Capítulo 2 - A carta e a casa das mulheres sós
Capítulo 2 - A carta e a casa das mulheres sós
Depois que a música me toma, tudo fica mais simples. Brague me atira ao chão, a luz me sustenta, o público rosna, a poeira do palco sobe junto com o cheiro de tabaco frio, cachorro molhado e flor barata. O bairro gosta de nós quando o número encaixa sem hesitação. Naquela noite, gostou muito. Vieram aplausos, impropérios afetuosos, assobios, e um pequeno buquê de cravos desmaiados acertou o canto da minha boca com a intimidade brutal das plateias populares.
Levei os cravos comigo. Cheiravam a pimenta, fumaça e casaco úmido. Levei também uma carta acabada de me entregarem. Um homem sentado na primeira fila dizia admirar meu talento de mímica e insinuava, com a vulgaridade polida dos convencidos, que eu possuía outros talentos mais privados, mais raros, mais dignos de serem apreciados durante um jantar. Assinava-se marquês de Fontanges, o que já bastava para transformá-lo num parente imaginário de toda a nobreza de balcão que frequenta os cafés do bairro.
Esses títulos inventados me divertem menos do que cansam. Há homens que desejam a grande vida com tanto ardor que a improvisam no papel timbrado do ridículo. Um vira marquês à mesa do Delta, outro oferece chá numa garçonnière como se encenasse um romance lido depressa demais. Debaixo das casquettes e dos modos de boulevard, ainda fermenta essa devoção pela etiqueta, pelo brasão, pelo verniz social. O desejo masculino, quando quer se sentir distinto, fantasia-se de aristocracia.
Fecho a porta de casa com um suspiro que não tento explicar. Pode ser fadiga, pode ser alívio, pode ser a angústia de voltar sozinha. Não vale a pena nomear tudo. A noite de dezembro pesa sobre a rua como uma poeira gelada. O bairro novo, branco, mal acabado, parece uma maquete mal iluminada. Sob o gás esverdeado, a rua inteira se desfaz em tons de sobremesa derretida: marrom, caramelo, creme sujo, restos de um doce que alguém deixou cair no frio.
Minha casa, quase solitária no alinhamento ainda incerto da rua, oferece o tipo de abrigo modesto que se concede a mulheres sem marido visível e sem respeitabilidade doméstica. Quando se é uma dame seule, aceita-se o teto que aparece. Aguenta-se o cheiro dos rebocos novos, o rumor das paredes finas, a vigilância da portaria, a curiosidade moral dos outros inquilinos.
A casa inteira abriga mulheres sós, cada qual com sua forma particular de dependência. Há a amante titular de um homem rico, a companheira mantida com discrição, duas irmãs loiras que recebem sempre o mesmo senhor muito correto, uma pequena devoradora de noites que faz do quarto de cima uma guerra de piano, gritos e garrafas vazias. E há eu, no rés-do-chão, que não faço barulho suficiente nem para satisfazer a concierge.
Para ela, sou um escândalo mal executado. Não recebo bastante gente, não toco piano, não represento em casa o papel que esperam de uma artista. O silêncio a desconcerta mais do que a desordem. A barulhenta do quarto andar é a vergonha declarada da casa; eu sou o enigma seco, sem provas bastante para ser condenado, sem inocência bastante para ser absolvido.
Essa condição de mulher só altera tudo, até a temperatura do quarto. O calor do fogão cheira a remédio, a cadela me olha sem sair da cesta, a empregada esqueceu a bolsa de água quente, e o apartamento parece me receber com uma cortesia hostil. É pouco, é feio, é cansado. Mas é meu. Entre o tumulto da sala e o sossego suspeito desta casa, continuo existindo nesse intervalo estreito onde uma mulher trabalha, paga aluguel e tenta não dever sua respiração inteira a ninguém.
Não é uma vitória grandiosa. É uma forma de resistir.