Capítulo 23 - Não amarei mais ninguém
Capítulo 23 - Não amarei mais ninguém
— Querido Hamond, como estou contente de almoçar com você. Não há ensaio hoje, há sol, e há você. Assim está bom.
Meu velho amigo, que sofre de reumatismos lancinantes, sorri, lisonjeado. Está muito magro neste momento, envelhecido, leve, altíssimo, o nariz descarnado e curvo, todo semelhante ao cavaleiro da Triste Figura.
— Parece-me, no entanto, que já tivemos o prazer de almoçar juntos esta semana. Que ternura transbordante pela minha velha carcaça, Renée.
— Perfeitamente, transbordo. Hoje o dia está bonito, estou alegre e... estamos sozinhos.
— O que quer dizer?
— Que o Grande Passarão não está aqui. Você adivinhou.
Hamond balança seu longo rosto melancólico.
— Decididamente, é aversão.
— De modo algum, Hamond, de modo algum. É... é nada. E veja, há vários dias medito em ser franca com você: não consigo descobrir em mim a sombra de um sentimento por Dufferein-Chautel, exceto desconfiança, talvez.
— Já é alguma coisa.
— Nem opinião tenho sobre ele.
— Terei prazer em oferecer-lhe a minha. Esse homem honesto não tem história.
— Não o suficiente.
— Não o suficiente? Isso é provocação. Você não o encoraja a contar a história dele.
— Só faltava essa. Você o vê, com a grande mão sobre o grande coração: não sou um homem como os outros. É isso que ele me diria, não é? Os homens dizem sempre a mesma coisa que as mulheres nesse momento.
Hamond me cobre com um olhar irônico.
— Gosto de você, Renée, quando se enfeita com uma experiência que, felizmente, lhe falta. Os homens fazem isto, os homens dizem aquilo. Onde arranjou tanta certeza? Os homens, os homens. Você conheceu muitos?
— Um só. Mas que um.
— Justamente. Você não acusa Maxime de lembrar Taillandy?
— Deus me livre. Ele não me lembra nada. Nada, eu digo. Não é espirituoso.
— Os enamorados são sempre um pouco idiotas. Eu, por exemplo, quando amava Jeanne...
— E eu, então, quando amava Adolphe. Mas aquilo era idiotice consciente, quase voluptuosa. Você se lembra das noites em que jantávamos fora, Adolphe e eu, e eu assumia meu ar pobre, meu ar de moça desposada sem dote, como dizia Margot? Meu marido discursava, sorria, decidia, brilhava. Só se via ele. Se olhavam para mim um instante, era para ter pena dele, creio. Faziam-me compreender tão bem que, sem ele, eu não existia.
— Ainda assim... você exagera um pouco.
— Quase nada, Hamond. Não proteste. Eu me empregava de todo o coração em desaparecer o máximo possível. Eu o amava tão imbecilmente.
— E eu, e eu — diz Hamond, animando-se. — Você se lembra de quando minha bonequinha Jeanne dava opinião sobre meus quadros? Henri nasceu consciencioso e fora de moda, declarava ela. E eu não piava.
Rimos. Estamos contentes, rejuvenescidos por remexer lembranças humilhantes e amargas. Por que meu velho amigo precisa estragar esse sábado tão conforme às nossas tradições trazendo de volta o nome de Dufferein-Chautel?
Faço uma careta contrariada.
— De novo? Deixe-me um pouco em paz com esse senhor, Hamond. O que sei dele? Que é limpo, corretamente educado, gosta de cães bulls e fuma cigarro. Que, além disso, esteja apaixonado por mim não é, sejamos modestos, um sinal muito particular.
— Mas você faz todo o possível para nunca conhecê-lo.
— É meu direito.
Hamond se irrita e estala a língua, desaprovador.
— É seu direito, é seu direito... Você discute como uma criança, minha querida amiga, asseguro.
Solto minha mão, que ele retinha sob a sua, e falo depressa, apesar de mim.
— O que você assegura? Que ele é um artigo de todo repouso? O que quer, afinal? Que eu durma com esse senhor?
— Renée.
— Ora, é preciso dizer. Você quer que eu faça como todo mundo? Que me decida? Este ou outro, afinal. Quer perturbar minha paz reconquistada, orientar minha vida para outra preocupação que não seja esta, áspera, fortificante, natural: garantir eu mesma minha subsistência? Ou me aconselha um amante por higiene, como se fosse um depurativo? Para quê? Estou bem de saúde e, graças a Deus, não amo, não amo, não amarei mais ninguém. Ninguém. Ninguém.
Gritei tão alto que me calo de repente, confusa. Hamond, menos comovido do que eu, dá-me tempo de me recompor, enquanto o sangue que subiu às minhas faces desce lentamente de volta ao coração.
— Você não amará mais ninguém? Meu Deus, talvez seja verdade. E seria mais triste do que tudo. Você, jovem, forte, terna... Sim, seria mais triste do que tudo.
Indignada, quase chorando, contemplo o amigo que ousa falar comigo assim.
— Hamond... você? Você me diz isso? Depois do que lhe aconteceu, depois do que nos aconteceu, ainda esperaria o amor?
Hamond desvia o olhar, fixa na janela clara seus belos olhos de cão, tão jovens em seu rosto velho, e responde vagamente:
— Sim... Sou muito feliz como sou, é verdade. Mas daí a responder por mim, a declarar que não amarei mais ninguém... francamente, não. Eu não ousaria.
Essa resposta estranha de Hamond seca nossa discussão. Não gosto de falar do amor. A mais decidida grosseria não me assusta, mas essa palavra grave, usada a sério, parece sempre levantar na sala uma cortina que eu preferia deixar caída.