Capítulo XXII - A Confidência do Caçador de Onças
XXII - A Confidência do Caçador de Onças
Depois da noite de S. João, tão alegremente passada na fazenda do Sr. Martins, o Dr. Edmundo tornou a pensar na misteriosa carta da Funesta; estava decidido a não voltar à gruta, porque reconhecia a inutilidade de seus esforços ali para o conhecimento da realidade.
Então começou todas as tardes a dirigir passeios a cavalo para as imediações da cabana do caçador de onças.
Não se enganou, era aquele o ponto fraco da fortaleza, que parecia inexpugnável!
Encontrando-se algumas vezes com o caçador de onças procurou motivo para dirigir-lhe a palavra, e com tal fortuna, que captou-lhe a simpatia, e depois a confiança:
Já conversavam como amigos velhos, sentados sobre um tronco ou sobre uma pedra na ribanceira do rio.
Ele tinha dito ao Dr. Edmundo que a fada da gruta não podia ser conhecida por ninguém, porque era um fenômeno de mulher, sem exemplo em país algum! Mas isto longe de acalmar a curiosidade do moço aguçou-a mais, e pediu-lhe que lhe contasse, como travou relações com tão extraordinária criatura.
O velho caçador prometeu-lhe fazer a vontade, e aproveitando a ausência de Diana, sua suposta filha, introduziu-o na cabana. Já era noite: fê-lo sentar ao pé duma mesa, onde tinha colocado uma garrafa e dois copos, e sentado defronte dele, começou assim:
No começo de minha vida não fui feliz, e ainda não sou; mas quem sabe se o Sr. não será o porteiro de minha felicidade?!
O Dr. Edmundo não gostou muito do dito do Sr. Probo, o caçador de onças; mas afinal, guardou silêncio esperando a confidência.
- Há cinco anos atrás, disse Probo, eu era guarda-livros duma casa comercial numa capital do sul do Brasil, ganhava seis contos anuais. Para um casal sem filhos, embora, lhe parece que chegava?
- Era suficiente, respondeu o Dr. Edmundo.
- Não foi, Dr. Eu despendia muito, endividei-me. Gostava de jogar um bocadinho, de tratar-me bem, de aparecer nas altas rodas, ser franco com os amigos; eis o que deu em resultado um desfalque no cofre do patrão. Desfalque superior a cinquenta contos!
O patrão estava para a Europa, e eu tinha ficado com a gerência da casa. Quando ele voltou foi dar balanço, tomar conta do que me havia entregado na maior confiança. Nesse mesmo dia voltei para casa em desespero! Estaria em breve desonrado, numa cadeia! Pensei em dar um tiro na cabeça. Sem dizer coisa alguma a minha mulher saí às dez horas da noite e dirigi-me à praia. Nem uma estrela brilhava no firmamento escuro, carregado de nuvens!
Ali à beira-mar me detive ainda alguns instantes ouvindo o surdo rumor das ondas. E com a alma no maior desequilíbrio voltei o rosto para a cidade, cuja iluminação dançava-me na vista como relâmpagos em zigue-zague.
Disse-lhe um adeus extravagante! um adeus de louco! Tirei o revólver, ia disparar quando senti o pulso apertado por uma força estúpida! Voltei-me, e vi atrás de mim King, aquele feio orangotango que o Sr. já conhece e o povo chama de demônio.
O mono tomou-me o revólver, e me segurava fortemente olhando para a costa, onde estava um escaler; dali saiu um vulto pequeno, vestido de preto e trazendo na mão uma lanterna furta-fogo. Era uma mulher, que apenas aproximou-se, atirou para ele um maço de cordas de seda.
O animal, como se fosse o servo mais inteligente deste mundo, prendeu-me os pulsos e tomando-me nos braços seguiu a mulher da lanterna em direção ao escaler.
Não fiz o menor movimento, deixei-me levar como um fardo... estava estonteado! bêbado de angústia!
Dentro em pouco tempo chegamos à borda dum vapor de aparência muito comum; mas singularmente estranho para aquele que pela primeira vez entra em seu portaló!...
Deixaram-me só e livre no salão de ré: depois de alguns minutos tornou a aparecer o orangotango e sua senhora, que trazia o rosto coberto com uma máscara de seda.
Ela sentou-se ao pé de mim, e disse com a voz mais doce e mais triste que já ouvi em minha vida:
- Senhor, diga-me a causa que o levou àquele ato de desespero, porque lhe darei remédio, salvo se for paixão mal correspondida, uma deslealdade...
- Senhora, respondi-lhe, o que me falta é dinheiro... muito dinheiro!
- Quanto? perguntou ela.
- Não mo podereis dar, respondi enfadado, deixe-me seguir o meu destino...
- Quem vos disse que eu não posso remediar o vosso mal? tornou ela, trezentos ou quinhentos contos que sejam precisos para salvar a vida dum infortunado, não serão bastantes para abalar as finanças da Rainha do Ignoto.
- É rainha! exclamou Edmundo admirado, é tão rica assim!
- Não admito apartes, disse Probo, o caçador de onças, deixe-me acabar:
- Basta-me cinquenta contos, respondi-lhe, é o que presumo haver de desfalque; então contei-lhe o sucedido.
- É bagatela! disse, vou dar-vos esta quantia, ide restituí-la; mas, com a condição de voltar para bordo trazendo vossa esposa.
- De hoje em diante, disse eu, seremos vossos escravos, iremos para onde quiserdes.
- No dia seguinte, já livre do compromisso, às mesmas horas da noite fui para bordo levando Roberta, minha mulher: foi então que com o espírito mais calmo pude reparar no extraordinário que me cercava!
- O Tufão levanta o ferro, disseram.
- E o Neblina? perguntaram.
- Já seguiu, responderam.
- O Grandolim também?
- Está fora da barra.
- Grandolim! disse o Dr. Edmundo, é o nome duma ave da Arábia deserta.
- Sim, mas que ela achou próprio para uma de suas embarcações.
- Ela tem muitas embarcações? perguntou o Dr. Edmundo.
- Tem, respondeu Probo, mas só navega no Tufão, vapor construído a seu modo, muito ligeiro, um armazém de fantasias...
- Serão piratas que o Sr. encontrou? inquiriu o Dr. Edmundo.
- O Sr. vai sabendo e julgando por si mesmo, disse Probo, e continuou:
- Na primeira noite da partida recolhi-me cedo ao camarote, sentindo os efeitos do enjoo; mas a Roberta que resiste bem ao jogar do navio e ao cheiro da maresia, ficou em observação, e voltou a dizer-me:
- Oh! Probo, que coisa esquisita! Entre as passageiras do Tufão não existe um homem! Comuniquei minha admiração a uma criada, que pelo que parece, também é nova aqui, e ela me disse que nem só as passageiras são mulheres, como toda a tripulação!
- É singular! exclamei, estaremos nós nas mãos das Amazonas, essas mulheres guerreiras das quais nos fala a história?
Roberta ficou assustada e trêmula; não dormiu toda a noite, erguia-se sobressaltada a qualquer rumor.
Ouvimos falar no camarote vizinho e escutamos, diziam:
- A rainha não teme inconveniência alguma da parte deste velho nem de sua mulher, primeiro: porque só ela tem a ponta do novelo em que nos enrola neste labirinto, segundo: porque a gratidão lhes há de paralisar a língua.
- Mas, disse outra voz, que emprego terá no Ignoto este barba de Herodes?
Ia protestar contra a ofensa feita às minhas barbas; mas a Roberta pôs-me a mão na boca e olhou-me suplicante.
Eu não participava do medo de que ela estava possuída: as vozes continuaram:
- Este só poderá servir para apanhar moscas, as empresas arriscadas serão sempre nossas, eles deviam ter ido para bordo do Grandolim, é para lá que se mandam estes fardos.
- O Grandolim, respondeu outra voz, não é para fardos, serve de refúgio, vive ao serviço dos infelizes que choram no deserto da vida os seus amargos destinos.
- E quem é no Tufão que não tem uma história dolorosa nos anais do sentimento, quem não vegeta aqui sob os destroços dum coração despedaçado?!
- Nossa rainha não tem história, disse a primeira.
- Quem garante isso? volveu a segunda, se nunca lhe vimos uma lágrima, se não lhe conhecemos as dores d'alma é porque só se nos apresenta sob a proteção daquela máscara.
- Quase que não dorme, se ela nos ouve... não tens medo?
- Ora, quem tem medo duma mãe? Não é o que tem sido para nós?
Restabeleceu-se o mais profundo silêncio, e eu fiquei sabendo que a minha salvadora não era nenhuma amazona nem pirata, mas a ideia importuna de saber quem era esta Rainha do Ignoto ficou sendo uma canseira para mim, depois me dissuadi...
- E o senhor ainda não sabe quem ela é? perguntou o Dr. Edmundo admirado.
- Nem eu, nem ninguém no mundo o sabe!
- É possível?! Senhor Probo, diz-me isto para afastar-me do caminho dessa mulher; não tem confiança em mim, eis tudo.
- Não duvide de minha palavra, Dr. Sei coisas muito extraordinárias desse reino verdadeiramente ignoto; mas quem é a sua rainha, palavra que não sei.
- E o que viu mais durante essa viagem?
- Vi muitos rostos femininos de diversos graus de beleza em corpos robustos metidos em trajes próprios para o serviço da embarcação, outros elegantes uniformizados segundo o lugar que ocupavam junto à rainha ou naquela sociedade impenetrável!
- Impenetrável por quê?
- Porque é volante: vive nos mares, vive em terra, debaixo do chão! e até nos ares!...
- O senhor parece que tem gosto em consumir-me a paciência.
- Nada, doutor, nos primeiros dias eu também fiquei assim como aturdido! Tais eram as maravilhas que me cercavam! Eu nem me julgava com inteligência para apreciá-las. No primeiro porto a que chegamos, ela me mandou chamar à sua presença e disse:
- Senhor Probo, o comandante real do Tufão sou eu; mas a visita vem ali, e o senhor tem de representar de comandante em presença do oficial externo da polícia. Aqui estão escritas as instruções precisas... Olhe, o vapor tem de passar à vista de todas as autoridades e de todos os visitantes por um vapor muito comum de marinha mercante, pertencente a uma rica e poderosa casa comercial. Não receie coisa alguma; não há embaraço, porque tudo está disposto em ordem, e com previdência... até o carregamento.
- E o senhor apresentou-se como comandante?
- Não tive a menor dúvida, recebi a visita, fiz chamar a imediata que representou muito bem de imediato; e tudo se passou como é de praxe, sem o menor desacerto! Desembarquei, fui à capitania do porto, passeiei na cidade, e à tardinha voltei para bordo como um verdadeiro comandante.
- E ela o que fez?
- Não sei; quando voltei à noite encontrei a Roberta com uma carga de notícias para dar-me: a Brasília, camareira da rainha, que havia desde princípio simpatizado com ela, lhe contara muitas coisas: dissera-lhe que a rainha do Ignoto era uma criatura extraordinária! incompreensível! que possuía uma fortuna imensa! numa ilha muito perto da costa; mas que nunca navegante algum deu com o caminho para lá chegar.
- Isto é certo? perguntou o Dr. Edmundo.
- Tão certo como estarmos aqui a falar dela. Ninguém ainda foi lá, porque não se atreve a afrontar com os perigos do mar; pois está rodeada de sirtes, de escolhos e farelhões pontiagudos e empinados acima d'água que mete medo. Com tudo isto o Tufão, o Neblina, ou o Grandolim aportam a curta distância, e elas vão até lá nos botes, por um caminho que só é conhecido pela própria Rainha do Ignoto.
- Parece um conto, senhor Probo.
- Parece, doutor; mas é verdade. Até agora nenhuma das Paladinas do Nevoeiro, pois assim se chamam as do bando ou sociedade, pôde descobrir de quem descende esta mulher, aonde aprendeu as ciências de que dispõe, as artes que utiliza. É duma atividade, duma energia portentosa! Tem agentes em todos os países e em todas as capitais do Brasil, corresponde-se com cada um deles com um nome diferente ou firma comercial, sendo preciso, e nenhum ainda desconfiou da existência deste colosso de gênio! Em cada porto que chega expede ordens, toma contas, age a seu modo, e tudo se passa no seio das grandes cidades tão invisível como os fenômenos celestes nos espaços desconhecidos! As Paladinas do Nevoeiro nunca lhe viram o rosto, porque só tira a máscara para os estranhos, fora do Ignoto, conforme o papel que ela quer representar no mundo: ora é filha do caçador de onças e Funesta ou fada da gruta do Areré, como tem sido neste burgo, de outra vez é modista, é marquesa, é o diabo! é tudo! até alma!
- Basta! Sr. Probo, estou fatigado, voltarei amanhã para continuarmos o assunto.
- Sim, senhor, estaremos sempre às suas ordens; mas muito cuidado! Não me comprometa. Quando ela estiver por cá, o que lhe avisarei, não se aproxime da cabana.
- Terei cuidado de procurá-lo antes, no ponto marcado à margem do Jaguaribe. Até amanhã.