Capítulo 48 - O abrigo e não o lar
Capítulo 48 - O abrigo e não o lar
Fossette deslizou entre nós seu crânio de bonzo, reluzente como jacarandá. Minha pequena companheira fareja a partida. Reconheceu a mala de cantos esfolados e o impermeável; viu a caixa inglesa esmaltada de preto, o estojo de maquiagem. Sabe que não a levarei. Dobra-se de antemão a uma vida, aliás mimada, de passeios com Blandine nos fortins, de noites na portaria, de jantares fora e lanches no Bois. Eu sei que você voltará, dizem seus olhos oblíquos, mas quando?
— Max, ela gosta muito de você. Você cuidará dela?
Ora essa. Basta nos inclinarmos juntos sobre essa pequena inquieta para que nossas lágrimas transbordem. Reprimo as minhas, num esforço que me dói na garganta e no nariz. Como são belos os olhos do meu amigo, aumentados pelas duas lágrimas luminosas que molham seus cílios. Ah, por que deixá-lo?
— Vou buscar daqui a pouco — murmura ele, estrangulado — uma bela bolsinha que encomendei para você. Muito sólida. Para a viagem.
— É verdade, Max?
— Em... em couro de porco.
— Max, vamos. Tenha um pouco mais de coragem que eu.
Ele assoa o nariz de modo revoltado.
— Por quê? Não faço questão de ter coragem, eu. Pelo contrário.
— Estamos ridículos. Nenhum de nós dois teria ousado se enternecer por si mesmo. Fossette serviu de excitante à nossa emoção. É o golpe da pequena mesa de Manon e do regalo de Poliche, lembra?
Maxime enxuga os olhos longamente, cuidadosamente, com a simplicidade que leva a todas as coisas e que o salva do ridículo.
— É bem possível, minha Renée. Aliás, se quiser que eu me transforme em fonte, basta me falar de tudo que a cerca aqui, neste pequeno apartamento, tudo que não verei mais antes da sua volta. Esse velho divã, a poltrona onde você se senta para ler, seus retratos, o raio de sol que caminha sobre o tapete, do meio-dia às duas.
Ele sorri, muito comovido.
— Não me fale da pá, da lareira nem das pinças, que aí desabo.
Partiu para buscar a bela bolsinha de couro de porco.
— Quando estivermos juntos — disse-me carinhosamente antes de sair —, você me dará os móveis deste pequeno salão, quer? Mandarei fazer outros para você.
Sorri, para não recusar. Esses móveis, na casa de Max? Esses destroços da mobília conjugal, abandonados por Taillandy em irrisória compensação dos direitos autorais que outrora me subtraiu, não os substituí por falta de dinheiro. Que copla da pequena mesa eu poderia cantar sobre esse carvalho fumê de pretensões holandesas, sobre esse velho divã ravinado por jogos aos quais eu não era convidada.
Mobília assombrada, onde tantas vezes acordei com o medo louco de que minha liberdade fosse um sonho. Singular presente de núpcias para um novo amante.
Um abrigo, e não um lar: é tudo que deixo atrás de mim. As caixas rolantes de segunda e primeira classes, os hotéis de toda ordem e os sórdidos camarins dos music-halls de Paris, da província e do estrangeiro me foram mais familiares, mais tutelares que isto que meu amigo chama de “um bonito canto íntimo”.
Quantas vezes fugi deste térreo, fugindo de mim mesma. Hoje, quando parto amada, apaixonada, eu me desejaria ainda mais amada, ainda mais amante, e mudada, e irreconhecível aos meus próprios olhos. É cedo demais, sem dúvida, e o tempo ainda não chegou. Mas, ao menos, parto agitada, transbordante de saudade e esperança, apressada de voltar, estendida para meu destino novo com o impulso brilhante da serpente que se livra da pele morta.