Capítulo 15 - A rainha do Empyrée A Vagabunda · Capítulo 15 de 77
Obra Menu

Capítulo 15 - A rainha do Empyrée

Capítulo 15 - A rainha do Empyrée

Para enfiar a mão na caixa onde se deposita a correspondência, uma caixinha pregada ao lado do balcão dos controladores, incomodo nesta sexta-feira um belo malandro de casquete, desses tipos clássicos de que o bairro fervilha.

Mesmo popularizado pela caricatura, pelo teatro e pelo café-concerto, o sujeito permanece fiel ao suéter ou à camisa colorida sem colarinho, à casquete, ao paletó que as mãos enfiadas nos bolsos esticam lisonjeiramente sobre os rins, ao cigarro apagado e aos sapatos silenciosos.

Aos sábados e domingos, esses senhores enchem metade do Empyrée-Clichy, forram a galeria e gastam dois francos e vinte e cinco para reservar de antemão as cadeiras de palha que tocam a cena. São fiéis, apaixonados. Conversam com os artistas, vaiam, aclamam, sabem lançar a palavra obscena e a exclamação grosseira que põem a sala inteira abaixo.

Às vezes o próprio sucesso os embriaga, e então tudo vira pequena revolta. De uma galeria a outra trocam, em saboroso argot, diálogos estudados, depois gritos, e logo vêm os projéteis, precursores da chegada rápida dos guardas. O artista em cena faz bem em esperar, rosto neutro e postura modesta, o fim da tempestade, se não quer ver mudar a trajetória das laranjas, dos programas amassados e das moedinhas.

Mas são tempestades breves, escaramuças de sábado e domingo. O serviço de ordem é muito bem feito no Empyrée-Clichy, onde se sente a mão da diretora: a Patronne.

Morena, viva, coberta de joias, a Patronne reina esta noite, como todas as noites, junto ao controle. Seus olhos brilhantes e ágeis veem tudo. Os rapazes da sala não se arriscam a esquecer, pela manhã, a poeira dos cantos escuros.

Neste momento, esses olhos terríveis fulminam um autêntico e considerável apache que veio comprar o direito de ocupar, contra a cena, uma das melhores cadeiras de palha, dessas do primeiro rang, onde se instala como sapo, os braços sobre o balcão e o queixo nas mãos cruzadas.

A Patronne o repele sem tumulto, mas com que ar de domadora.

— Guarde seus quarenta e cinco sous e suma.

O fortão, braços pendentes, balança-se como criança enorme.

— Por quê, Madame Barnet? O que foi que eu fiz?

— Sim, sim, o que foi que eu fiz. Você acha que eu não vi no sábado passado? Era você na cadeira um da galeria, não era?

— Se é modo de dizer...

— Foi você que se levantou durante a pantomima para reclamar que só via um seio e queria ver os dois, porque tinha pago dois lugares, um para cada seio?

O fortão, vermelho, defende-se com a mão no peito.

— Eu? Ora, Madame Barnet, eu sei me comportar. Sei que isso não se faz. Prometo que não fui eu que...

A rainha do Empyrée estende uma mão impiedosa.

— Sem histórias. Eu vi. Basta. Você não terá lugar aqui antes de oito dias. Guarde seus quarenta e cinco sous e não apareça antes do próximo sábado ou domingo. E rua.

A saída do homem, suspenso por oito dias, vale os minutos que perco olhando. Ele se vai sobre os sapatos silenciosos, dorso redondo, e só recupera na calçada a cara insolente. Mesmo assim, o coração já não está lá. A pose é forçada. Por algum tempo não há diferença entre aquele bicho perigoso e o menino privado de sobremesa.

Na escada de ferro, junto com o bafo do aquecimento que cheira a gesso, carvão e amoníaco, chega em golfadas a voz de Jadin. Ah, pequena peste. Ela reencontrou e retomou seu público de bairro. Basta ouvir, lá embaixo, o riso tempestuoso, o rosnado de bicho contente e acariciado com que a sala a acompanha e sustenta.

Aquele contralto áspero e quente, já velado pela farra e talvez por um começo de doença, alcança o coração pelos caminhos mais baixos e mais seguros. Se um diretor avisado e artista se perdesse até aqui, escutasse Jadin e dissesse que a tomaria, que a lançaria, que em três meses se veria o resultado, eu saberia de antemão o que ele faria dela: uma fracassada orgulhosa e amarga. Onde brilharia melhor do que aqui a Jadin mal penteada?

Ei-la na escada, quase igual ao dia em que partiu: vestido comprido demais, desfiado pelos calcanhares; fichu à Maria Antonieta, amarelado pela fumaça da sala, aberto sobre uma magreza jovem; ombro de viés, boca ferina, lábio erguido onde a penugem guarda um bigode de pó.

Tenho um prazer vivo e verdadeiro em rever essa criança de boca ruim. Ela, por sua vez, desce os últimos degraus para cair sobre mim e apertar minhas mãos entre suas patas quentes. A escapada nos aproximou, não se sabe como.

Ela me segue até o camarim, onde arrisco uma censura discreta.

— Jadin, isso foi feio. Não se abandona a gente assim.

— Fui ver minha mãe — diz ela, com grande seriedade.

Mas vê a própria mentira no espelho, e todo o rosto infantil se abre em riso, largo e oblíquo como o de um angorá muito jovem.

— Aposto que vocês se entediaram aqui sem mim.

Ela irradia um orgulho confiante, surpresa no fundo de que o Empyrée-Clichy não tenha fechado as bilheterias durante sua ausência.

— Não mudei, mudei? Oh, que flores lindas. Você me desculpa?

Sua mão rápida de pequena ladra, outrora hábil em filar laranjas das bancas, já agarrou uma grande rosa púrpura antes que eu abra o envelope preso à gerbe de flores sobre a mesa de maquiagem.

Maxime Dufferein-Chautel, com seus respeitosos cumprimentos.

Dufferein-Chautel. Enfim reencontro o nome do grande passarão. Desde a outra noite, preguiçosa demais para abrir um Tout-Paris, venho chamando-o mentalmente por nomes trocados e ilustres.

— Posso dizer que são flores de verdade — declara Jadin enquanto me dispo. — É do seu amigo?

Protesto com sinceridade inútil.

— Não. É alguém que agradece uma soirée.

— Pior para você — decreta Jadin, competente. — São flores de homem bem. O sujeito com quem eu fugi outro dia me deu umas assim.

Desato a rir. Jadin discorrendo sobre a qualidade das flores e dos homens é irresistível. Ela fica toda vermelha sob a farinha de pó e se ofende.

— Ora essa. A senhora não acredita que era homem bem? Pergunte a Canut, o chefe maquinista, quanto dinheiro eu trouxe ontem, logo depois que a senhora saiu.

— Quanto?

— Mil e seiscentos francos, minha cara. Canut viu. Não é mentira.

Procuro parecer devidamente impressionada, mas duvido que consiga.

— E o que vai fazer com isso, Jadin?

Ela puxa, despreocupada, os fios que pendem do velho vestido branco e azul.

— Não vou fazer conservas, provavelmente. Paguei uma rodada aos maquinistas. Emprestei cinquenta francos a Myriam para pagar o aluguel. Depois aparece uma, aparece outra, dizendo que está sem nada. Sei lá. Olhe, lá vem Bouty. Salve, Bouty.

— Salve a fugitiva.

Bouty, tendo constatado cortesmente que um quimono cobre meu desvestir, empurra a porta do camarim e sacode a mão que Jadin lhe oferece. Repete salve com gesto ríspido e voz terna. Mas Jadin o esquece imediatamente e continua, de pé atrás de mim, falando à minha imagem no espelho.

— A senhora entende, me dá dor no coração ter tanto dinheiro assim.

— Mas você vai comprar vestidos. Ao menos um, para substituir este?

Ela afasta com o dorso da mão os cabelos leves e lisos que se desfazem em mechas finas.

— Acha? Este vestido aguenta muito bem até a revista. O que eles diriam se me vissem lá embaixo juntando dinheiro para voltar aqui com roupa de gommeuse?

Ela tem razão. Eles, seu famoso público de bairro, exigente e ciumento, perdoam-lhe a fuga desde que ela reapareça mal vestida, mal calçada, feita por quatro moedas, igual a antes da falta.

Depois de uma pausa, muito à vontade diante do silêncio constrangido de Bouty, Jadin acrescenta:

— Comprei o que mais precisava: um chapéu, uma manga e uma echarpe de pescoço. Mas que chapéu! A senhora verá daqui a pouco. Até já. Você fica, Bouty? Bouty, estou rica, sabe? Pago o que você quiser.

1/1
Menu

Fazer anotação