Capítulo XVI - A Missa e a Comunhão das Meninas A Rainha do Ignoto · Capítulo 16 de 70
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Capítulo XVI - A Missa e a Comunhão das Meninas

XVI - A Missa e a Comunhão das Meninas

O dia 31 de maio despontou esplêndido! Era domingo.

O sol brilhava no azul do céu derramando nos cálices das flores seus raios luminosos, como um cintilar de diamantes!

A povoação tinha um ar festivo! e o sino da freguesia repicando sempre, chamava os fiéis ao concurso da Glória de Deus.

De todos os lados se viam chegar grupos de camponeses em seus trajes domingueiros, vinham de semblante alegre, e alma despreocupada.

Este trazia uma trouxa na ponta dum cajado que suspendia ao ombro, e também puxava pela mão um rapazinho de sete anos, com seu mal talhado uniforme de chita vermelha com flores azuis:

Aquele vinha seguido por um pai velho e cego, a quem guiava pelo caminho da igreja, puxando-o pela ponta do bastão:

Aquele outro marchava fumando o seu cachimbo, ao lado duma mulher robusta e moça que trazia nos braços uma criança de mama para levar à pia batismal.

A recém-nascida enchia os ares com seus vagidos, e encantava a vista das comadres que não cessavam de admirar-lhes os cueiros de labirinto defumados com alfazema, e seu barrete de seda ornado de flores e laços de fita.

O povo atropelava-se na larga rua, e formava diversos círculos no pátio da igreja, ao pé do cruzeiro.

Via-se aqui e ali, presos às árvores, cavalos relinchando, mastigar o freio, fazendo estringir o solo com o bater das patas.

Nas proximidades laterais da igreja avistava-se uma latada coberta de melão de S. Caetano: por entre as verdes folhas da trepadeira silvestre pendiam os frutos amarelos, alguns deixando ver pela abertura do pericarpo as sementes vermelhas picadas pelos passarinhos.

Ali nessa latada, sobre um tosco banco de pinho, estava um burguês sacudindo dos pés o pó do caminho, e estalando as meias e os grossos coturnos engraxados.

Dum lado dele duas mulheres, pegando cada uma numa ponta, dobravam, ao meio, o clássico lençol, espécie de xales de madapolão com babados de cassa de quadro, à roda, o qual usam as sertanejas do Ceará.

A missa, a poética missa do dia, aquela para a qual as camponesas guardam o seu vestido novo, o seu lenço de seda, a sua volta de missangas, naquele domingo, em vez de ser às dez horas como do costume, ia ser às oito por causa da comunhão das meninas.

Já muitas delas se reuniam na porta da professora; mas, alguma mais atrasada em fazer os cachos ou apertar a fita azul à talabarte vinha saindo de casa, vestida de branco, com longo véu de noiva e grinalda, trazendo na mão esquerda o manual, e erguendo na direita uma vela de cera branca enfeitada com flocos de papel dourado.

A mãe daquela que partia em direção à escola, ficava à janela, radiante, elevada, como a própria criança em sua inocente vaidade.

Colocadas duas a duas desfilaram elas pela rua seguindo o anjo que levava a bandeira da escola.

D. Raquel ia dum lado, elas cantavam um hino religioso próprio do ato.

O povo apinhava-se para ver passar aquelas meninas, marchando compassadamente, com os olhos baixos e o semblante recolhido em êxtase divino!

Ao passarem pela frente da casa de D. Matilde as mais curiosas ergueram a vista para as rótulas fechadas por onde escapava um cheiro de incenso e seguiram absorvendo aquele perfume sagrado que se queimava ali para preservar os vivos do hálito dos mortos.

Elas entraram na igreja, tomaram seus lugares, e começou a cerimônia.

Uma leu em voz alta o ato de fé, e ainda mais outra o de esperança, findo o qual desceu o sacerdote do altar-mor até a grade, aonde elas iam duas a duas receber a partícula sagrada, e voltavam de mãos postas, olhos no chão, para os bancos no corpo da igreja.

Finda a missa começaram os batizados.

Ninguém se entendia, era um borborinho imenso!

Além do vagido das criancinhas, quando o padre lhes metia nas bocas choronas a pedra de sal, que as obrigava a fazer caretas, ou quando o padrinho as levava à pia para o banho gelado em corpo quente, era a algazarra das mães, das avós, que não se fartavam de falar de tudo que tinham visto.

Uma perguntava:

- O que tem hoje ainda da festa?

Outra respondia:

- Tem procissão, oferta das flores...

- E o enterro da santa, acudiu um menino.

- Que santa? menino, quem sabe lá de quem morre?

- É certo, minha tia, apareceu um pombo trazendo uma grinalda e uma carta do céu.

- Eu hei de saber disso quando falar com o senhor vigário.

- Comadre, disse uma velha, esta terra está cheia de feitiços, de bruxarias! Não seja isto arte da Funesta?

As mulheres saíram da igreja, cujas portas o sacristão acabara de fechar, e foram continuar os comentários em casa com as vizinhas.

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