Capítulo 56 - Madame Minha Mulher A Vagabunda · Capítulo 56 de 77
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Capítulo 56 - Madame Minha Mulher

Capítulo 56 - Madame Minha Mulher

Nada ameaça, no entanto, esta fácil vida rolante, nada além de uma carta. Ela está ali, na minha pequena bolsa. Ah, como ele escreve, meu amigo, quando quer. Como sabe se fazer compreender claramente. Eis, em oito páginas, o que posso enfim chamar de verdadeira carta de amor. Tem a incoerência, a ortografia duas ou três vezes cambaleante, a ternura e a autoridade. Uma autoridade soberba, que dispõe de mim, do meu futuro, de toda a minha curta vida.

A ausência fez sua obra: ele sofreu sem mim; depois refletiu e ordenou cuidadosamente uma felicidade durável. Oferece-me o casamento como me ofereceria um cercado ensolarado, delimitado por muros sólidos.

Minha mãe gritou um pouco, mas deixo que grite. Ela sempre fez o que eu quis. Você a conquistará; e, além disso, passaremos tão pouco tempo com ela. Você gosta de viajar, minha mulher querida? Terá viagens até se cansar. Terá toda a terra para si, até não amar mais que um pequeno canto nosso, onde já não será Renée Néré, mas Madame Minha Mulher. Essa estrela terá de lhe bastar. Já me ocupo de...

De que ele já se ocupa? Desdobro as folhas finas de papel bíblia, que fazem ruído de notas de banco. Ocupa-se da mudança, pois o segundo andar do hotel, na casa do irmão, nunca foi mais que uma garçonnière aceitável. Espia alguma coisa para os lados da rua Pergolèse.

Num movimento de hilaridade brutal, amarroto a carta e exclamo:

— Muito bem. E eu, ninguém me consulta? O que acontece comigo no meio disso tudo?

Brague levanta a cabeça, depois retoma o jornal sem dizer palavra. Sua discrição, que dosa em partes iguais a reserva e a indiferença, não se espanta por tão pouco.

Eu não mentia quando escrevia a Max, há dois dias: vejo você tão bem agora que estou longe. Contanto que eu não o veja bem demais.

Jovem, jovem demais para mim, ocioso, livre, terno, certamente, mas mimado: minha mãe sempre fez o que eu quis. Escuto sua voz pronunciar essas palavras, sua bela voz escura, nuançada, cativante, como que trabalhada teatralmente, sua voz que embeleza as frases. Escuto, em eco diabólico, uma outra voz que sobe, abafada, do fundo negro das minhas lembranças: a mulher que me fizer obedecer ainda não nasceu.

Coincidência, se quiserem. Mas parece-me, mesmo assim, que acabo de engolir um pequeno pedaço de vidro pontudo.

Sim, o que acontece comigo no meio disso tudo? Uma mulher feliz? Este sol, que penetra imperioso na minha íntima câmara escura, atrapalha-me para pensar.

— Vou voltar, Brague. Estou cansada.

Brague me olha por cima do jornal, a cabeça inclinada sobre o ombro para evitar o fio de fumaça que sobe de sua cigarreta, meio apagada no canto dos lábios.

— Cansada? Não doente? É sábado, você sabe. O público do Eldo estará quente. Aguente firme.

Não me digno responder. Ele me toma por estreante? Conheço esse público de Marselha, irritável e bonachão, que despreza a timidez, castiga a presunção e não se conquista sem lhe dar todas as forças.

O despir, a frescura sobre a pele de um quimono de shantung azulado, lavado vinte vezes, dissipam minha enxaqueca nascente. Não me estendo na cama por medo de adormecer; não vim aqui para repousar. Ajoelhada numa poltrona, junto à janela aberta, apoio os cotovelos no encosto e acaricio, um contra o outro atrás de mim, meus pés nus.

Retomo, há alguns dias, o hábito de me plantar na beira de uma mesa, de me sentar de viés no braço de uma poltrona, de conservar longamente atitudes incômodas em assentos desconfortáveis, como se as breves pausas que faço na estrada não valessem uma instalação, um repouso preparado.

Nos quartos onde durmo, parece que entrei por um quarto de hora, o casaco jogado aqui, o chapéu ali. É no vagão que me revelo ordenada até a mania, entre minha bolsa, minha manta enrolada, meus jornais e meus livros, os travesseiros de borracha que sustentam meu sono rígido, sono pronto de viajante endurecida, que não desarruma nem meu véu atado como faixa de religiosa, nem minha saia puxada até os tornozelos.

Não repouso. Quero me obrigar a refletir, e meu pensamento empaca, escapa, foge pelo caminho de luz que lhe abre um raio caído sobre a sacada, e vai lá longe, sobre um telhado em mosaico de telhas verdes, onde se detém puerilmente para brincar com um reflexo, uma sombra de nuvem, nada. Luto, repreendo-me. Depois cedo por um minuto e recomeço. São esses torneios que dão aos exilados da minha espécie estes olhos tão abertos, tão lentos em desprender o olhar de uma isca invisível. Ginástica morosa de solitária.

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