Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 11 A Vagabunda · Capítulo 74 de 77
Obra Menu

Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 11

Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 11

Na manhã seguinte, Lise encontrou a tábua solta fora do lugar.

Não muito. Só o bastante para que uma pessoa distraída não percebesse e uma pessoa assustada percebesse tudo. A tábua continuava no chão, o caderno continuava escondido, os botões e o fragmento de recibo continuavam no pequeno embrulho de pano. Mas alguém estivera perto. Ou queria que ela acreditasse nisso.

Lise sentou-se na beira da cama. A pensão fazia seus ruídos habituais: baldes, passos, tosses, uma porta batendo. O mundo insistia em parecer comum quando ameaçava.

Abriu o caderno e contou as páginas. Nada faltava. Mesmo assim, a ordem das coisas havia sido tocada. Descobriu que a violação pequena era mais cruel que o roubo. O ladrão leva. O aviso fica.

Na escada, a senhoria varria o mesmo degrau com dedicação teatral.

— Alguém entrou no meu quarto?

— Além da poeira?

— Madame.

— Aqui ninguém entra sem chave.

— A senhora tem chave.

A vassoura parou.

— Cuidado, mademoiselle. Moça sem família não deve acusar teto.

— E teto deve mexer em tábua?

O rosto da senhoria endureceu, mas seus olhos fugiram. Lise guardou isso.

No café-concerto, Madame Sorel soube antes que Lise falasse.

— Aconteceu.

— Meu quarto foi mexido.

— Encontraram?

— Não sei.

— Então não encontraram o que importa. Quem encontra mostra.

— Quem mexeu?

— Essa pergunta é cara.

— Posso pagar?

Madame Sorel olhou para ela sem crueldade.

— Não com dinheiro.

A gerente entregou a lista de reservas.

— Hoje você fica só na caixa. Nada de corredor, nada de camarim, nada de heroísmo. Se alguém cair em chamas ao seu lado, venda ingresso para o incêndio.

— Madeleine está segura?

— Palavra grande demais para Paris. Vautrin a levou para longe do capitão por uma noite. Às vezes uma noite é uma província inteira.

Céleste entrou com olheiras novas.

— Ela chegou ao quarto da costureira.

— Madeleine?

— Fale baixo. Nome fresco chama faca.

A noite começou torta. Derval chegou cedo demais e não comprou bilhete.

— Ontem foi movimentado.

— Hoje também será se monsieur bloquear a fila.

— Você ganhou inimigos novos.

— Não coleciono.

— Coleciona, sim. Só prefere chamar de nomes anotados.

— Bilhete, monsieur?

— Não hoje. O capitão quer a moça.

— Qual moça?

— Excelente. Continue assim. Mas ele também quer saber quem a ensinou a abrir portas.

— Portas abrem com maçaneta.

— Algumas abrem com coragem. Essas são as que mais irritam.

Ele saiu sem entrar. Madame Sorel disse:

— Você respondeu demais. Para Derval, pouco já é convite.

Às nove, dois homens desconhecidos compraram bilhetes azuis e fizeram perguntas pequenas: se Céleste cantaria, se o jornalista viria, se a bilheteira trabalhava todos os dias. Lise respondeu com preços.

— Céleste?

— Um franco e vinte.

— Vautrin?

— Azul ou amarelo?

— Você fica até que horas?

— Vermelho esgotado.

Um deles sorriu.

— Ela é treinada.

Não, pensou Lise. Ferida.

No intervalo, Vautrin apareceu como cliente comum. Comprou amarelo.

— Ela está bem?

— Bem é palavra de folhetim. Está fora do alcance por enquanto.

— Por quanto tempo?

— Até alguém vender o endereço.

Ele recebeu o troco e, junto com as moedas, devolveu um papel dobrado.

— É sobre ela?

— É sobre você.

No fim do segundo número, Madame Sorel tomou seu lugar.

— Vá onde se lê papel que não deve existir. Rápido.

No depósito de programas velhos, Lise abriu o bilhete. Havia uma única linha:

Armand Marvan chegou a Paris ontem.

Por um instante, Lise foi de novo a moça das Tintelleries: mãos ordenadas, futuro decidido, vestido correto, vida estreita. Armand em Paris era a prova de que o mundo antigo aprendera o caminho do novo.

Quando voltou, Madame Sorel olhou seu rosto.

— Morto?

— Pior. Noivo.

— Seu?

— De uma vida que eu abandonei.

— Vida abandonada é como casaco ruim. Sempre aparece em dia de chuva.

— Ele sabe onde estou?

— Ainda não, mas a ignorância deles está adoecendo.

— O que faço?

— Trabalha até o fim. Depois muda o que puder antes do amanhecer.

A caixa fechou com erro de vinte cêntimos. Madame Sorel encontrou a moeda presa na dobra do pano.

— Hoje eu esqueço.

— Por quê?

— Porque amanhã talvez eu não possa.

Na saída, Céleste esperava com Octave.

— Tenho uma cama livre no quarto da espanhola por duas noites.

— Não posso envolver vocês.

Octave suspirou.

— Tarde demais. Você abriu uma porta e agora todos estamos reclamando da corrente de ar.

Foram os três à pensão. A senhoria estava acordada demais.

— Mudança?

— Lavagem — disse Céleste.

— De madrugada?

— Mancha fresca não espera moral.

No quarto, Lise pegou a carta, os botões, o fragmento, o caderno. Deixou a bolsa velha com duas blusas ruins e um pente quebrado. Deixou também o papel de Vautrin queimado pela metade, ilegível. Um fantasma para quem viesse procurar fantasma.

A senhoria tentou barrá-los na escada.

— Há dívida.

Lise tirou um franco e vinte.

— Isto paga o que devo. O resto paga seu esquecimento.

— Esquecimento custa mais.

Octave tirou do bolso uma moeda.

— Então compre uma memória pior.

No quarto da espanhola, havia cheiro de pó, alho e flores murchas. Uma cama estreita esperava junto à parede.

— Duas noites — disse Céleste.

Quando ficou sozinha, Lise abriu o caderno e escreveu:

Armand chegou. A cidade antiga entrou na cidade nova.

Depois acrescentou:

Não basta fugir. É preciso mudar o endereço do medo.

Guardou o caderno debaixo do colchão emprestado. Não era seguro. Nada era seguro. Mas, naquela noite, pela primeira vez, sua insegurança tinha testemunhas.

1/1
Menu

Fazer anotação