Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 9
Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 9
Na manhã seguinte, Lise acordou pensando em colunas. Não em sonhos, nem em Armand, nem no trem que a trouxera a Paris. Colunas: nome, mesa, valor, companhia, gesto. A vida, quando começava a ameaçar demais, pedia contabilidade.
Abriu o pequeno caderno de Octave ainda na cama. A caligrafia da véspera parecia pertencer a outra mulher, uma mulher mais fria do que ela se sentia. Leu: Derval. Capitão. Patron. Senhoria. Armand. Depois as notas: azul sozinho, capitão ausente, jornalista bebe sem pagar. Não eram revelações. Eram migalhas. Mas migalhas, vistas de longe, também desenhavam caminho.
Retirou a carta escondida na bainha do vestido azul e tocou o papel como quem consulta uma testa doente. A desconhecida não respondia. Nunca responderia. Talvez por isso fosse tão útil: não a interrompia com conselhos.
Na pensão, a senhoria estava mais amável. Lise desconfiou de imediato.
— Dormiu bem, mademoiselle?
— O bastante.
— Um senhor perguntou por você ontem à tarde.
Lise sentiu o corpo endurecer.
— Que senhor?
— Bem vestido.
— Isso não é nome.
— Nome custa mais que descrição.
A senhoria sorriu com dentes pequenos. Lise entendeu que Paris inteira tinha tarifas, até para sustos.
— Quanto?
— Para lembrar? Dez cêntimos.
— Para dizer a verdade?
O sorriso sumiu.
— Vinte.
Lise pagou dez.
— Então lembre só metade.
A mulher bufou.
— Não era velho. Usava luvas claras. Perguntou se a moça de Boulogne ainda ficava aqui.
Derval, pensou Lise. Ou alguém treinado por Derval.
— O que respondeu?
— Que hóspedes decentes têm direito a discrição.
— E depois?
— Que discrição também tem custo.
Lise pegou a bolsa.
— Quanto ele pagou?
— Mais que você.
Na rua, ela não comprou pão. A fome, naquela manhã, seria economia e punição. Caminhou até o café-concerto com o caderno escondido longe do coração, preso por uma fita à perna, sob a saia. Era desconfortável. Gostou disso. O desconforto lembrava que um segredo não era enfeite.
Madame Sorel a recebeu com uma folha de reservas.
— Hoje, atenção dobrada.
— Por quê?
— Porque ontem foi calma demais.
— Calma?
— Quando ninguém grita, alguém planeja.
Lise copiou a lista no balcão da bilheteria ainda fechada. Derval não constava. O capitão, sim: mesa azul, três convidados, conta aberta pelo patron. Jornalista, entrada franca. Dois nomes que ela não conhecia. Uma observação: não sentar Céleste à vista da mesa azul.
Ela copiou tudo no papel oficial. Depois, quando Madame Sorel virou-se, escreveu no caderno pequeno: Capitão vem sem Derval. Conta aberta. Céleste longe.
A mão já não tremia tanto.
Octave apareceu carregando uma moldura dourada rachada.
— A pequena polícia começou o expediente?
— Não diga isso.
— Então não pareça tão culpada.
— Você me deu o caderno.
— Dei uma faca. Não prometi que ela só cortaria pão.
Lise fechou a lista.
— Um homem foi à pensão perguntar por mim.
Octave deixou a moldura no chão.
— Derval?
— Luvas claras.
— Isso é quase assinatura.
— A senhoria falou.
— Claro. Porteira que não vende notícia perde a vocação.
— O que ele quer de mim?
Octave olhou para o salão vazio, onde as cadeiras pareciam esperar ordens.
— Talvez nada ainda. Alguns homens primeiro compram a possibilidade de querer.
— Isso não significa coisa nenhuma.
— Significa o pior tipo de coisa.
À noite, a chuva voltou. O público entrou úmido, impaciente, soltando cheiro de lã e tabaco molhados. Lise cobrava, anotava mentalmente, confirmava no caderno quando podia. Mesa quatro reclamou do vinho. Mesa seis pediu Céleste antes do primeiro número. O jornalista veio acompanhado, apesar da reserva dizer sozinho. Pagou uma entrada que não precisava pagar e pediu recibo.
Essa contradição acendeu algo em Lise.
Jornalista: entrada franca se só. Veio com mulher. Pagou. Pediu recibo.
Ela escreveu apenas: Jornalista paga quando não deve.
O capitão chegou às nove, com dois homens e uma mulher de véu claro. Não parecia bêbado. Isso o tornava mais desagradável. Um homem sóbrio que se permitia brutalidade não podia culpar o vinho.
— Três convidados — disse ele.
— Mesa azul. Está reservada.
— Boa menina.
Lise entregou os bilhetes sem tocar-lhe os dedos. A mulher de véu ergueu um instante o rosto. Era jovem, muito pálida, com uma boca que parecia treinada para não pedir nada.
— A quarta entrada? — perguntou Lise.
O capitão sorriu.
— Ela não conta.
A mulher baixou o rosto.
Lise sentiu o impulso de responder. Pensou em Madame Sorel: cobre antes. Pensou em Céleste: não faça perguntas se não sabe onde guardar a resposta. Pensou no caderno: tudo que não conta é exatamente o que querem apagar.
— Toda pessoa que entra conta — disse.
O capitão inclinou a cabeça.
— Então conte.
Ela cobrou a quarta entrada. Ele pagou com uma moeda grande, observando seu rosto. Lise devolveu o troco exato.
— A menina de Boulogne sabe somar — disse ele.
A frase foi baixa. Só ela ouviu. Talvez a mulher de véu também.
Quando entraram, Lise escreveu no caderno com a letra mínima: Capitão sabe Boulogne. Mulher não conta.
Madame Sorel aproximou-se.
— Você cobrou a moça?
— Ela entrou.
— E você decidiu fazer justiça com bilhete?
— Decidi fazer caixa.
Madame Sorel sustentou o olhar por um segundo. Depois quase sorriu.
— Essa resposta serve. Guarde-a.
No intervalo, Céleste apareceu com o figurino de lavadeira, as mãos brancas de pó.
— Ele trouxe a esposa?
— Não sei.
— Véu claro?
— Sim.
— Então não é a esposa. Esposas dele não vêm onde ele se diverte.
Lise olhou para a mesa azul. A mulher de véu estava imóvel, enquanto os homens riam. O jornalista, em outra mesa, observava mais do que bebia.
— O jornalista conhece o capitão?
Céleste seguiu o olhar.
— Todos conhecem alguém quando convém esquecer.
— Ele pagou entrada.
— E daí?
— Tinha entrada franca.
Céleste encarou Lise.
— Você está contando coisas demais.
— É ruim?
— É útil. Útil é mais perigoso que ruim.
Antes do segundo ato, o patron chamou Lise ao escritório. Madame Sorel ouviu o chamado e não a impediu. Isso a preocupou mais.
O patron estava com o recibo do jornalista na mão.
— Você emitiu isto?
— Sim, monsieur.
— Por quê?
— Ele pediu.
— E desde quando cliente sabe o que deve pedir?
Lise ficou quieta.
— Recibo cria rastro — disse ele.
— Pagamento também.
O patron olhou para ela como quem encontra uma rachadura no copo.
— Quem ensinou você a responder?
— A bilheteria.
— Pois desaprenda parte. Gente que escreve demais vira arquivo. Arquivo pega fogo.
Ele rasgou o recibo em quatro pedaços e jogou-os no cinzeiro.
— Se o jornalista pedir outro, diga que a tinta acabou.
— Sim, monsieur.
— E, Lise?
Ela já estava na porta.
— Sim?
— O capitão perguntou se você é discreta.
— Sou caixa.
— Não foi isso que perguntei.
— Foi o que posso responder.
Voltou à bilheteria com o estômago frio. No corredor, Octave fingia ajustar um cartaz torto.
— Você está ficando famosa entre os piores.
— Não ajude.
— Isso foi minha ajuda.
Ela abriu a gaveta e contou moedas para recuperar o domínio das mãos. No fundo, perto do canto, encontrou um dos pedaços do recibo rasgado. Alguém o colocara ali. Talvez o patron, por descuido. Talvez Madame Sorel. Talvez o próprio teatro, que parecia cuspir provas quando ninguém pedia.
Lise não pensou. Escondeu o fragmento no punho da manga.
Às onze, Céleste cantou. Dessa vez olhou para a mesa azul uma única vez, no verso em que a lavadeira prometia lavar sangue como se fosse vinho. O capitão bateu palmas. A mulher de véu não se moveu. O jornalista escreveu algo num bloco pequeno.
Lise anotou: canção do sangue. Jornalista escreve. Capitão ri.
No fechamento, a caixa bateu perfeita. Madame Sorel conferiu, depois disse:
— Você está muito atenta.
— Isso é ruim?
— Tudo que os outros podem explorar vira ruim.
Era a mesma frase de dias antes. Agora Lise a ouviu por dentro.
— Estou tentando não ser explorada.
— Então não deixe parecer que tenta.
Madame Sorel entregou-lhe o pagamento completo. Sem desconto. Lise recebeu como se fosse uma trégua.
Na saída, a mulher de véu estava sob a marquise, sozinha. Lise quase passou direto, mas a mulher disse:
— Mademoiselle.
Ela tinha uma voz educada demais para o frio.
— Sim?
— Obrigada por contar minha entrada.
— Era o preço.
— Não. Era a prova.
A mulher colocou algo na mão de Lise: um botão de madrepérola, arrancado de uma luva ou punho.
— Se um dia perguntarem se eu estive aqui, você saberá.
— Quem é a senhora?
A mulher baixou o véu.
— Alguém que também não conta.
Foi embora antes que Lise pudesse decidir se aquilo era pedido, armadilha ou desespero.
No quarto, ela escondeu o botão com o fragmento do recibo. Depois abriu o caderno e acrescentou uma nova categoria.
Não contam:
Mulher do véu.
Céleste quando canta ferida.
Eu, antes de cobrar.
Parou. A frase era perigosa porque era verdadeira. Fechou o caderno, mas tornou a abri-lo. A verdade, uma vez vista, batia por dentro.
Escreveu mais:
Se me pegarem sabendo, direi que estava apenas fazendo caixa.
Apagou a vela. No escuro, ouviu chuva e rodas na rua. Pensou na mulher da carta, em Céleste, na mulher do véu, em si mesma. Talvez fugir não fosse sair de um lugar. Talvez fosse começar a contar o que mandaram desaparecer.