Capítulo 16 - Os solitários se reconhecem
Capítulo 16 - Os solitários se reconhecem
— Muito pouco para mim, obrigado.
Bouty revela-se singularmente frio e desaprovador. Se eu dissesse em voz alta que ele ama Jadin, cobriria a mim mesma de ridículo. Preciso, portanto, contentar-me em pensar.
O pequeno cômico vai embora pouco depois, e fico sozinha com minha braçada de rosas, grande braçada banal, apertada por uma cintura de fita verde-clara. É bem o buquê de um grande passarão como meu novo apaixonado.
Com seus respeitosos cumprimentos. Conheci, nesses três anos, uma boa quantidade de cumprimentos, se ouso dizer, mas nenhum que tivesse algo de respeitoso. E meu velho burguesismo, que ainda vigia, floresce em segredo, como se esses cumprimentos, por mais mascarados de respeito que queiram parecer, não pedissem a mesma coisa, sempre a mesma coisa.
Na primeira fila das poltronas de orquestra, minha miopia não me impede de perceber, rígido e sério, com os cabelos negros brilhando como seda, o senhor Dufferein-Chautel mais novo. Feliz porque meu olhar o reconheceu, ele acompanha com a cabeça meus movimentos, minhas idas e vindas no palco, como Fossette quando me visto para sair.
Os dias passam. Não há nada novo em minha vida, a não ser um homem paciente que me espreita.
Acabamos de atravessar o Natal e o primeiro de janeiro. Natal foi uma noite febril que sacudiu toda a casa num balanço louco. O público, mais do que meio bêbado, gritou como um só homem. Os camarotes cintilantes lançaram para as segundas galerias mandarinas e charutos caros. Jadin, alta desde o almoço, perdeu o fio da canção e dançou em cena uma chaloupée terrível, a saia levantada sobre meias de malha rompida, uma longa mecha batendo-lhe nas costas.
Bela noite, em que nossa Patronne reinava em seu camarote, calculando a receita régia, de olho na vidraria pegajosa que se acumulava nas mesinhas pregadas atrás das poltronas.
Brague também havia bebido desde o jantar e faiscava uma fantasia obscena de pequeno bode negro. Sozinho no camarim, improvisou um monólogo extraordinário de alucinado que se defende de larvas, com seus não, basta, deixe-me, e seus não isso, ou então uma vez só, suspiros e queixas de homem torturado por uma volúpia diabólica.
Quanto a Bouty, retorcido por cólicas de enterite, pobre menino, sorvia seu leite azulado.
Como réveillon, comi as belas uvas de estufa que meu velho amigo Hamond trouxera, em tête-à-tête com Fossette, que mastigava bombons enviados pelo Grande Passarão. Lutei, rindo de mim mesma, contra uma inveja triste de criança esquecida fora da festa.
Que eu queria, afinal? Ceiar com Brague, com Hamond, com Dufferein-Chautel? Deus me livre. Mas então o quê? Não sou melhor nem pior que todo mundo, e há horas em que eu gostaria de proibir os outros de se divertir quando estou entediada.
Meus amigos verdadeiros, os fiéis, como Hamond, são, vale notar, pessoas sem sorte, irremediavelmente tristes. Será a solidariedade do infortúnio que nos prende? Não creio.
Parece-me antes que atraio e retenho os melancólicos, os solitários votados à reclusão ou à vida errante, como eu. Quem se parece se reconhece, e depois finge que escolheu.
Remastigo esses pensamentos quase leves ao voltar de minha visita a Margot.
Margot é a irmã mais nova de meu ex-marido. Carrega lugubremente, desde a infância, esse apelido brincalhão, que lhe serve como argola no nariz. Vive só e se parece, com os cabelos grisalhos cortados abaixo da orelha, a blusa de bordado russo e a longa jaqueta preta, com uma Rosa Bonheur que tivesse se tornado niilista.
Espoliada pelo marido, explorada pelo irmão, roubada pelo advogado, lograda pelos criados, Margot se encarcerou numa serenidade fúnebre, feita de bondade incurável e desprezo silencioso. Um velho hábito de exploração faz com que todos ao redor continuem mordiscando suas rendas vitalícias. Ela deixa fazer, tomada apenas às vezes por fúrias repentinas, expulsando a cozinheira por uma fraude flagrante de dez centavos.
— Aceito que me roubem — grita Margot —, mas ainda quero que o façam com consideração.
Depois recai, por longos dias, no desprezo universal.
No tempo em que eu era casada, conheci pouco Margot, sempre fria, doce e pouco falante. Sua reserva nunca pediu minhas confidências. Somente no dia em que minha ruptura com Adolphe pareceu definitiva ela pôs meu marido para fora de casa, polidamente, brevemente, e não o viu mais. Entendi então que tinha em Margot uma aliada, uma amiga e um apoio, pois é dela que vêm os quinze luís mensais que me protegem da miséria.
— Aceite — disse-me Margot. — Você não me prejudica. São os dez francos diários que Adolphe sempre me arrancou.
Não é certamente na casa de Margot que eu encontraria consolações, nem aquela alegria higiênica que me recomendam como regime. Mas Margot me ama à sua maneira, desencorajada e desencorajante, mesmo ao profetizar para mim o fim mais desagradável.
— Você, minha filha, terá sorte se não cair de novo numa bela ligação com um senhor do tipo Adolphe. Você foi feita para ser comida, como eu. Sou muito boa em lhe pregar sermão. Gata escaldada, você voltará à caldeira, sou eu que digo. Você é dessas para quem um Adolphe não basta como experiência.