Capítulo 18 - Os olhos cinzentos A Vagabunda · Capítulo 18 de 77
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Capítulo 18 - Os olhos cinzentos

Capítulo 18 - Os olhos cinzentos

Há alguns dias Brague e eu ensaiamos uma nova pantomima. Haverá uma floresta, uma gruta, um velho troglodita, uma jovem hamadríade e um fauno na força da idade.

O fauno é Brague. A ninfa florestal sou eu. Quanto ao velho troglodita, ainda não se fala nele. Seu papel é episódico e, para fazê-lo, diz Brague, tem entre os alunos um pequeno canalha de dezoito anos que ficará perfeitamente pré-histórico.

Emprestam-nos a cena do Jolies, pela manhã, das dez às onze, para os ensaios. Livre dos panos de fundo, o palco profundo mostra toda a nudez do tablado. Como é triste, como é cinzento quando chego sem espartilho, com um suéter no lugar de blusa e calções de cetim preto sob a saia curta.

Invejo Brague por ser a qualquer hora tão parecido consigo mesmo: desperto, moreno, autoritário. Luto frouxamente contra o frio, o torpor, a náusea dessa atmosfera mal purgada dos restos da noite, que ainda cheira a humanidade e ponche azedo. O piano de ensaio soletra a música nova; minhas mãos se agarram uma à outra e tardam a se separar; meu gesto é curto, rente ao corpo; meus ombros sobem de frio. Sinto-me medíocre, desajeitada, perdida.

Brague, acostumado à minha inércia matinal, conhece também o segredo de curá-la. Atormenta-me sem descanso, corre ao meu redor como um cão miúdo, pródigo em breves encorajamentos, exclamações secas que me chicoteiam.

Da sala sobe uma fumaça de poeira. É a hora em que os rapazes empurram para fora, com a lama seca dos tapetes, o pequeno esterco da noite anterior: papéis, caroços de cereja, pontas de cigarro, sujeira dos sapatos.

No terceiro plano, pois nos emprestam apenas uma fatia de cena, uma passarela de uns dois metros, um grupo de acrobatas trabalha sobre o tapete grosso. São belos alemães rosados, de pelo louro, silenciosos e ásperos no ofício. Usam malhas sórdidas de trabalho, e, nos intervalos do número, o repouso e os jogos ainda são exercício.

Dois deles procuram, com risos sonolentos, um milagre de equilíbrio impossível, que talvez consigam no mês seguinte. Ao fim da sessão, reúnem-se muito sérios em torno da perigosa educação do mais jovem da trupe: uma criança com rosto de menina sob longos cachos louros, que lançam no ar e recebem sobre um pé, sobre uma mão, pequeno ser aéreo que parece voar, os cachos horizontais atrás de si ou erguidos como chama acima da cabeça, enquanto cai com os pés juntos e pontudos, os braços colados ao corpo.

— No tempo! — grita Brague. — Você errou de novo o movimento. Que ensaio mais ordinário. Não consegue estar no que faz?

É difícil, confesso. Acima de nós volteiam agora, em três trapézios, ginastas que trocam chamados agudos, gritos de andorinhas. O relâmpago niquelado dos trapézios de metal, o ranger das mãos resinadas nas barras polidas, todo esse gasto de força elegante e flexível, esse desprezo metódico pelo perigo, acabam por me exaltar, aquecer-me de uma emulação contagiosa.

E é então, infelizmente, que nos expulsam, quando eu começava a sentir sobre mim, como um ornamento subitamente vestido, a beleza do gesto acabado, a justeza de uma expressão de espanto ou desejo.

Galvanizada tarde demais, gasto o resto do ardor voltando a pé com Fossette, em quem os ensaios acumulam uma raiva muda que ela descarrega lá fora sobre cães maiores. Terroriza-os, mímica genial, com uma única convulsão de máscara de dragão japonês, uma careta abominável que empurra os olhos para fora da cabeça, ergue os beiços e mostra, sob a dobra sanguínea, dentes brancos plantados de través como ripas de uma cerca empurrada pelo vento.

Crescida no ofício, Fossette conhece o music-hall melhor do que eu. Trota pelos subsolos escuros, rola ao longo dos corredores, guia-se pelo cheiro familiar de água com sabão, pó de arroz e amoníaco. Seu corpo tigrado conhece o aperto de braços untados de branco-perolado. Ela se digna a comer o açúcar que os figurantes roubam dos pires no café de baixo. Caprichosa, às vezes exige que eu a leve à noite; em outros dias, observa minha saída, enrolada como turbante em sua cesta, com o desprezo de uma rentista que toma, ela sim, todo o tempo para digerir.

— É sábado, Fossette. Corramos. Hamond terá chegado antes de nós.

Corremos como duas loucas, em vez de tomar um fiacre. O ar, naquela manhã, traz uma doçura surpreendente e mole de pré-primavera. Alcançamos Hamond justamente quando chega à minha casinha branca, cor de manteiga esculpida.

Mas Hamond não está só. Conversa na calçada com Dufferein-Chautel mais novo, chamado Maxime e apelidado por mim de Grande Passarão.

— Como? O senhor outra vez?

Sem lhe dar tempo de protestar, interrogo Hamond severamente.

— O senhor conhece o senhor Dufferein-Chautel?

— Mas sim — diz Hamond, tranquilo. — Vejo que você também. Eu o conheci pequenino. Tenho ainda numa gaveta a fotografia de um menino de braçadeira branca: lembrança da primeira comunhão de Maxime Dufferein-Chautel.

— É verdade — exclama o Grande Passarão. — Foi mamãe quem mandou, porque me achava tão bonito.

Não rio com eles. Não estou contente por se conhecerem. E me sinto humilhada pela grande luz do meio-dia, com os cabelos desfeitos sob o gorro de pele, o nariz brilhante pedindo pó, a boca seca de sede e fome.

Escondo sob a saia minhas botinas de ensaio, botinas de amarrar, amolecidas, cujo couro ferido mostra o azul, mas que se ajustam bem ao tornozelo e têm a sola afinada tão flexível quanto a de uma sapatilha de dança. Tanto pior: o Grande Passarão me examina como se nunca tivesse me visto.

Reprimo uma vontade súbita e pueril de chorar para perguntar, como se fosse mordê-lo:

— O que há? Tenho preto no nariz?

Ele não se apressa em responder.

— Não. Mas é curioso. Quando só se viu a senhora à noite, nunca se imaginaria que tem os olhos cinzentos. Parecem castanhos no palco.

— Sim, eu sei. Já me disseram. Hamond, a omelete vai esfriar. Adeus, monsieur.

Eu também, aliás, nunca o vira tão bem em pleno dia. Seus olhos fundos não são negros como eu acreditava, mas de um castanho um pouco selvagem, como as pupilas dos cães pastores.

E eles não acabam de apertar as mãos. Fossette, pequena sem-vergonha, diz bom dia ao senhor com um sorriso de ogra aberto até as orelhas. E o Grande Passarão, porque falei em omelete, faz cara de pobre diante do assado. Se espera que eu o convide...

Tenho raiva, injustamente, de Hamond. É em silêncio que despacho minha limpeza superficial de mãos e focinho antes de reencontrar meu velho amigo no pequeno salão de trabalho.

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