Capítulo 42 - A água viva
Capítulo 42 - A água viva
Para que responder? Estou, no entanto, pronta a discutir, com a pior má-fé do mundo. Hoje eu não conseguiria me enternecer, salvo por esse pobre homem que enumera minhas desgraças conjugais pensando nas suas. Como ele deve ter amado bem, e sofrido bem, esse falso anestesiado.
— É a primeira vez, Hamond, que ouço comparar o amor à cocaína.
Ferido por minha ironia desajeitada, ele replica com bastante secura:
— Verdade, minha cara amiga? Um homem tão velho, e tão antiquado como eu, não esperava lhe oferecer uma comparação inédita, creia.
Meu Deus, como ele é jovem, e ferível, e todo impregnado do veneno de que quis se desmamar. Estamos longe da minha aventura e de Maxime Dufferein-Chautel.
Eu queria me confiar a Hamond, pedir seus conselhos. Por que caminho voltamos irresistivelmente ao passado, todos arranhados por espinhos mortos? Parece-me que, se Maxime entrasse, Hamond e eu não teríamos tempo de abandonar depressa esses rostos que ninguém deve ver. Hamond está amarelado de bile, com um pequeno tique na maçã esquerda; e eu aproximo as sobrancelhas como se a enxaqueca as comprimisse, e estendo duramente o pescoço para a frente, meu pescoço robusto, mas que perde a maciez, o envolvimento da carne jovem.
— Hamond — digo muito docemente —, o senhor não esquece que devo partir em turnê, para variar?
— Partir... Sim, sim — faz ele, como um homem que acorda. — Pois então?
— Pois então. E Maxime?
— Você o leva, naturalmente?
— Naturalmente. Não é tão simples quanto o senhor parece acreditar. Essa vida de turnê é terrível a dois. Os despertares, as partidas de madrugada ou em plena noite, as noites intermináveis para quem espera, e depois o hotel. Que começo para uma lua de mel. Uma mulher de vinte anos não se arriscaria às surpresas da aurora, ao sono no trem, esse sono do fim dos dias exaustivos, durante o qual a gente parece uma morta um pouco inchada. Não, não, o perigo é grande demais para mim.
Calam-se em mim, por um segundo, a vaidade e o medo. Depois volto, mais baixa:
— E além disso nós valemos mais que isso, ele e eu. Eu tinha pensado, vagamente, em adiar nosso...
— Coração a coração.
— Obrigada. Até o fim da turnê. E começar então uma vida, oh, uma vida. Não pensar mais, Hamond. Entocar-me em algum lugar com ele, num país que me oferecesse, ao alcance da boca e das mãos, tudo que se oferece e se furta a mim atrás da vidraça do vagão: folhas úmidas, flores que o vento balança, frutos embaçados e riachos sobretudo, água livre, caprichosa, água viva.
Sem querer, alongo os braços, as mãos unidas, para melhor chamar o que desejo.
— Veja, Hamond, quando se vive há uns trinta dias em vagão, o senhor não pode saber como a visão da água corrente, entre margens de erva nova, crispa a pele inteira de uma sede indefinível. Na minha última turnê, lembro-me, rodávamos toda a manhã, e muitas vezes a tarde também. Ao meio-dia, nos prados, as moças da fazenda ordenhavam as vacas. Eu via, na erva profunda, os baldes de cobre polido, onde o leite espumoso jorrava em fios finos e firmes. Que sede, que doloroso desejo eu tinha desse leite morno, coroado de espuma. Era um verdadeiro pequeno suplício diário, asseguro.
Hamond escuta ainda, como se eu não tivesse terminado de falar.
— Então, eis. Eu queria, eu queria gozar de uma vez tudo que me falta: o ar puro, um país generoso onde tudo abunde, e meu amigo.
— E depois, minha filha? Depois?
— Como depois? — digo com veemência. — Depois? Mas é tudo. Não peço mais nada.
— Ainda bem — murmura ele para si mesmo. — Quero dizer: como você viverá depois, com Maxime? Renunciará às turnês? Não trabalhará mais no music-hall?
Sua pergunta, tão natural, basta para me deter de repente. Olho meu velho amigo, desconfiada, inquieta, quase intimidada.
— Por que não? — digo, fraca.
Ele dá de ombros.
— Vamos, Renée, raciocine um pouco. Você poderá, graças a Maxime, viver confortavelmente, até luxuosamente, e retomar, todos esperamos, essa pena espirituosa que está enferrujando. E depois, talvez, uma criança. Que belo garotinho isso faria.
Imprudente Hamond. Cedeu ao instinto de ex-pintor de cenas domésticas? Esse pequeno quadro da minha vida futura, entre um amante fiel e uma bela criança, produz em mim o efeito mais inexplicável, o mais desastroso. E ele continua, o infeliz, insiste, sem perceber que uma alegria detestável dança nos meus olhos, que fogem dos seus, e que já não obtém de mim senão sins entediados, talvezes, não sei, respostas de interna que acha a lição longa demais.
Uma bela criança. Um marido fiel. Não havia, contudo, motivo para rir.
Ainda procuro a razão da minha maldosa hilaridade. Uma bela criança. Confesso que nunca pensei nisso. Eu não tinha tempo quando era casada, ocupada primeiro com amor, depois com ciúme, tomada, em uma palavra, por Taillandy, que aliás não se importava com uma descendência incômoda e cara.
Eis que passei trinta e três anos sem encarar a possibilidade de ser mãe. Sou um monstro? Uma bela criança. Olhos cinzentos, focinho fino, ar de pequena raposa, como a mãe; mãos grandes, ombros largos, como Maxime. Pois não. Faço tudo que posso: não a vejo, não a amo, essa criança que eu teria tido, que talvez tenha.