Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 6 A Vagabunda · Capítulo 69 de 77
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Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 6

Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 6

Às cinco, Lise já estava diante da porta dos fundos do café-concerto. Trazia os sapatos limpos do modo possível: esfregados com um pedaço de pano úmido, ainda abertos na sola direita, mas menos humilhantes à distância. A carta, dobrada contra o corpo, fazia um pequeno relevo sob o vestido. Era imprudente carregá-la sempre. Era mais imprudente deixá-la no quarto.

Madame Sorel abriu a porta antes que ela batesse.

— Você tem o vício dos pontuais.

— Isso é ruim?

— Tudo que os outros podem explorar vira ruim.

Entregou-lhe uma folha de papel grosso, um tinteiro e uma lista rabiscada com nomes, números de mesa, pedidos de camarote e observações que pareciam inocentes apenas para quem não soubesse ler.

— Copie limpo. Não invente elegância. O patron detesta floreio e adora fingir que entende contabilidade.

Lise sentou-se à mesa estreita da cozinha. A casa ainda estava no seu intervalo sem encanto. Uma costureira remendava a barra de uma saia com a linha presa entre os dentes. Um rapaz afinava um violino como se quisesse feri-lo. Ao fundo, alguém tossia repetidamente atrás de uma porta fechada.

Os nomes na lista formavam uma pequena sociedade noturna. Derval, mesa vermelha. Dois vereadores, mesa azul discreta. Um jornalista, entrada franca se vier sozinho. Uma viúva que pagava adiantado e nunca queria ser cumprimentada. Um capitão com dívida antiga. Uma atriz de outro teatro, não deixar entrar sem avisar Sorel.

Lise copiava devagar, cuidando para que cada letra obedecesse. Gostava daquela limpeza do papel, daquela ilusão de que o mundo pudesse ser organizado em colunas. Mas as notas à margem desfaziam a ordem: cuidado, cobrar antes, sorrir pouco, não contrariar se estiver com mulheres, avisar Octave.

— Sua letra é limpa demais — disse Madame Sorel, passando atrás dela.

— Devo piorá-la?

— Não. Só não deixe ninguém saber que entende o que escreve.

Antes que Lise respondesse, a porta fechada se abriu com violência. A pastorinha da primeira noite apareceu sem pintura, os cabelos presos de qualquer modo, um xale escorregando do ombro. Abaixo do olho esquerdo havia uma sombra roxa que a luz da tarde não teve a delicadeza de esconder.

— Eu não entro hoje — disse ela.

Madame Sorel não se moveu.

— Entra.

— Não com ele na sala.

— Ele pagou mesa.

— Eu pago com a cara?

A costureira abaixou os olhos. O violinista parou de ferir o instrumento. Lise manteve a pena suspensa, uma gota de tinta formando peso na ponta.

— Céleste — disse Madame Sorel, agora com uma voz sem arestas —, fale baixo.

— Falei baixo ontem. Olhe o resultado.

Ela puxou o xale e mostrou o pulso marcado por dedos. Não era teatral. Talvez por isso fosse quase indecente.

Lise sentiu uma cólera rápida, de moça ainda pouco treinada na administração das injustiças. Em Boulogne, se um homem apertasse o pulso de uma funcionária, haveria escândalo, registro, talvez demissão, talvez nada; mas haveria ao menos o luxo de fingir regra. Ali, o corpo de Céleste parecia ter entrado nas contas da casa.

— Quem foi? — perguntou Lise.

Todos olharam para ela. A pergunta caiu no chão como copo quebrado.

Céleste riu sem alegria.

— A nova ainda acha que nomes servem para alguma coisa.

Madame Sorel pousou a mão na mesa.

— Continue copiando.

— Mas se ela não quer entrar...

— Continue copiando.

A ordem era seca, mas por baixo dela Lise ouviu outra coisa: não se exponha antes de entender a sala. Obedeceu, embora a mão tivesse perdido a firmeza. Na linha seguinte, escreveu Derval com uma haste torta.

Céleste viu o nome.

— Esse também vem?

— Vem — disse Madame Sorel.

— Naturalmente. Os homens nunca faltam na noite seguinte.

Octave entrou com uma caixa de lâmpadas e parou ao perceber o ar.

— Ah. Estamos no ato sério.

— Cale-se — disse Madame Sorel.

Ele calou.

Isso assustou Lise mais do que se ele tivesse feito piada.

O patron chamou Madame Sorel do escritório. Ela hesitou uma fração, depois apontou para Lise.

— Você fica. Copia. Escuta se for necessário. Não decide nada.

Madame Sorel saiu. Céleste sentou-se na cadeira em frente a Lise, como se as pernas tivessem acabado.

— Você tem família? — perguntou.

— Tenho pessoas que acham que são.

Céleste a observou com algum interesse.

— Isso é resposta de quem fugiu.

Lise molhou a pena no tinteiro.

— Talvez.

— Não diga talvez em Paris. Os outros completam.

O silêncio que veio depois não era vazio. A casa rangia ao redor delas, preparando a noite, e cada ruído parecia ensaiar uma indiferença.

— Foi um homem da mesa vermelha? — perguntou Lise, baixo.

Céleste olhou para a porta do escritório.

— Foi um homem que compra garrafas para ter o direito de quebrar o que não é garrafa.

— Derval?

— Não. Derval ainda não toca sem plateia.

A frase ficou entre elas com uma precisão horrível.

— Então por que tem medo dele?

Céleste puxou o xale para cobrir o pulso.

— Porque ele vê. Alguns homens batem. Outros escolhem quem pode bater.

Lise pensou na moeda recusada, nos olhos interessados de Derval, na advertência de Octave. Você tem respostas demais para alguém sem proteção.

— E Madame Sorel não pode impedir?

— Sorel impede o que consegue. O resto ela reorganiza.

Não havia rancor na voz de Céleste. Isso tornava tudo pior.

O patron apareceu à porta.

— Céleste, camarim. Agora.

Ela não se levantou.

— Não canto.

— Seu contrato canta.

— Meu contrato não tem olho roxo.

O homem calvo sorriu sem mostrar os dentes.

— Seu contrato tem multa.

Lise sentiu a pena quebrar entre os dedos. O pequeno estalo chamou a atenção de todos.

— Desculpe — disse ela.

O patron olhou para a mancha de tinta no papel.

— A nova estragou a lista.

— Eu copio outra.

— Naturalmente. E aprende uma coisa útil: papel estragado custa menos que artista desobediente.

Céleste se levantou tão depressa que a cadeira tombou.

— Eu entro, então. Sorrio, canto, mostro a cara marcada e deixo todos rirem?

— Você sabe maquiar.

Foi Lise quem se ergueu agora. Não pensou. A decisão veio antes dela, essa velha deseducada.

— Se ela entrar assim, todos saberão.

O patron voltou os olhos para ela.

— E você é especialista em todos?

— Sou bilheteira. Vejo quem entra.

Octave, no canto, fechou os olhos como quem ouve uma nota alta demais.

— O público perdoa a tristeza — continuou Lise, a voz mais firme do que se sentia. — Não perdoa constrangimento. Se ela subir marcada, a sala vai olhar para a marca, não para a música. A primeira fila vai cochichar. O jornalista está na lista. O senhor quer uma notícia?

O patron não respondeu. Madame Sorel reapareceu atrás dele e ficou parada.

Lise viu, tarde demais, que havia feito algo mais perigoso do que defender Céleste: dera um argumento comercial para a piedade.

— Continue — disse o patron.

— Céleste não deve sumir. Isso também dá notícia. Mas pode aparecer no fim, com véu, em dueto, menos luz. Ou anunciar indisposição e pôr outra no lugar. O senhor perde menos.

— Perco?

— Menos do que perderia se todos perguntassem quem bate nas artistas da casa.

O silêncio seguinte foi tão comprido que Lise sentiu cada costura do vestido tocar sua pele. Céleste a fitava como se a odiasse um pouco por tê-la transformado em problema administrativo; talvez também por tê-la salvo assim.

O patron pegou a lista manchada.

— Sorel, ponha Céleste no dueto das onze. Pouca luz. A espanhola abre o número dela. E você — apontou para Lise — copia a lista de novo. Sem opiniões.

— Sim, monsieur.

— Opiniões, aqui, são descontadas.

Ele voltou ao escritório.

Madame Sorel esperou a porta fechar.

— Você não decidiu nada?

Lise baixou os olhos.

— Decidi mal?

— Decidiu cedo.

— É diferente?

— Muito.

Céleste pegou a cadeira caída e a pôs no lugar.

— Obrigada, talvez.

— Não diga talvez em Paris — respondeu Lise.

A artista sorriu com metade do rosto.

À noite, Monsieur Derval chegou no intervalo entre dois grupos de clientes. Comprou seu bilhete vermelho e olhou a lista nova sobre a mesa.

— Letra bonita.

Lise cobriu o papel com a mão.

— Dois francos.

— Disseram que a menina do caixa já aconselha o patron.

— Disseram errado.

— Ainda melhor. Quem influencia sem aconselhar chega longe.

Ele pousou as moedas exatas. Nenhuma a mais. Isso, por algum motivo, pareceu ameaça maior.

— Céleste canta hoje? — perguntou.

Lise não respondeu.

— Ah — disse ele. — Então canta.

Entrou sorrindo.

Lise trabalhou o resto da noite com a sensação de que cada bilhete destacado era uma pequena autorização para o mundo continuar. Às onze, Céleste apareceu no palco com um véu claro e luz baixa. Cantou em dueto com a espanhola, quase imóvel. Quem soubesse ver notaria o cuidado com que ela não virava o rosto. Quem não soubesse, aplaudiu a melancolia.

O público adorou. A tristeza, quando bem iluminada, parecia luxo.

Depois do número, Céleste passou pela bilheteria e deixou sobre a mesa uma flor de tecido, arrancada do próprio figurino.

— Para a lista — disse.

— Ela ficou limpa?

— Não. Mas ficou viva.

Madame Sorel, que conferia a caixa, fingiu não ouvir.

Mais tarde, no fechamento, faltaram cinco cêntimos. Lise procurou na gaveta, no chão, no bolso do avental. Nada.

— Eu pago — disse.

Madame Sorel anotou no caderno.

— Pagará.

— Por causa da lista?

— Por causa dos cinco cêntimos. A lista você pagará de outro jeito, se houver jeito.

Lise recebeu menos naquela noite. Ao contar as moedas, percebeu que não conseguiria pagar pão, quarto e sola. Escolher o que falta, pensou. Desta vez faltaria sola. Talvez amanhã faltasse orgulho. Talvez depois proteção.

Na porta dos fundos, Céleste esperava com o xale fechado.

— Você devia ter ficado calada.

— Eu sei.

— Não sabe ainda. Mas saberá.

— Está zangada?

— Um pouco. Gratidão também humilha quando a gente não pediu para ser salva.

Lise recebeu a frase como quem aceita uma moeda verdadeira.

— Desculpe.

— Não desculpo hoje. Talvez amanhã.

Céleste começou a andar, depois voltou.

— O homem que me marcou é amigo do capitão da mesa azul. Derval viu. Amanhã todos saberão que você viu também.

— Eu não vi.

— Em Paris, ver é estar perto do assunto.

Lise voltou para a pensão pela rua molhada. A flor de tecido estava no bolso, murcha sem nunca ter vivido. No quarto, colocou-a ao lado da carta. As duas coisas, juntas, pareciam provas de crimes diferentes.

Sentou-se na cama e tirou o sapato direito. A sola abriu de vez. Riu baixo, cansada, quase sem som.

— Então hoje falta chão.

Não chorou. Havia nisso menos força do que economia. Chorar gastava água, tempo, sono. Dobrou a carta, guardou a flor dentro dela e apagou a vela.

No escuro, compreendeu que escolher não a tornara livre. Tornara-a responsável. A diferença era estreita, mas cortava.

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