Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 3
Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 3
A primeira hora em Paris foi feita de pés. Élise descobriu isso com certa indignação: uma cidade sonhada por anos, vista em gravuras, citada com respeito nas conversas de domingo, reduzia-se primeiro a calçadas duras, esquinas erradas e ao peso humilde dos sapatos.
Saiu da Gare du Nord seguindo a multidão, porque a multidão parecia saber alguma coisa. Logo percebeu que multidões não têm destino comum; apenas se desmancham em pressas particulares. Um homem quase a derrubou com uma mala. Uma mulher vendeu violetas sem olhá-la. Um cocheiro lhe perguntou para onde ia, e Élise, por orgulho, fingiu não ouvir.
Não podia pagar uma carruagem. Essa foi a primeira verdade parisiense.
A segunda veio dez minutos depois: não sabia onde ficava Montmartre. Conhecia a palavra como se conhece um nome de atriz impresso em cartaz, luminoso e inútil. Montmartre. Em Boulogne, bastava pronunciá-lo para que as pessoas erguessem as sobrancelhas, como diante de uma porta meio indecente. Agora, na rua, Montmartre era uma direção que os outros davam depressa demais.
— Sobe, minha pequena — disse um vendedor de jornais, apontando com o queixo. — Paris boa ou ruim, para Montmartre é sempre para cima.
Ela subiu.
A subida fez com que sua coragem perdesse elegância. À medida que as ruas se inclinavam, Élise sentia os três francos e quarenta encolherem no bolso. Era curioso: o dinheiro não diminuía, mas passava a valer menos a cada vitrine. Pão, café, quarto, sabão, agulha, selo. A liberdade tinha uma contabilidade feroz.
Ao meio-dia e meia, comeu um pão pequeno de pé, perto de uma fonte. Guardou metade para depois, embrulhada no papel que trazia a frase para a mãe. A frase agora tinha migalhas. Isso lhe pareceu adequado. As grandes decisões, vistas de perto, vivem cobertas de migalhas.
Na rue des Martyrs, perguntou por uma pensão barata. A primeira mulher a mediu da cabeça aos pés e disse que não recebia moças sem referência. A segunda perguntou se ela cantava. A terceira, atrás de um balcão com cheiro de caldo e roupa úmida, perguntou apenas:
— Tem dinheiro para duas noites?
Élise mentiu com o queixo antes de mentir com a boca.
— Tenho.
A mulher chamava-se Madame Pallu. Era larga, sem idade definida, com braços de lavadeira e olhos de tabeliã. Conduziu Élise por uma escada estreita, onde o papel das paredes se descolava como pele depois de febre.
— Aqui ninguém faz pergunta se paga adiantado. Se não paga, perguntamos tudo.
O quarto ficava sob o telhado. Uma cama estreita, uma bacia, uma cadeira manca, uma janela que dava para chaminés. Havia uma mancha escura no teto que lembrava mapa de país desconhecido. Élise decidiu que aquele país era seu.
Pagou uma noite, não duas. Madame Pallu notou, mas não comentou. Apenas guardou as moedas no avental e disse:
— Se procura teatro, desça à tarde para o lado dos cafés. Se procura marido, volte para casa antes que seja tarde. Se procura as duas coisas, Deus a ajude.
Quando ficou sozinha, Élise tirou a carta da desconhecida e a colocou sobre a cadeira. Depois tirou o chapéu. Sem chapéu, diante do espelho manchado, pareceu menos fugitiva e mais empregada desempregada. O espelho não colaborava com aventuras.
Lavou o rosto, penteou o cabelo, contou o dinheiro restante: um franco e vinte. Sentou-se na cama. O colchão tinha a espessura moral de uma promessa falsa.
Foi então que o medo chegou de verdade.
Não veio como grito. Veio como cálculo. Se não encontrasse trabalho naquele dia, teria cama até amanhã e fome depois de amanhã. Se escrevesse à mãe, talvez Armand viesse buscá-la. Se não escrevesse, talvez ninguém viesse. A segunda hipótese era mais terrível que a primeira.
Élise deitou sem tirar os sapatos, só por um minuto, e acordou com pancadas na porta.
— Não durma agora, pequena! — gritou Madame Pallu. — Quem dorme de tarde acorda pobre.
Ela desceu com a carta escondida no corpete e o meio pão no bolso. Paris, à tarde, parecia menos brutal e mais cínica. As fachadas dos cafés brilhavam como dentes. Homens parados nas portas avaliavam as mulheres com a mesma rapidez com que avaliavam cavalos, chapéus ou o tempo.
Na entrada de um café-concerto, um cartaz anunciava: Precisa-se de figurantes, coristas e moças de boa apresentação.
Moças de boa apresentação. Élise parou diante da frase como diante de uma janela iluminada. Tinha boa apresentação? Em Boulogne, diziam que ela era séria, limpa, direita. Em Paris, talvez isso não bastasse. Talvez atrapalhasse.
Um rapaz magro, de casaco xadrez e cabelo brilhante, surgiu ao lado dela.
— Está lendo ou se oferecendo?
Élise afastou-se meio passo.
— Estou procurando trabalho.
— Então está se oferecendo. É quase a mesma coisa, só muda o orgulho.
Ele disse isso sem maldade aparente. Tinha olhos vivos e uma boca de quem já pedira desculpas muitas vezes sem se arrepender de nada.
— Canta?
— Não.
— Dança?
— Também não.
— Tem pernas?
Élise corou antes de se enfurecer. O rapaz ergueu as mãos.
— Não fui eu que inventei Paris, senhorita. Pergunto por economia.
Ela deveria ir embora. Em vez disso, ficou. A fome futura segurou-a pelo cotovelo.
— Sei ler, escrever, contar dinheiro, vender bilhetes, copiar endereços, organizar papéis.
— Que tragédia — disse ele. — Virtudes honestas. Aqui pagam pior.
— Então não sirvo.
— Serve para bilheteria. Talvez para guarda-roupa. Talvez para fazer cara de santa numa procissão de revista. Como se chama?
Élise hesitou. O nome verdadeiro ainda lhe pareceu preso à casa.
— Lise.
Foi a primeira amputação voluntária de si mesma. Élise ficara em Boulogne. Lise cabia melhor em Paris: menor, mais rápida, menos explicável.
— Lise o quê?
— Marvan.
— Eu sou Octave, quando convém. Venha.
Ele entrou pelo corredor lateral do café-concerto sem verificar se ela o seguia. Essa confiança a irritou, depois a guiou. No corredor, o ar mudou: poeira, madeira quente, gás, suor antigo, perfume barato, pano úmido, tabaco. O cheiro da palavra artista. Não era bonito. Era vivo.
Passaram por duas mulheres rindo com a boca pintada, um homem de cartola amassada, uma menina costurando lantejoulas sob luz fraca. Alguém gritava que a pluma azul tinha sumido. Alguém respondia que a pluma azul fugira por vergonha.
Élise pensou na carta contra seu peito. A desconhecida havia atravessado mundos assim, ou parecidos. Talvez tivesse odiado. Talvez tivesse sobrevivido. Talvez uma coisa não excluísse a outra.
Octave abriu uma porta e anunciou:
— Madame, achei uma santa alfabetizada.
A mulher sentada atrás da mesa não sorriu. Era pequena, seca, vestida de preto, com um colar de contas vermelhas. Olhou Élise dos sapatos ao cabelo, demorando nos punhos, no pescoço, no medo.
— Santas não duram — disse. — Alfabetizadas, às vezes. Sabe cobrar sem chorar?
Élise endireitou as costas.
— Sei cobrar.
— Sabe calar?
Ela pensou no tio, na mãe, em Armand, na estação, na carta roubada, nas mentiras pequenas que já a tinham trazido até ali.
— Estou aprendendo.
Pela primeira vez, a mulher sorriu.
— Então talvez sirva.