Capítulo 30 - O velho troglodita
Capítulo 30 - O velho troglodita
— Marselha, Nice, Cannes, Toulon...
— Não. Menton antes de Toulon.
— E Grenoble. Temos Grenoble também.
Recenseamos as cidades da turnê como crianças contando bolinhas de gude. Brague decidiu que levaremos duas pantomimas: A Empresa e A Dríade.
— Para os vilarejos grandes onde se fica quatro dias, seis dias — garante ele —, é mais prudente ter uma peça de reserva.
Por mim, está bem. Qualquer coisa está bem. Ninguém é mais benévola e mais aprovadora que eu esta manhã. O ateliê de Cernuschi, onde trabalhamos, quase só ressoa com os estouros de voz de Brague e as risadas do Velho Troglodita, que exulta com a ideia de fazer uma turnê e ganhar quinze francos por dia.
Sua jovem cara faminta, de olhos azuis fundos, reflete uma alegria contínua. E Deus sabe o quanto essa alegria lhe custa.
— Barriga de linguiça! — berra Brague. — Eu vou te dar sorriso de dançarina. Parece que você nunca viu um troglodita. A boca torta, estou dizendo. Mais torta que isso. E o olho desossado. E o tremor na queixada. Um pequeno gênero Chaliapine, entendeu?
O Velho Troglodita ri ainda mais. Brague enxuga a testa e se volta para mim, desencorajado.
— Não sei por que me mato por essa ferramenta. Quando falo em Chaliapine, ele acha que estou dizendo indecências. E você, que faz aí, olhando para o teto?
— Ah, agora é a minha vez? Eu também estava pensando: faz tempo que Brague não me murmura palavras de amor.
Meu camarada professor me mede com desprezo teatral.
— Palavras de amor. Deixo isso para outros. Você não deve sentir falta, hein? Fora. A sessão está encerrada. Amanhã, ensaio com figurino, marcação e acessórios. Isso quer dizer que você terá um véu para sua dança e que o senhor aqui presente carregará uma caixa de velas para imitar a rocha que ele ergue sobre nossas cabeças. Já cansei de ver você com um lenço do tamanho da minha nádega, e o outro com um jornal enrolado fazendo papel de granito. Amanhã, aqui, dez horas. Eu disse.
No instante exato em que Brague termina de falar, um raio de sol doura o teto de vidro. Levanto a cabeça como se alguém me chamasse de repente lá de cima.
— Está me ouvindo, pequena Renée?
— Sim...
— Sim? Pois então vá embora. É hora da sopa. Vá espiar o sol lá fora. Está sonhando com campo, não está?
— Não se pode esconder nada de você. Até amanhã.
Sonho com campo. Sim. Mas não como pensa meu infalível camarada. E a atividade alegre da place Clichy, ao meio-dia, não me desvia de uma lembrança irritante, fresca, viva demais.