Capítulo 38 - A verdade de Margot A Vagabunda · Capítulo 38 de 77
Obra Menu

Capítulo 38 - A verdade de Margot

Capítulo 38 - A verdade de Margot

Confessarei tudo a Margot: minha recaída, minha felicidade, o nome daquele que amo. Custa-me. Margot não é mulher do eu bem que avisei, mas creio que vou entristecê-la, decepcioná-la, sem que ela demonstre.

Gata escaldada, você voltará à caldeira. Certamente volto, e com que coração.

Encontro Margot imutavelmente igual a si mesma no grande ateliê onde dorme, se alimenta e cria seus cães brabançons. Alta, reta, em blusa moscovita e longa jaqueta preta, inclina o rosto pálido de faces romanas, os cabelos grisalhos e ásperos cortados abaixo da orelha, sobre uma cesta onde se mexe um pequeno aborto amarelo: um cão minúsculo em camisa de flanela, que ergue para ela uma testa abaulada de bonzo e belos olhos suplicantes.

Ao meu redor latem e se agitam seis pequenas criaturas atrevidas que um estalo de chicote precipita para os ninhos de palha.

— Como, Margot, ainda outro brabançon? Isso é paixão.

— Ah, Deus, não — diz Margot, sentando-se diante de mim, embalando nos joelhos a criatura doente. — Não amo essa pobrezinha.

— Deram a você?

— Não. Comprei, naturalmente. Isso me ensinará a não passar mais diante do negociante de cães, aquele velho bandido do Hartmann. Se você visse essa brabançona na vitrine, com a pequena cara de rato doente, a espinha em rosário saliente e, sobretudo, aqueles olhos. Quase só uma coisa ainda me toca, sabe: o olhar de um cão à venda. Então comprei. Está meio morta de enterite; isso nunca aparece na loja, eles as dopam. Diga, minha filha, faz muito tempo que não vejo você. Está trabalhando?

— Sim, Margot. Estou ensaiando.

— Dá para ver. Você está cansada.

Ela me toma o queixo, com seu gesto familiar, para erguer e atrair meu rosto. Perturbada, fecho os olhos.

— Sim, está cansada. Envelheceu — diz ela, com voz profunda.

— Envelheci. Oh, Margot.

Todo o meu segredo escapa nesse grito de dor, com um fluxo de lágrimas. Refugio-me contra minha severa amiga, que me acaricia o ombro com o pobre pequeno com que tranquilizava há pouco a brabançona doente.

— Vamos, vamos, pobre pequeno. Isso passa. Aqui está água boricada para lavar seus olhos. Eu acabava de preparar para os olhos de Mirette. Não com o lenço. Pegue algodão hidrófilo. Pronto. Pobre pequeno, você precisa tanto assim de sua beleza neste momento?

— Oh, sim. Oh, Margot.

— Oh, Margot. Parece até que bati em você. Olhe para mim. Está com muita raiva de mim, pobre pequeno?

— Não, Margot.

— Você sabe — prossegue ela, com voz igual e doce — que deve encontrar sempre aqui todo tipo de socorro, mesmo o mais cortante de todos: a verdade. O que eu disse? Disse que você envelheceu.

— Sim. Oh, Margot.

— Vamos, não recomece. Mas envelheceu esta semana. Envelheceu hoje. Amanhã, ou daqui a uma hora, terá cinco anos a menos, dez anos a menos. Se tivesse vindo ontem, ou amanhã, talvez eu dissesse: veja, você rejuvenesceu.

— Pense, Margot, logo terei trinta e quatro anos.

— Reclame. Eu tenho cinquenta e dois.

— Não é a mesma coisa. Margot, preciso tanto ser bonita, ser jovem, ser feliz. Eu tenho... eu...

— Você tem um amante?

Sua voz continua doce, mas a expressão de seu rosto mudou ligeiramente.

— Não tenho amante, Margot. Só que não há dúvida de que vou ter um. Mas eu o amo, sabe.

Essa espécie de desculpa ingênua diverte Margot.

— Ah, você o ama? Ele também a ama?

— Oh.

Com um gesto orgulhoso, protejo meu amigo da menor suspeita.

— Está bem. E que idade ele tem?

— A minha, Margot. Quase trinta e quatro.

— Está... está bem.

Já não encontro nada a acrescentar. Fico terrivelmente embaraçada. Eu esperava, passado o primeiro constrangimento, tagarelar minha alegria, contar tudo sobre meu amigo: a cor dos olhos, a forma das mãos, sua bondade, sua honestidade.

— Ele é... ele é muito gentil, sabe, Margot — arrisco timidamente.

— Tanto melhor, minha filha. Vocês têm projetos?

— Projetos? Não. Ainda não pensamos em nada. Temos tempo.

— É justo. Há muito tempo. E a turnê, o que acontece com ela em tudo isso?

— Minha turnê? Bem, isso não muda nada.

— Você leva seu... seu indivíduo?

Não consigo, ainda molhada de lágrimas, deixar de rir. Margot designa meu amigo com uma discrição desgostosa, como se falasse de alguma coisa suja.

— Levo, levo... quer dizer... Na verdade, Margot, não sei. Verei.

Minha cunhada ergue as sobrancelhas.

— Você não sabe. Não tem projetos. Vai ver. Vocês são espantosos, palavra. Em que pensam então? Vocês só têm isso a fazer: projetar, preparar o futuro.

— O futuro. Oh, Margot, eu não gosto dele. Preparar o futuro... Ele se prepara muito bem sozinho e chega tão depressa.

— Trata-se de casamento ou de ligação?

Não respondo imediatamente, constrangida pela primeira vez pelo vocabulário cru da casta Margot.

— Não se trata de nada. Estamos nos conhecendo, nós dois. Estamos nos aprendendo.

— Se aprendendo.

Margot me observa, a boca apertada, com uma alegria cruel nos pequenos olhos luminosos.

— Se aprendendo. Entendo. É o período em que se desfila um para o outro, não é?

— Garanto, Margot, que quase não desfilamos — digo, forçando um sorriso. — Esse jogo serve para amantes muito jovens, e nós dois já não somos amantes muito jovens.

— Razão a mais — replica Margot, impiedosa. — Vocês têm mais coisas a esconder um do outro. Minha pequena, você sabe que deve rir da minha mania. O casamento me parece uma coisa tão monstruosa. Não a fiz rir bastante contando que, logo nos primeiros dias de casada, recusei dividir quarto com meu marido porque achava imoral viver tão perto de um rapaz estranho à minha família? Nasci assim. Que quer? Não vou me corrigir.

Então muda, como quem fecha uma gaveta:

— Você não trouxe Fossette hoje?

Faço, como Margot, um esforço para me alegrar.

— Não, Margot. Sua matilha a recebeu tão mal da última vez.

— É verdade. Minha matilha não está brilhante neste momento. Venham, aleijadinhas.

Elas não se fazem chamar duas vezes. De uma fileira de casinhas surge, pequeno rebanho trêmulo e miserável, meia dúzia de cães dos quais o maior caberia no fundo de um chapéu. Conheço quase todos: salvos por Margot do negociante de cães, arrancados daquele comércio imbecil e maléfico que enfia na vitrine animais doentes, empanturrados ou famintos, alcoolizados.

Alguns voltaram a ser, com ela, bichos sadios, alegres, robustos; outros guardarão para sempre o estômago estragado, a pele doente, uma histeria indelével. Margot os trata como pode, desencorajada por pensar que sua caridade não serve para nada e que haverá eternamente cães de luxo à venda.

A cadela doente adormeceu. Não encontro o que dizer. Olho a grande sala, que parece sempre um pouco enfermaria, com as janelas sem cortina. Sobre uma mesa alinham-se frascos de farmácia, bandagens enroladas, um termômetro minúsculo e uma pequena pera de borracha para os lavamentos dos cães. Cheira a tintura de iodo e desinfetante.

De repente, tenho vontade de ir embora, de reencontrar imediatamente, imediatamente, meu cubículo estreito e quente, o divã afundado, as flores, o amigo que amo.

1/1
Menu

Fazer anotação