Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 11
Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 11
Na manhã seguinte, Lise encontrou a tábua solta fora do lugar.
Não muito. Só o bastante para que uma pessoa distraída não percebesse e uma pessoa assustada percebesse tudo. A tábua continuava no chão, o caderno continuava escondido, os botões e o fragmento de recibo continuavam no pequeno embrulho de pano. Mas alguém estivera perto. Ou queria que ela acreditasse nisso.
Lise sentou-se na beira da cama. A pensão fazia seus ruídos habituais: baldes, passos, tosses, uma porta batendo. O mundo insistia em parecer comum quando ameaçava.
Abriu o caderno e contou as páginas. Nada faltava. Mesmo assim, a ordem das coisas havia sido tocada. Descobriu que a violação pequena era mais cruel que o roubo. O ladrão leva. O aviso fica.
Na escada, a senhoria varria o mesmo degrau com dedicação teatral.
— Alguém entrou no meu quarto?
— Além da poeira?
— Madame.
— Aqui ninguém entra sem chave.
— A senhora tem chave.
A vassoura parou.
— Cuidado, mademoiselle. Moça sem família não deve acusar teto.
— E teto deve mexer em tábua?
O rosto da senhoria endureceu, mas seus olhos fugiram. Lise guardou isso.
No café-concerto, Madame Sorel soube antes que Lise falasse.
— Aconteceu.
— Meu quarto foi mexido.
— Encontraram?
— Não sei.
— Então não encontraram o que importa. Quem encontra mostra.
— Quem mexeu?
— Essa pergunta é cara.
— Posso pagar?
Madame Sorel olhou para ela sem crueldade.
— Não com dinheiro.
A gerente entregou a lista de reservas.
— Hoje você fica só na caixa. Nada de corredor, nada de camarim, nada de heroísmo. Se alguém cair em chamas ao seu lado, venda ingresso para o incêndio.
— Madeleine está segura?
— Palavra grande demais para Paris. Vautrin a levou para longe do capitão por uma noite. Às vezes uma noite é uma província inteira.
Céleste entrou com olheiras novas.
— Ela chegou ao quarto da costureira.
— Madeleine?
— Fale baixo. Nome fresco chama faca.
A noite começou torta. Derval chegou cedo demais e não comprou bilhete.
— Ontem foi movimentado.
— Hoje também será se monsieur bloquear a fila.
— Você ganhou inimigos novos.
— Não coleciono.
— Coleciona, sim. Só prefere chamar de nomes anotados.
— Bilhete, monsieur?
— Não hoje. O capitão quer a moça.
— Qual moça?
— Excelente. Continue assim. Mas ele também quer saber quem a ensinou a abrir portas.
— Portas abrem com maçaneta.
— Algumas abrem com coragem. Essas são as que mais irritam.
Ele saiu sem entrar. Madame Sorel disse:
— Você respondeu demais. Para Derval, pouco já é convite.
Às nove, dois homens desconhecidos compraram bilhetes azuis e fizeram perguntas pequenas: se Céleste cantaria, se o jornalista viria, se a bilheteira trabalhava todos os dias. Lise respondeu com preços.
— Céleste?
— Um franco e vinte.
— Vautrin?
— Azul ou amarelo?
— Você fica até que horas?
— Vermelho esgotado.
Um deles sorriu.
— Ela é treinada.
Não, pensou Lise. Ferida.
No intervalo, Vautrin apareceu como cliente comum. Comprou amarelo.
— Ela está bem?
— Bem é palavra de folhetim. Está fora do alcance por enquanto.
— Por quanto tempo?
— Até alguém vender o endereço.
Ele recebeu o troco e, junto com as moedas, devolveu um papel dobrado.
— É sobre ela?
— É sobre você.
No fim do segundo número, Madame Sorel tomou seu lugar.
— Vá onde se lê papel que não deve existir. Rápido.
No depósito de programas velhos, Lise abriu o bilhete. Havia uma única linha:
Armand Marvan chegou a Paris ontem.
Por um instante, Lise foi de novo a moça das Tintelleries: mãos ordenadas, futuro decidido, vestido correto, vida estreita. Armand em Paris era a prova de que o mundo antigo aprendera o caminho do novo.
Quando voltou, Madame Sorel olhou seu rosto.
— Morto?
— Pior. Noivo.
— Seu?
— De uma vida que eu abandonei.
— Vida abandonada é como casaco ruim. Sempre aparece em dia de chuva.
— Ele sabe onde estou?
— Ainda não, mas a ignorância deles está adoecendo.
— O que faço?
— Trabalha até o fim. Depois muda o que puder antes do amanhecer.
A caixa fechou com erro de vinte cêntimos. Madame Sorel encontrou a moeda presa na dobra do pano.
— Hoje eu esqueço.
— Por quê?
— Porque amanhã talvez eu não possa.
Na saída, Céleste esperava com Octave.
— Tenho uma cama livre no quarto da espanhola por duas noites.
— Não posso envolver vocês.
Octave suspirou.
— Tarde demais. Você abriu uma porta e agora todos estamos reclamando da corrente de ar.
Foram os três à pensão. A senhoria estava acordada demais.
— Mudança?
— Lavagem — disse Céleste.
— De madrugada?
— Mancha fresca não espera moral.
No quarto, Lise pegou a carta, os botões, o fragmento, o caderno. Deixou a bolsa velha com duas blusas ruins e um pente quebrado. Deixou também o papel de Vautrin queimado pela metade, ilegível. Um fantasma para quem viesse procurar fantasma.
A senhoria tentou barrá-los na escada.
— Há dívida.
Lise tirou um franco e vinte.
— Isto paga o que devo. O resto paga seu esquecimento.
— Esquecimento custa mais.
Octave tirou do bolso uma moeda.
— Então compre uma memória pior.
No quarto da espanhola, havia cheiro de pó, alho e flores murchas. Uma cama estreita esperava junto à parede.
— Duas noites — disse Céleste.
Quando ficou sozinha, Lise abriu o caderno e escreveu:
Armand chegou. A cidade antiga entrou na cidade nova.
Depois acrescentou:
Não basta fugir. É preciso mudar o endereço do medo.
Guardou o caderno debaixo do colchão emprestado. Não era seguro. Nada era seguro. Mas, naquela noite, pela primeira vez, sua insegurança tinha testemunhas.