Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 9 A Vagabunda · Capítulo 72 de 77
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Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 9

Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 9

Na manhã seguinte, Lise acordou pensando em colunas. Não em sonhos, nem em Armand, nem no trem que a trouxera a Paris. Colunas: nome, mesa, valor, companhia, gesto. A vida, quando começava a ameaçar demais, pedia contabilidade.

Abriu o pequeno caderno de Octave ainda na cama. A caligrafia da véspera parecia pertencer a outra mulher, uma mulher mais fria do que ela se sentia. Leu: Derval. Capitão. Patron. Senhoria. Armand. Depois as notas: azul sozinho, capitão ausente, jornalista bebe sem pagar. Não eram revelações. Eram migalhas. Mas migalhas, vistas de longe, também desenhavam caminho.

Retirou a carta escondida na bainha do vestido azul e tocou o papel como quem consulta uma testa doente. A desconhecida não respondia. Nunca responderia. Talvez por isso fosse tão útil: não a interrompia com conselhos.

Na pensão, a senhoria estava mais amável. Lise desconfiou de imediato.

— Dormiu bem, mademoiselle?

— O bastante.

— Um senhor perguntou por você ontem à tarde.

Lise sentiu o corpo endurecer.

— Que senhor?

— Bem vestido.

— Isso não é nome.

— Nome custa mais que descrição.

A senhoria sorriu com dentes pequenos. Lise entendeu que Paris inteira tinha tarifas, até para sustos.

— Quanto?

— Para lembrar? Dez cêntimos.

— Para dizer a verdade?

O sorriso sumiu.

— Vinte.

Lise pagou dez.

— Então lembre só metade.

A mulher bufou.

— Não era velho. Usava luvas claras. Perguntou se a moça de Boulogne ainda ficava aqui.

Derval, pensou Lise. Ou alguém treinado por Derval.

— O que respondeu?

— Que hóspedes decentes têm direito a discrição.

— E depois?

— Que discrição também tem custo.

Lise pegou a bolsa.

— Quanto ele pagou?

— Mais que você.

Na rua, ela não comprou pão. A fome, naquela manhã, seria economia e punição. Caminhou até o café-concerto com o caderno escondido longe do coração, preso por uma fita à perna, sob a saia. Era desconfortável. Gostou disso. O desconforto lembrava que um segredo não era enfeite.

Madame Sorel a recebeu com uma folha de reservas.

— Hoje, atenção dobrada.

— Por quê?

— Porque ontem foi calma demais.

— Calma?

— Quando ninguém grita, alguém planeja.

Lise copiou a lista no balcão da bilheteria ainda fechada. Derval não constava. O capitão, sim: mesa azul, três convidados, conta aberta pelo patron. Jornalista, entrada franca. Dois nomes que ela não conhecia. Uma observação: não sentar Céleste à vista da mesa azul.

Ela copiou tudo no papel oficial. Depois, quando Madame Sorel virou-se, escreveu no caderno pequeno: Capitão vem sem Derval. Conta aberta. Céleste longe.

A mão já não tremia tanto.

Octave apareceu carregando uma moldura dourada rachada.

— A pequena polícia começou o expediente?

— Não diga isso.

— Então não pareça tão culpada.

— Você me deu o caderno.

— Dei uma faca. Não prometi que ela só cortaria pão.

Lise fechou a lista.

— Um homem foi à pensão perguntar por mim.

Octave deixou a moldura no chão.

— Derval?

— Luvas claras.

— Isso é quase assinatura.

— A senhoria falou.

— Claro. Porteira que não vende notícia perde a vocação.

— O que ele quer de mim?

Octave olhou para o salão vazio, onde as cadeiras pareciam esperar ordens.

— Talvez nada ainda. Alguns homens primeiro compram a possibilidade de querer.

— Isso não significa coisa nenhuma.

— Significa o pior tipo de coisa.

À noite, a chuva voltou. O público entrou úmido, impaciente, soltando cheiro de lã e tabaco molhados. Lise cobrava, anotava mentalmente, confirmava no caderno quando podia. Mesa quatro reclamou do vinho. Mesa seis pediu Céleste antes do primeiro número. O jornalista veio acompanhado, apesar da reserva dizer sozinho. Pagou uma entrada que não precisava pagar e pediu recibo.

Essa contradição acendeu algo em Lise.

Jornalista: entrada franca se só. Veio com mulher. Pagou. Pediu recibo.

Ela escreveu apenas: Jornalista paga quando não deve.

O capitão chegou às nove, com dois homens e uma mulher de véu claro. Não parecia bêbado. Isso o tornava mais desagradável. Um homem sóbrio que se permitia brutalidade não podia culpar o vinho.

— Três convidados — disse ele.

— Mesa azul. Está reservada.

— Boa menina.

Lise entregou os bilhetes sem tocar-lhe os dedos. A mulher de véu ergueu um instante o rosto. Era jovem, muito pálida, com uma boca que parecia treinada para não pedir nada.

— A quarta entrada? — perguntou Lise.

O capitão sorriu.

— Ela não conta.

A mulher baixou o rosto.

Lise sentiu o impulso de responder. Pensou em Madame Sorel: cobre antes. Pensou em Céleste: não faça perguntas se não sabe onde guardar a resposta. Pensou no caderno: tudo que não conta é exatamente o que querem apagar.

— Toda pessoa que entra conta — disse.

O capitão inclinou a cabeça.

— Então conte.

Ela cobrou a quarta entrada. Ele pagou com uma moeda grande, observando seu rosto. Lise devolveu o troco exato.

— A menina de Boulogne sabe somar — disse ele.

A frase foi baixa. Só ela ouviu. Talvez a mulher de véu também.

Quando entraram, Lise escreveu no caderno com a letra mínima: Capitão sabe Boulogne. Mulher não conta.

Madame Sorel aproximou-se.

— Você cobrou a moça?

— Ela entrou.

— E você decidiu fazer justiça com bilhete?

— Decidi fazer caixa.

Madame Sorel sustentou o olhar por um segundo. Depois quase sorriu.

— Essa resposta serve. Guarde-a.

No intervalo, Céleste apareceu com o figurino de lavadeira, as mãos brancas de pó.

— Ele trouxe a esposa?

— Não sei.

— Véu claro?

— Sim.

— Então não é a esposa. Esposas dele não vêm onde ele se diverte.

Lise olhou para a mesa azul. A mulher de véu estava imóvel, enquanto os homens riam. O jornalista, em outra mesa, observava mais do que bebia.

— O jornalista conhece o capitão?

Céleste seguiu o olhar.

— Todos conhecem alguém quando convém esquecer.

— Ele pagou entrada.

— E daí?

— Tinha entrada franca.

Céleste encarou Lise.

— Você está contando coisas demais.

— É ruim?

— É útil. Útil é mais perigoso que ruim.

Antes do segundo ato, o patron chamou Lise ao escritório. Madame Sorel ouviu o chamado e não a impediu. Isso a preocupou mais.

O patron estava com o recibo do jornalista na mão.

— Você emitiu isto?

— Sim, monsieur.

— Por quê?

— Ele pediu.

— E desde quando cliente sabe o que deve pedir?

Lise ficou quieta.

— Recibo cria rastro — disse ele.

— Pagamento também.

O patron olhou para ela como quem encontra uma rachadura no copo.

— Quem ensinou você a responder?

— A bilheteria.

— Pois desaprenda parte. Gente que escreve demais vira arquivo. Arquivo pega fogo.

Ele rasgou o recibo em quatro pedaços e jogou-os no cinzeiro.

— Se o jornalista pedir outro, diga que a tinta acabou.

— Sim, monsieur.

— E, Lise?

Ela já estava na porta.

— Sim?

— O capitão perguntou se você é discreta.

— Sou caixa.

— Não foi isso que perguntei.

— Foi o que posso responder.

Voltou à bilheteria com o estômago frio. No corredor, Octave fingia ajustar um cartaz torto.

— Você está ficando famosa entre os piores.

— Não ajude.

— Isso foi minha ajuda.

Ela abriu a gaveta e contou moedas para recuperar o domínio das mãos. No fundo, perto do canto, encontrou um dos pedaços do recibo rasgado. Alguém o colocara ali. Talvez o patron, por descuido. Talvez Madame Sorel. Talvez o próprio teatro, que parecia cuspir provas quando ninguém pedia.

Lise não pensou. Escondeu o fragmento no punho da manga.

Às onze, Céleste cantou. Dessa vez olhou para a mesa azul uma única vez, no verso em que a lavadeira prometia lavar sangue como se fosse vinho. O capitão bateu palmas. A mulher de véu não se moveu. O jornalista escreveu algo num bloco pequeno.

Lise anotou: canção do sangue. Jornalista escreve. Capitão ri.

No fechamento, a caixa bateu perfeita. Madame Sorel conferiu, depois disse:

— Você está muito atenta.

— Isso é ruim?

— Tudo que os outros podem explorar vira ruim.

Era a mesma frase de dias antes. Agora Lise a ouviu por dentro.

— Estou tentando não ser explorada.

— Então não deixe parecer que tenta.

Madame Sorel entregou-lhe o pagamento completo. Sem desconto. Lise recebeu como se fosse uma trégua.

Na saída, a mulher de véu estava sob a marquise, sozinha. Lise quase passou direto, mas a mulher disse:

— Mademoiselle.

Ela tinha uma voz educada demais para o frio.

— Sim?

— Obrigada por contar minha entrada.

— Era o preço.

— Não. Era a prova.

A mulher colocou algo na mão de Lise: um botão de madrepérola, arrancado de uma luva ou punho.

— Se um dia perguntarem se eu estive aqui, você saberá.

— Quem é a senhora?

A mulher baixou o véu.

— Alguém que também não conta.

Foi embora antes que Lise pudesse decidir se aquilo era pedido, armadilha ou desespero.

No quarto, ela escondeu o botão com o fragmento do recibo. Depois abriu o caderno e acrescentou uma nova categoria.

Não contam:

Mulher do véu.

Céleste quando canta ferida.

Eu, antes de cobrar.

Parou. A frase era perigosa porque era verdadeira. Fechou o caderno, mas tornou a abri-lo. A verdade, uma vez vista, batia por dentro.

Escreveu mais:

Se me pegarem sabendo, direi que estava apenas fazendo caixa.

Apagou a vela. No escuro, ouviu chuva e rodas na rua. Pensou na mulher da carta, em Céleste, na mulher do véu, em si mesma. Talvez fugir não fosse sair de um lugar. Talvez fosse começar a contar o que mandaram desaparecer.

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