Capítulo 59 - A primeira vitória A Vagabunda · Capítulo 59 de 77
Obra Menu

Capítulo 59 - A primeira vitória

Capítulo 59 - A primeira vitória

Minha mão permanece crispada na pena ruim, fina demais. Quatro grandes folhas sobre a mesa testemunham minha pressa de escrever tanto quanto a desordem do manuscrito, onde a escrita sobe e desce, dilata-se e se contrai, sensível.

Ele me reconhecerá nessa desordem? Não. Ainda me dissimulo nela. Dizer a verdade, sim; mas toda a verdade, não se pode, não se deve.

Diante de mim, na praça varrida por um vento há pouco vivo, mas que agora enfraquece e cai como uma asa cansada, a muralha curva das arenas de Nîmes ergue sua palidez de ruivo crocante sobre um pedaço de céu ardósia, opaco, que pressagia tempestade. O ar ardente se arrasta no meu quarto. Quero rever, sob esse céu pesado, meu refúgio elísio: os Jardins da Fonte.

Um fiacre trôpego, um cavalo abatido, arrastam-me até a grade negra que defende esse parque onde nada muda. Será que a primavera do ano passado durou, magicamente, até esta hora, para me esperar? Ela é tão feérica neste lugar, a primavera imóvel e suspensa sobre todas as coisas, que tremo ao vê-la se abater e dissolver em nuvem.

Apalpo amorosamente a pedra quente do templo arruinado e a folha envernizada dos evônimos, que parece molhada. Os banhos de Diana, sobre os quais me inclino, refletem ainda e sempre árvores-de-judas, terebintos, pinheiros, paulônias floridas de malva e espinheiros duplos purpurinos. Todo um jardim de reflexos se inverte sob mim e gira, decomposto na água de água-marinha, para o azul escuro, o violeta de pêssego machucado, o marrom de sangue seco.

Belo jardim. Belo silêncio, onde apenas se debate surdamente a água imperiosa e verde, transparente, sombria, azul e brilhante como um dragão vivo.

Uma dupla alameda harmoniosa sobe para a Torre Magne entre muralhas cinzeladas de teixos, e repouso por um minuto à beira de uma gamela de pedra, onde a água baça é verde de agrião fino e de pererecas tagarelas de pequenas mãos delicadas. Lá em cima, bem no alto, um leito seco de agulhas odorantes nos recebe, a mim e ao meu tormento.

Abaixo de mim, o belo jardim se aplaina, geométrico nos espaços descobertos. A aproximação da tempestade expulsou todo intruso, e o granizo, o furacão, sobem lentamente do horizonte, nos flancos arredondados de uma nuvem espessa orlada de fogo branco.

Tudo isto ainda é meu reino, um pequeno pedaço dos bens magníficos que Deus distribui aos passantes, aos nômades, aos solitários. A terra pertence àquele que se detém por um instante, contempla e vai embora: todo o sol pertence ao lagarto nu que se aquece nele.

No fundo da minha preocupação agita-se uma grande barganha, um espírito de troca que pesa valores obscuros, tesouros meio escondidos. É um debate que sobe, que abre confusamente caminho para o dia. O tempo urge. Toda a verdade que precisei calar a Max, eu a devo a mim mesma. Ela não é bela; é ainda débil, assustada, um pouco pérfida. Ainda só sabe me soprar suspiros lacônicos: não quero, não se deve, tenho medo.

Medo de envelhecer, de ser traída, de sofrer. Uma escolha sutil guiou minha sinceridade parcial enquanto eu escrevia isso a Max. Esse medo é o cilício que cola à pele do Amor nascente e se aperta sobre ele à medida que cresce. Já o usei, esse cilício; não se morre dele. Eu o usaria de novo se... se eu não pudesse fazer de outro modo.

Se eu não pudesse fazer de outro modo. Desta vez, a fórmula é nítida. Eu a li escrita no meu pensamento; ainda a vejo ali, impressa como sentença em pequenas capitais grossas. Ah, acabo de medir meu pobre amor e de libertar minha verdadeira esperança: a evasão.

Como chegar a ela? Tudo está contra mim. O primeiro obstáculo em que tropeço é esse corpo de mulher estendido que me barra a estrada, um corpo voluptuoso de olhos fechados, voluntariamente cego, espreguiçado, pronto a perecer antes de abandonar o lugar da sua alegria. Sou eu essa mulher, essa criatura entêtée ao prazer. Não tens pior inimiga que tu mesma. Sim, eu sei, meu Deus, eu sei.

Vencerei também, cem vezes mais perigosa que a criatura gulosa, a criança abandonada que treme em mim, fraca, nervosa, pronta a estender os braços e implorar: não me deixem sozinha? Essa teme a noite, a solidão, a doença e a morte. Puxa as cortinas, à noite, sobre a vidraça escura que a assusta, e definha do único mal de não ser bastante querida.

E você, meu adversário bem-amado, Max, como vencerei você, rasgando-me a mim mesma? Bastaria que aparecesse, e... Mas eu não o chamo.

Não, eu não o chamo. É minha primeira vitória.

A nuvem de tempestade passa agora acima de mim, vertendo gota a gota uma água preguiçosa e perfumada. Uma estrela de chuva se esmaga no canto do meu lábio, e eu a bebo, morna, adoçada por uma poeira com gosto de junquilho.

1/1
Menu

Fazer anotação