então?
- Em parte, doutora, você tem razão, tornou a rainha, porque o amor em certas pessoas é uma enfermidade moral muito vizinha da loucura; mas torno-lhe a afirmar que a resolução de Odete em não falar é uma precaução sensata, louvável! Eu faria o mesmo.
- Pode ser; mas é isto inexplicável! disse Clara Benício em ar de dúvida.
- Não estudei a ciência de Esculápio, disse a Rainha do Ignoto; mas mergulho profundamente na Psicologia, e enquanto os dignos discípulos de Galeno estudam a diátese do corpo, eu procuro n'alma mais do que suas leis e destinos, analiso os seus fenômenos. Das três principais faculdades que possuímos só foi afetada em Odete a Sensibilidade, a Inteligência, e principalmente a Vontade lhe ficou intacta.
- Respeito muito os conhecimentos de Vossa Bondade; mas também tenho estudado o caráter e as faculdades intelectuais por meio do crânio e...
- Os meus argumentos não se baseiam na craniomancia, interrompeu a Rainha do Ignoto.
- Por obséquio não dê este nome irrisório à craniologia! Ela não é uma arte de adivinhar as disposições morais pela inspeção do crânio como a primeira; é uma ciência, um sistema como o de Gall.
- Vou provar o erro da sua ciência com provas reais, palpáveis, disse a Rainha do Ignoto, e saiu um instante.
A suposta Odete estava assustada com o resultado da discussão, e se tinha oculto por trás da escada; dali estava ouvindo, e também vendo às furtadelas.
A Rainha do Ignoto voltou trazendo duas fotografias embrulhadas separadamente em crepe negro, e uma caveira.
- Que significa este aparato fúnebre?! diziam as paladinas alvoroçadas.
- É para fazer experiências craniológicas, dizia Clara Benício muito risonha.
- Não se assustem, disse a Rainha do Ignoto sentando-se entre elas, presentemente não há estudos nem investigações, há fatos: devem lembrar-se que Odete ultimamente deu para passar os dias na biblioteca ou no gabinete de Ciências Naturais; pois bem, em uma bela tarde encontrei-a entre os livros folheando um tratado de filosofia.
- E o que prova isto?
- Ainda nada; mas vejamos o que se segue, disse a Rainha do Ignoto: depois daquele dia comecei a observá-la, e cada vez mais me convencia de que ela não tinha perdido a razão; não me enganei. Na manhã do aniversário de sua desdita fui encontrá-la no gabinete de Ciências Naturais ajoelhada diante deste crânio...
- Mais uma prova de sua loucura! disse Clara Benício triunfante.
- E a senhora ignora de quem foi este crânio? perguntou a Rainha do Ignoto.
- Lá existem tantos! não sei qual é o que nos apresenta agora.
- É o da velha ama de Odete, disse ela, e entrei sem ser pressentida, a pobrezinha soluçava diante dos restos daquela que morreu de desgostos pela desgraça que ferira a sua menina desaparecida na noite do casamento da mãe. Quando ela desabafou em pranto a sua saudade, tirou do seio estas fotografias: a daquele que amou não se atreveu a desembrulhar do crepe; mas esta, da mãe, olhou para ela por algum tempo, e com um gesto terrível de desespero atirou-a para longe de si; e, olhe doutora, que eu ouvi-a dizer com voz clara: Vai-te, tu não eras mãe! Depois, como tocada de um súbito arrependimento, apanhou do chão o retrato, beijou-o, apertou-o sobre o peito, e tornou a soluçar. Perdão! perdão! dizia baixinho, quero morrer para não te odiar. E continuou a beijá-lo. Eu apareci de repente, ela fugiu precipitadamente e deixou cair os retratos, guardei-os, e fiz-lhe o favor de subtraí-los.
- Não me convence ainda, disse a doutora Clara Benício, isto foi um momento de lucidez.
- Pois quer prova mais convincente do que essa luta da sensibilidade em que o sentimento é vencido pela razão? Não vê que a vontade tem sido a faculdade mais ativa e mais poderosa desta infeliz? Ela não fala porque sente que em seu desvario de amor traído pode dizer alguma palavra ofensiva ou desrespeitosa contra aquela que devera amá-la até ao sacrifício e tornou-a desgraçada até a suposta loucura!
- Que bom advogado perde o foro! disse Clara Benício, rindo.
- É certo; mas se tenho jeito para defender a justiça, o direito, não tenho menos para curar as almas doentes; mas, vós fostes que erraste a carreira, pois daveis para um bom promotor! disse a Rainha do Ignoto.
- Nada: falei baseada na ciência, e disse a opinião.
As nuvens iam-se amontoando. Fazia um calor abafadiço.
As paladinas dispersaram-se pelo convés e alguma examinando os vapores que se formavam na atmosfera predizia tempestade.